Minas Gerais segue sendo o maior produtor de aço do Brasil, mas maio trouxe sinais de enfraquecimento que precisam ser lidos com atenção. A produção mineira de aço bruto caiu para 767 mil toneladas no mês, recuo de 3,2% em relação a abril e de 5,2% frente a maio de 2025. No acumulado de janeiro a maio, as siderúrgicas mineiras chegaram a 4,023 milhões de toneladas, participação de 30,3% na produção nacional.
O que os números revelam
A queda mineira, divulgada pelo Instituto Aço Brasil, veio num mês em que a produção nacional de aço bruto somou 2,8 milhões de toneladas, alta de 2,4% sobre maio do ano passado. Minas puxou o resultado para baixo enquanto outros estados avançaram.
Mas o problema não é só de um mês. No acumulado do ano, o Brasil também está no negativo: 13,4 milhões de toneladas de janeiro a maio, queda de 1,9%. O consumo aparente de produtos de aço recuou 4,1% no período. A produção de laminados, mais ligada à indústria e à construção, caiu 3,7%.
Não basta produzir. O mercado interno precisa absorver. E a demanda doméstica não está ajudando. O Índice de Confiança da Indústria do Aço chegou a 47,8 pontos em junho, queda de 12,1 pontos em relação a maio. Leituras abaixo de 50 indicam pessimismo. É o menor nível de confiança que o setor registra no ano.
Usiminas, Gerdau, Vallourec e ArcelorMittal no mesmo ambiente difícil
O aço mineiro não se reduz a uma empresa ou a uma cidade. Ipatinga, Ouro Branco, João Monlevade, Jeceaba, Belo Horizonte e Juiz de Fora formam um mapa industrial que passa por Usiminas, Gerdau, Vallourec e ArcelorMittal — cada uma com perfil próprio, mas todas sentindo o mesmo ambiente.
A Usiminas é referência em aços planos, usados em automóveis, máquinas, equipamentos e construção. Quando a demanda doméstica oscila, a empresa sente rápido. A companhia também convive com a pressão das importações asiáticas, que nos últimos anos afetaram preços e margens no segmento de planos.
A Gerdau tem em Ouro Branco uma de suas maiores operações no país, com investimentos bilionários formalizados junto ao governo estadual em 2025, incluindo expansões em Ouro Preto e Congonhas. Um mês fraco não apaga esse compromisso, mas o ambiente mais restritivo complica o ritmo de execução.
A Vallourec foca em tubos sem costura para óleo e gás, com usinas em Belo Horizonte e Jeceaba. A ArcelorMittal tem presença em João Monlevade e também na mineração que abastece sua própria cadeia. Empresas diferentes, produtos diferentes, mas todas dependendo de uma economia industrial mais aquecida para crescer.
A pressão das importações caiu — mas não resolveu
Um ponto positivo nos dados nacionais foi a queda nas importações. De janeiro a maio, o Brasil importou 2,4 milhões de toneladas de aço, recuo de 17% em relação ao mesmo período de 2025. Em maio, a retração foi de 55,4% em volume.
Parte do setor enxerga esse movimento como resultado das medidas de defesa comercial dos últimos anos. A entrada de aço asiático era uma das maiores queixas das siderúrgicas brasileiras.
Mesmo assim, o alívio não restaurou confiança. Se a indústria compra pouco, a melhora contra importados não fecha toda a conta. O problema não é só externo. É também a demanda interna fraca, os juros altos que encarecem o crédito para construção e indústria, e a hesitação das empresas em ampliar investimentos num ciclo incerto.
As exportações deram outro sinal misto. De janeiro a maio, o Brasil vendeu 4,4 milhões de toneladas para fora, alta de 7,8% em volume. Em valor, porém, queda de 2,8%, para US$ 2,9 bilhões. Vendeu-se mais, mas com menor preço médio. Em maio, as exportações recuaram 35% em volume na comparação anual.
Por que a siderurgia mineira é termômetro da indústria
O aço tem peso diferente em Minas. Não aparece só no balanço das empresas. Está na história industrial do estado, no Vale do Aço, na Região Central e em cidades que se organizaram em torno de usinas e de cadeias de fornecimento.
Quando a produção cai, fornecedores menores sentem também. Empresas de manutenção, transporte, refratários, logística, engenharia e serviços ambientais acompanham o ritmo das usinas.
A indústria automotiva é outro elo importante. Minas tem a Fiat em Betim e uma rede de autopeças distribuída pelo estado. Aços planos e especiais entram diretamente nessa cadeia. Se a produção de veículos oscila, o reflexo chega à siderurgia.
A construção civil também pesa. Aços longos entram em obras, infraestrutura e projetos industriais. Com juros altos, construtoras ficam mais seletivas e postergam encomendas.
Minas segue na frente com folga. O Rio de Janeiro aparece em segundo no acumulado do ano, com 26,5% da produção nacional. São Paulo vem atrás, com alta de 3,6% nos cinco primeiros meses. A posição mineira é sólida. Mas a sequência de quedas abre uma pergunta que o setor ainda não respondeu: é uma liderança com fôlego para crescer ou uma liderança de resistência enquanto o ambiente não melhora?





