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Flamengo propõe reforma para gestão não depender do presidente

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O Flamengo colocou em discussão uma mudança cujo principal teste poderá ocorrer depois da atual presidência. A proposta de reforma estatutária divulgada pelo clube busca tornar permanente a gestão profissional. O ponto central não é apenas contratar executivos, mas reduzir a dependência do modelo administrativo em relação à vontade de cada dirigente eleito.

No comunicado publicado em 14 de setembro, o clube informou que a proposta seria submetida ao Conselho Deliberativo no dia 15. A análise aqui trata do texto apresentado, não de uma aprovação. Também não se trata de transformação em SAF: a estrutura associativa será preservada, segundo o Flamengo.

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A distinção muda o sentido do debate. O projeto tenta alterar a forma de administrar sem trocar a natureza do clube. Seu alcance dependerá menos da palavra “profissionalismo” e mais da capacidade de estabelecer responsabilidades que continuem claras quando houver mudanças de comando, divergências políticas ou pressão por resultados.

A ideia vem antes da reforma

Bap, presidente do Flamengo
Foto: Flamengo TV

A separação entre direção política e trabalho executivo já aparecia na montagem da administração de Luiz Eduardo Baptista, o Bap. Em dezembro de 2024, o ge descreveu uma estrutura na qual os vice-presidentes teriam atuação mais próxima de conselheiros, enquanto profissionais contratados ficariam responsáveis pelas decisões de suas áreas.

O que se discute agora é transformar uma orientação administrativa em regra institucional. Existe uma diferença relevante entre um presidente escolher delegar funções e o clube definir previamente quais atribuições pertencem a cada instância. No primeiro caso, a separação pode depender sobretudo da disposição pessoal de quem ocupa o cargo.

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Uma regra não elimina disputas, mas pode oferecer critérios para resolvê-las. Quem executa precisa conhecer os limites da própria autonomia; quem supervisiona precisa ter instrumentos para cobrar. Se essas fronteiras forem vagas, o risco é reproduzir a mesma sobreposição de poder com uma organização formalmente mais sofisticada.

Autonomia precisa vir acompanhada de cobrança

A proposta prevê executivos remunerados, com um diretor-geral e um diretor de futebol, além de um Conselho Gestor voltado à supervisão. Também inclui planejamento plurianual, transparência e restrições relacionadas a nepotismo e ingresso de antigos ocupantes de cargos eletivos na diretoria profissional. Esses são mecanismos apresentados pelo clube, ainda sujeitos ao processo deliberativo.

Na prática, uma estrutura assim precisa responder a uma pergunta simples: quem presta contas quando uma decisão produz um resultado ruim? A contratação de um profissional não pode servir para afastar a responsabilidade de quem define diretrizes, aprova recursos ou acompanha sua execução. Delegação não deveria significar ausência de fiscalização.

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O problema inverso também merece atenção. Se cada decisão cotidiana depender de negociação política, a autonomia executiva existirá apenas no organograma. Nesse cenário, o clube manteria o custo e a aparência de uma gestão profissional sem necessariamente permitir que ela trabalhasse com responsabilidade identificável sobre suas escolhas.

No futebol, o teste será a pressão

A relação entre planejamento financeiro, vendas e manutenção do elenco ajuda a visualizar a dificuldade. Uma decisão pode ser atraente para o orçamento e inconveniente para a comissão técnica, ou o contrário. O modelo administrativo precisa organizar esse conflito, não fingir que critérios técnicos sempre levarão todos à mesma conclusão.

É justamente nessas situações que processos estáveis podem ter utilidade. Eles permitem registrar premissas, comparar alternativas e identificar quem aprovou determinado caminho. Isso não garante uma boa contratação ou uma venda no momento ideal, mas pode melhorar a qualidade da avaliação posterior e reduzir mudanças de justificativa conforme o resultado.

O mesmo vale para uma sequência negativa em campo. Uma gestão profissional não deve ser imune a correções, nem usar o planejamento como proteção contra críticas. Seu diferencial deveria estar na capacidade de explicar por que mantém ou altera uma decisão, com critérios que não sejam reconstruídos a cada partida.

Continuidade não significa eternizar pessoas

O argumento mais forte da reforma é a possibilidade de preservar conhecimento entre administrações. Uma nova presidência precisa poder mudar prioridades, mas não deveria depender de reconstruir informações básicas, fluxos de trabalho e responsabilidades. Continuidade institucional é diferente de garantir permanência aos profissionais escolhidos por uma gestão específica.

Há também um limite importante para a promessa. Nenhum texto estatutário assegura, sozinho, boa execução, transparência efetiva ou independência na cobrança. Esses resultados exigem prática: informação compreensível, fiscalização atuante e disposição para aplicar as regras quando elas contrariam interesses de pessoas influentes.

Por isso, o alcance da proposta não será medido apenas pela votação. O teste decisivo será observar se o Flamengo consegue manter processos úteis sob presidentes diferentes, permitindo mudanças de orientação sem recomeçar a administração do zero. É nessa continuidade, e não na permanência de Bap, que a profissionalização poderá se tornar patrimônio do clube.

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Anna Millard
Anna Millard
Jornalista pela Universidade Federal de Ouro Preto. Tem experiência em jornalismo esportivo, cidades e economia. Passou pelo setor público em assessoria de comunicação e assessoria de imprensa.