A Usiminas chega à reta final de outubro diante de uma encruzilhada operacional que ficará evidente na divulgação de seu balanço do terceiro trimestre de 2026, agendada para o próximo dia 30. A gigante siderúrgica e mineral mineira experimenta realidades diametralmente opostas em suas duas principais linhas de negócio: enquanto a produção de aço em Ipatinga tenta sustentar o fluxo de caixa da companhia, a divisão de mineração enfrenta uma deterioração severa de rentabilidade, asfixiada por uma crise logística global.
O mercado financeiro já precifica um trimestre de recuo em relação aos números do período anterior. Analistas do banco Itaú BBA projetam um EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) consolidado de R$ 619 milhões para o 3T26. O Citi é ainda mais conservador e trabalha com uma estimativa de R$ 588 milhões. Para efeito de comparação, no segundo trimestre, a companhia havia entregado R$ 761 milhões nessa mesma métrica de geração de caixa.
A discrepância de desempenho não é novidade, mas está se aprofundando. No trimestre passado, o aço já havia retomado seu protagonismo absoluto (R$ 688 milhões de EBITDA), enquanto a mineração respondeu por tímidos R$ 71 milhões. O cenário projetado para o balanço a ser divulgado na próxima semana, no entanto, aponta para o quase desaparecimento da contribuição financeira das minas.
O drama do frete na Mineração Usiminas
A raiz do problema que afeta a unidade de Itatiaiuçu, na Região Central de Minas Gerais, atende pelo custo do transporte marítimo. Com a escalada de tensões no Oriente Médio desorganizando as cadeias de suprimento e as rotas globais, o frete da rota Brasil-China — que girava na casa dos US$ 22 a US$ 23 por tonelada — saltou bruscamente ao longo do ano para o patamar de US$ 35 a US$ 38.
Em determinados momentos deste trimestre, embarcar o minério de ferro chegou a custar US$ 40 por tonelada. Como a Usiminas alertou recentemente, o frete chegou a devorar cerca de um terço (33%) do preço total de referência global da commodity.
Ao contrário de gigantes globais como a Vale, que possuem frotas próprias, os navios Valemax e portos profundos dedicados para diluir pesadamente o custo de transporte, operações minerais menores sofrem impacto imediato de competitividade com a alta do frete de terceiros. A conta parou de fechar, e a consequência prática foi drástica: no dia 2 de setembro, a Usiminas suspendeu por tempo indeterminado as atividades da planta de Samambaia.
A unidade paralisada é responsável por aproximadamente 35% de toda a produção mineral da empresa (cerca de 3 milhões de toneladas de uma capacidade anual que ronda os 9 milhões). Embora a Mina Oeste e a planta de flotação sigam operando, analistas estimam um baque profundo. O Itaú BBA projeta que o EBITDA da mineração despenque para irrisórios R$ 11 milhões neste 3T26. Para o Citi, o efeito cascata será tão forte que a divisão de mineração poderá entrar em terreno de prejuízo operacional (EBITDA negativo) já no quarto trimestre.
A siderurgia de Ipatinga como âncora financeira
Com a mineração machucada, todas as fichas se voltam para o desempenho da Usina de Ipatinga. O Itaú BBA estima que a divisão de siderurgia reporte um EBITDA de aproximadamente R$ 608 milhões, absorvendo quase a totalidade do resultado consolidado do grupo. O fôlego vem de um ligeiro aumento nos embarques de aço (cerca de 2,5%) e de repasses que elevaram os preços domésticos em aproximadamente 2%.
O desafio, contudo, é que a receita maior encontra pela frente uma inflação de insumos implacável. Matérias-primas essenciais para a usina — como carvão, coque siderúrgico e placas pré-fabricadas — encareceram neste terceiro trimestre.
Para compensar esse custo e manter a margem de lucro intacta (projetada pela XP entre 10% e 11%), a Usiminas precisará provar, no balanço, que os seus recentes investimentos em eficiência estão de fato operando no potencial máximo. O mercado avaliará com lupa o desempenho do novo sistema de injeção de carvão pulverizado (PCI) instalado no Alto-Forno 3. A tecnologia substitui parte do uso do coque, que é mais caro, por carvão pulverizado, reduzindo o custo final de produção da bobina de aço.
O retorno da pressão dos importados
Ainda no campo do aço, a Usiminas enfrenta um obstáculo comercial crescente. Após um período de retração das importações asiáticas que aliviou o mercado interno brasileiro, setembro registrou um novo ímpeto na entrada de aço estrangeiro no país. O Citi alerta que esse volume restringe fortemente a capacidade da empresa mineira de aplicar novos reajustes de preço nos meses seguintes sem perder clientes para o aço importado da China e da Rússia.
As recentes revisões em baixa promovidas por casas como Goldman Sachs e Morgan Stanley refletem justamente esse estrangulamento da “tesoura” siderúrgica: custos de produção mais altos na base e dificuldade de repassar preços no balcão por culpa da concorrência desleal externa.
Apesar da tempestade perfeita na logística mineral e na geopolítica do aço, o balanço tem um amortecedor robusto. A empresa encerrou o trimestre anterior com uma posição confortável: R$ 6,82 bilhões em caixa e aplicações financeiras frente a R$ 6,32 bilhões em dívidas brutas. Com um caixa líquido positivo (sem alavancagem), a diretoria possui fôlego financeiro para atravessar o vale operacional de Itatiaiuçu.
O balanço do dia 30 responderá, em números, qual é o nível de dependência da siderurgia no atual ciclo. Porém, a grande resposta aguardada pelos analistas do setor mineral em Minas Gerais na teleconferência do dia seguinte será uma só: em qual cenário de preço do minério e do frete a Usiminas voltará a ligar as máquinas da usina de Samambaia?


