HomeCapital M - Negócios e EconomiaDa guerra no Irã a Black Friday: geopolítica afetou as férias coletivas...

Da guerra no Irã a Black Friday: geopolítica afetou as férias coletivas na Itaminas

Publicado em

A escalada dos custos de logística internacional provocou um hiato na produção da Itaminas, localizada em Sarzedo, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Pressionada por um frete marítimo que se tornou mais caro do que a própria extração do minério de ferro, a companhia concederá férias coletivas a cerca de 300 funcionários ao longo do mês de outubro, paralisando parte de suas atividades.

A medida ilustra o gargalo logístico enfrentado atualmente pelo setor de mineração em Minas Gerais. Segundo os dados da operação, a extração de uma tonelada de minério custa para a empresa entre US$ 21 e US$ 23. No entanto, o transporte dessa mesma carga por navio até os mercados compradores no exterior atingiu a marca de US$ 42.

- Publicidade -

Desde o início do ano o frete marítimo já teve alta expressiva, chegando a 400%. A guerra no Irã, que obriga que as cargas sigam por novas rotas e a alta do petróleo são apontadas como principais motivos da subida. Mas até sazonalidade da época, com a black friday, entra na conta. Como mais navios estão transportando mercadorias para abastecer lojas, são menos opções livres.

O peso do frete na operação

A distorção nos custos logísticos alterou completamente a margem da cadeia produtiva. O valor atual de transporte representa um salto de 121% em um intervalo de apenas 12 meses, considerando que o mesmo deslocamento custava cerca de US$ 19 por tonelada há um ano, de acordo com o CEO da empresa, Thiago Toscano.

Na configuração atual, o custo apenas do navio chega a ser de 83% a 100% superior ao montante gasto para produzir o próprio minério. Com a commodity negociada no mercado internacional na faixa de US$ 100, a estrutura de custos foi severamente impactada:

- Publicidade -
  • Frete marítimo: Consome cerca de 42% do valor bruto de venda do produto.
  • Custo de produção: Representa de 21% a 23% da tonelada vendida.
  • Saldo operacional: Sobram apenas entre US$ 35 e US$ 37 para cobrir todas as demais etapas da cadeia. Este valor não é lucro, mas sim o montante que precisa absorver a logística terrestre, transporte ferroviário, operação portuária, impostos e despesas comerciais.

A Itaminas é altamente vulnerável a essas flutuações porque destina cerca de 90% de sua produção ao mercado externo. A capacidade instalada da mineradora é de 9 milhões de toneladas anuais. Desse total, aproximadamente 8,1 milhões dependem exclusivamente do escoamento marítimo. Até agosto deste ano, a produção acumulada já somava 6,2 milhões de toneladas.

O cenário interno da empresa reflete o comportamento global do setor. Em setembro, a taxa de frete de um navio do tipo Capesize na rota de referência entre Brasil e China (Qingdao) chegou a US$ 40,72 por tonelada, segundo levantamento da consultoria Mysteel. O patamar é classificado por analistas como o dobro da média histórica considerada normal para a rota.

Férias coletivas e modernização

Itaminas Mineração em Minas Gerais
Itaminas Mineração – Foto: Itaminas/Divulgação

O afastamento temporário dos 300 trabalhadores afetará cerca de um terço do quadro funcional da companhia. A estratégia envolve a paralisação de parte de uma das quatro plantas da empresa em outubro, com a previsão técnica de que as atividades sejam normalizadas em novembro. A direção da Itaminas confirmou que não ocorrerão demissões no período.

- Publicidade -

A parada não foi motivada por falta de espaço para armazenamento, visto que a empresa ainda possui capacidade física para ampliar seus estoques. A administração avaliou que reduzir o ritmo de extração neste momento de frete elevado era financeiramente mais estratégico. Durante as semanas de ociosidade, a companhia antecipará as obras de manutenção e de modernização na sua planta de concentração magnética, otimizando o tempo de parada.

Apesar do freio imediato na produção, a companhia garante que seu planejamento de longo prazo segue inalterado. O cronograma de aportes prevê um total de R$ 1,5 bilhão até 2033 para expandir e modernizar a unidade de Sarzedo. Apenas para o calendário de 2026, a previsão é injetar entre R$ 150 milhões e R$ 200 milhões na operação.

Até o início desta escalada de preços globais, a estruturação logística vinha sendo tratada como um trunfo para a companhia mineira. Em 2025, a Itaminas firmou um acordo estratégico com o Porto Sudeste, no Rio de Janeiro, garantindo a exportação direta de até 4 milhões de toneladas anuais. A manobra reduziu significativamente a sua dependência comercial da infraestrutura de outras grandes mineradoras para acessar a Ásia.

Impacto em cadeia em Minas Gerais

O movimento defensivo da mineradora de Sarzedo não é um fato isolado no estado. No início de setembro, a Mineração Usiminas também adotou a suspensão temporária de sua planta de Samambaia, localizada no município de Itatiaiuçu. A unidade paralisada responde por uma fatia de 30% a 35% de toda a produção mineral da siderúrgica.

A justificativa de mercado foi idêntica à da Itaminas: o desequilíbrio gerado pela combinação entre o recuo no preço internacional do minério de ferro e a alta agressiva das tarifas de frete marítimo. O cenário atual comprova que, para as mineradoras de médio porte em Minas Gerais, o principal desafio logístico e financeiro deixou de ser o custo de extração da terra e passou a ser o custo de transporte nos oceanos.

- Publicidade -
Fhilipe Pelájjio
Fhilipe Pelájjiohttps://moonbh.com.br/fhilipe-pelajjio/
Publicitário, jornalista e pós-graduado em marketing, é editor do Moon BH e do Jornal Aqui de BH e Brasília. Já foi editor do Bhaz, tem passagem pela Itatiaia e parcerias com R7, Correio Braziliense e Estado de Minas. Especialista na cobertura de política, economia de Minas Gerais e de futebol e sua influência econômica e política.