O Itaú Unibanco assinou um contrato de R$ 2,925 bilhões para a aquisição integral da NeoSpace, startup de inteligência artificial voltada ao uso de dados corporativos. A transação marca o segundo acordo milionário do banco com os empreendedores Bruno Pierobon, Felipe Almeida e Gustavo Debs. O trio, originário do ecossistema de Uberlândia (MG), já havia vendido a Zup, desenvolvedora de soluções de transformação digital, para o mesmo Itaú em 2019, em um negócio avaliado em R$ 575 milhões.
Estrutura do pagamento e aprovações
O montante de R$ 2,9 bilhões representa um salto de escala na negociação, mas não corresponde a um pagamento à vista aos fundadores e acionistas. O contrato prevê a liquidação de uma parcela inicial no fechamento da transação, seguida por pagamentos escalonados ao longo de cinco anos, condicionados ao atingimento de metas operacionais e financeiras (modelo earnout).
A formalização da compra depende ainda da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e do Banco Central (BC). Segundo o fato relevante divulgado pelo Itaú, a operação não resultará na incorporação imediata da startup. A NeoSpace manterá autonomia administrativa, quadro de funcionários e a liderança de Bruno Pierobon como principal executivo (CEO).
Histórico societário e foco em IA
A NeoSpace foi formalmente constituída em novembro de 2023, em Uberlândia, com foco exclusivo em inteligência artificial. A empresa desenvolve modelos fundacionais (foundation models) treinados diretamente nas bases de dados das companhias contratantes. A tecnologia é parametrizada para identificar padrões de consumo, gerenciar riscos de crédito e estruturar sistemas antifraude.
O Itaú não entrou no negócio apenas como comprador final. Em janeiro de 2025, o banco já havia aportado US$ 15 milhões em uma rodada de investimentos da startup, garantindo 15% de participação no capital da NeoSpace. Desde então, a empresa mineira atua como fornecedora e desenvolvedora da ia.i, a plataforma interna de inteligência artificial do Itaú.
Valuation e impacto no Triângulo Mineiro
O valor do negócio expõe a precificação agressiva sobre ativos de inteligência artificial no mercado financeiro. A NeoSpace estimava fechar o ano de 2026 com faturamento na casa dos R$ 300 milhões. A avaliação implícita de R$ 2,925 bilhões reflete um múltiplo de quase dez vezes a receita esperada, e multiplica por seis o valuation registrado na rodada de investimentos do início de 2025.
Para o polo de inovação do Triângulo Mineiro, a operação repete uma dinâmica rara no mercado corporativo brasileiro. Os mesmos fundadores criaram duas empresas de infraestrutura tecnológica no interior de Minas Gerais e venderam ambas para a maior instituição financeira privada do país em um intervalo de menos de dez anos — fornecendo a base para a digitalização do banco no fim da década passada e, agora, para sua automação por inteligência artificial.


