A Itaminas está prestes a ganhar um reforço de peso em sua infraestrutura: uma rede de energia de alta tensão construída sob medida para abastecer a sua operação em Sarzedo, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Documentos analisados pelo Moon BH, de uma operação de securitização revelaram que a construção dessa subestação está atrelada a uma captação de R$ 94,261 milhões no mercado financeiro, realizada por meio de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs). A engenharia da operação é baseada nos pagamentos futuros que a mineradora fará pelo uso exclusivo do empreendimento.
Essa manobra financeira ajuda a iluminar uma parte pouco visível, mas fundamental, do agressivo ciclo de expansão da Itaminas. Após produzir cerca de 8 milhões de toneladas de minério de ferro em 2025, a empresa projeta saltar para 8,5 milhões em 2026, amparada por um robusto programa de investimentos que prevê a injeção de R$ 1,5 bilhão entre 2024 e 2033.
O projeto elétrico funciona no modelo build-to-suit (construído sob medida para o cliente). O contrato foi firmado em janeiro de 2025 entre a Alta Energia Savassi e a Itaminas. A documentação financeira descreve o projeto expressamente como a execução de engenharia e construção de uma infraestrutura de alta tensão destinada exclusivamente às necessidades da mineradora.
Embora os documentos financeiros retenham alguns detalhes técnicos, a SM&A Sistemas Elétricos e Automação, empresa envolvida na obra, confirmou publicamente o início dos trabalhos conjuntos com a Alta Energia para a implantação da Subestação 138 kV da Itaminas.
Como a captação de R$ 94,3 milhões foi estruturada
Os registros públicos detalham a evolução e o tamanho da operação. Inicialmente, a oferta previa a emissão de 105.214 CRIs (no valor nominal de R$ 1 mil cada), podendo atingir até R$ 105,2 milhões. No entanto, a captação efetivamente realizada fechou um pouco abaixo desse teto.
As demonstrações financeiras auditadas da Paraty Energia (grupo que abriga a Alta Energia) registraram a captação de R$ 94,261 milhões no mercado de capitais. O documento estipula que os recursos são liberados gradativamente para a Alta Energia conforme o avanço físico das obras, validado por medições de uma empresa especializada. A liquidação financeira da operação foi concluída em 2 de junho de 2026.
Na prática, isso significa que seria incorreto afirmar que a Itaminas simplesmente pegou um empréstimo no banco ou tirou R$ 94,3 milhões do próprio caixa para construir a obra. A arquitetura financeira é mais engenhosa: a Alta Energia desenvolve o ativo e antecipa o dinheiro no mercado de capitais. Os investidores que compraram os CRIs recebem seu retorno lastreado justamente nos pagamentos mensais de aluguel que a Itaminas fará pela subestação.
O terreno, parte da Fazenda do Engenho Seco (na zona rural de Sarzedo), pertence à mineradora. Pelo acordo, a Itaminas concedeu o direito de superfície à Alta Energia para permitir a construção. Após a entrega, a operação dos equipamentos passará para as mãos da própria mineradora.
A conexão com a linha de 138 kV entre Betim e Sarzedo
A magnitude do projeto energético da mineradora transparece também nos registros de regulação do setor elétrico.
Em 2024, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) analisou o pedido da Cemig Distribuição referente à Linha de Distribuição Betim 5 – Itaminas, também operando em 138 kV. O projeto descreve uma linha de circuito simples com quase 37 quilômetros de extensão, rasgando os territórios de Betim e Sarzedo.
Mais recentemente, em abril de 2026, o Governo de Minas Gerais publicou um decreto declarando de utilidade pública a implantação dessa linha. O documento cita a Itaminas e ressalta que as obras cortam áreas de preservação permanente e do bioma Mata Atlântica, exigindo rigoroso licenciamento ambiental.
Embora não seja possível cravar se os R$ 94,3 milhões captados financiam toda a extensão dessa linha ou apenas a subestação, os dois movimentos deixam claro que a Itaminas está erguendo uma espinha dorsal elétrica de grande porte, proporcional à sua ambição industrial.


