A Usiminas voltou ao radar dos bancos nesta segunda-feira, 13 de julho, com um alerta que vai além da tela da Bolsa. O Bradesco BBI reduziu o preço-alvo de USIM5 de R$ 10 para R$ 8,50, mantendo recomendação neutra para a ação, em uma leitura mais cautelosa sobre custos, repasse de preços e pressão das importações sobre a indústria nacional.
Para o investidor, a mudança mexe com a tese de valorização de uma ação que subiu forte em 2026. Para Minas Gerais, o recado é maior. A Usiminas não é apenas uma empresa listada na B3. É o símbolo industrial de Ipatinga, uma das âncoras econômicas do Vale do Aço e uma companhia cuja operação atravessa fornecedores, empregos, arrecadação, logística, mineração, indústria automotiva e construção civil.
A revisão do Bradesco BBI muda o tom de um ciclo que vinha mais favorável. Em maio, o próprio banco havia elevado o preço-alvo da Usiminas de R$ 6 para R$ 10, também mantendo recomendação neutra, após a melhora operacional e os reajustes de preços no mercado brasileiro. Naquele momento, o alerta já existia: a forte alta das ações deixava o risco-retorno menos confortável e a demanda doméstica ainda dava sinais de fragilidade, especialmente em setores como indústria e automóveis.
Agora, o mercado volta a olhar para a pergunta principal: até onde a Usiminas consegue defender margem se o aço importado continua pressionando preços e se os custos de produção voltam a subir?
Por que o mercado ficou mais cauteloso
A Usiminas teve um primeiro trimestre mais forte do que o esperado. O Ebitda ajustado consolidado chegou a R$ 653 milhões, alta de 56% em relação ao quarto trimestre de 2025, embora ainda 11% abaixo do primeiro trimestre do ano anterior. A melhora veio com mix de produtos mais favorável, redução de custos e recuperação de competitividade.
O lucro líquido também chamou atenção. A companhia registrou R$ 896 milhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 166% sobre o mesmo período de 2025. Mas havia um sinal menos animador no mesmo balanço: a receita líquida ficou em R$ 5,87 bilhões, queda de 14% na comparação anual, refletindo menor desempenho nas áreas de siderurgia e mineração.
Esse contraste ajuda a explicar a cautela dos bancos. A empresa mostrou capacidade de melhorar resultado em um trimestre, mas ainda precisa provar que consegue sustentar esse desempenho em um ambiente difícil para o aço. Uma coisa é capturar reajustes, mix melhor e alívio temporário de custos. Outra é atravessar vários trimestres com importações competitivas, demanda irregular e cliente industrial negociando preço.
A ação também já incorporou parte da melhora. Dados de mercado indicam que USIM5 começou 2026 perto de R$ 6 e chegou a ser negociada na casa de R$ 8,45 em julho. Em maio, reportagens de mercado já apontavam valorização superior a 50% no ano, antes mesmo da nova rodada de cautela dos bancos.
Quando uma ação sobe antes da confirmação de uma melhora duradoura, o espaço para decepção aumenta. É nesse ponto que o corte de preço-alvo pesa. Ele não diz que a Usiminas perdeu relevância. Diz que o mercado passou a cobrar mais provas.
Aço importado continua no centro da disputa
A pressão das importações é o ponto mais sensível para a siderurgia brasileira. Em 2025, o país importou 5,7 milhões de toneladas de produtos laminados, alta de 20,5%, no maior volume em 15 anos. Segundo o Instituto Aço Brasil, 63,7% desse total veio da China.
Esse aço chega ao Brasil em um momento de excesso global de capacidade produtiva, especialmente na Ásia. Para siderúrgicas nacionais, o problema não é apenas perder venda. É perder poder de preço. Se o produto importado entra mais barato, a indústria local tem menos espaço para reajustar aços planos, mesmo quando minério, carvão, energia, manutenção, mão de obra e câmbio pressionam a estrutura de custos.
A Usiminas é uma das empresas mais expostas a essa dinâmica porque sua força está nos aços planos, usados por setores como automóveis, máquinas, linha branca, tubos, construção e indústria de transformação. Quando esses clientes encontram alternativa importada ou percebem demanda mais fraca na ponta, a negociação fica mais dura.
O governo tentou responder com medidas de defesa comercial. Em fevereiro de 2026, o Gecex/Camex aprovou medidas antidumping contra aços pré-pintados da China e da Índia e elevou temporariamente tarifas de importação para alguns produtos siderúrgicos. O Instituto Aço Brasil tratou a decisão como reforço contra importações consideradas predatórias.
O efeito começou a aparecer nas projeções. Em maio, o setor passou a prever queda das importações em 2026, depois do avanço das barreiras comerciais. Ainda assim, o dado mais recente do consumo mostra que a recuperação não é linear. Até maio, a produção brasileira de aço bruto acumulava queda de 1,9%, enquanto o consumo aparente somava 10,8 milhões de toneladas, recuo de 4,1% frente aos cinco primeiros meses de 2025.
Esse cenário é desconfortável para uma empresa como a Usiminas. Menos importação ajuda a aliviar a concorrência. Mas consumo fraco limita a capacidade de transformar esse alívio em aumento sustentado de preço.


