Pulgar, Jorginho, Lucas Paquetá e Arrascaeta. Lidos individualmente, os quatro nomes ajudam a explicar por que o meio-campo do Flamengo é apontado como um dos mais fortes do futebol sul-americano. Existe, entretanto, uma diferença considerável entre o elenco disponível no papel e aquilo que efetivamente entrou em campo em 2026.
Os quatro jogaram juntos durante apenas 175 minutos em toda a temporada.
Foram somente quatro partidas nas quais Pulgar, Jorginho, Paquetá e Arrascaeta estiveram simultaneamente em campo. Em apenas uma delas o quarteto começou como titular. A última vez aconteceu ainda em 11 de março, na vitória por 2 a 0 sobre o Cruzeiro pelo Campeonato Brasileiro.
Quase cinco meses depois, Leonardo Jardim ainda não conseguiu transformar a combinação mais badalada do setor em uma formação recorrente.
Apenas um jogo começou com os quatro juntos
Os números mostram o tamanho da distância entre expectativa e realidade.
O quarteto dividiu o campo contra Corinthians, Lanús, Fluminense e Cruzeiro. Somando essas partidas, foram 175 minutos com dois gols marcados e dois sofridos pelo Flamengo.
Contra o Cruzeiro aconteceu a única experiência desde o início. Os quatro permaneceram juntos por 77 minutos e, durante esse período, o Flamengo marcou uma vez e não sofreu gols.
Nas outras aparições, a formação existiu apenas durante partes das partidas. Foram 11 minutos diante do Corinthians, 66 contra o Lanús e 21 diante do Fluminense.
Na prática, o Flamengo chegou ao fim de agosto sem possuir uma amostra suficiente para sequer determinar com segurança se sua formação mais estrelada funciona.
Lesões desmontaram qualquer tentativa de sequência
Parte da explicação está no departamento médico.
Jorginho perdeu seis partidas em fevereiro por uma lesão na coxa esquerda e outras quatro em abril por um problema na panturrilha direita. Pulgar ficou 13 jogos afastado entre abril e maio por lesão no ombro.
Arrascaeta sofreu uma fratura na clavícula no fim de abril e perdeu o restante do primeiro semestre. Paquetá, por sua vez, lesionou a coxa esquerda durante a Copa do Mundo e ficou fora de quatro partidas após o retorno ao clube.
Sempre que Leonardo Jardim parecia próximo de reunir as peças, alguma delas deixava de estar disponível.
Agora surge outro problema: todos podem jogar, mas talvez não devam necessariamente jogar juntos.
O dilema Paquetá muda a discussão
A questão principal está na função de Lucas Paquetá.
Quando utilizado aberto pela direita, o camisa 20 não apresentou o mesmo rendimento observado quando atua mais centralizado, inclusive como segundo volante. O problema é que essa faixa do campo também é ocupada por Jorginho.
Arrascaeta, naturalmente, precisa de liberdade próximo à área. Pulgar oferece equilíbrio defensivo e proteção. Colocar os quatro simultaneamente exige que alguém seja deslocado de sua melhor função.
É uma situação curiosa para um elenco conhecido justamente pela quantidade de alternativas.
O Flamengo não sofre por falta de meio-campistas. Sofre porque acumulou jogadores de nível elevado cujas melhores versões ocupam espaços semelhantes.
Jardim precisa escolher entre nomes e funções
A reta final da temporada deverá responder uma pergunta que praticamente não existia quando os quatro foram reunidos: montar o time com os melhores jogadores significa necessariamente colocar todos juntos?
Até agora, Leonardo Jardim tem dado sinais de que não.
Paquetá e Arrascaeta passaram a alternar momentos dentro de determinadas formações, enquanto Jorginho recuperou espaço pelas atuações recentes. Pulgar continua oferecendo características difíceis de substituir.
O resultado é um paradoxo. O Flamengo conseguiu reunir Pulgar, Jorginho, Paquetá e Arrascaeta no mesmo elenco, mas atravessou praticamente dois terços de 2026 sem conseguir transformar os quatro em um verdadeiro meio-campo.
Os 175 minutos mostram que o grande desafio rubro-negro talvez não esteja em encontrar mais talento. Está em decidir como utilizar o talento que já possui.


