As grandes redes varejistas de Minas Gerais movimentam bilhões de reais por ano, mas o tamanho de sua influência sobre a economia mineira também pode ser medido por outro indicador: a quantidade de pessoas que trabalham nessas empresas. Um levantamento com dados de 2025 mostra que quatro grupos empresariais concentram 97.464 funcionários, o equivalente a 56,7% dos empregos informados pelas 21 maiores varejistas mineiras que declararam seus quadros de pessoal no Ranking TOP 300 do Varejo Brasileiro 2026.
O grupo é formado por Supermercados BH, Mart Minas/Dom Atacadista, DMA Distribuidora, responsável pelas bandeiras Epa e Mineirão, e Drogaria Araujo. Juntas, as companhias respondem por mais da metade dos 171.812 trabalhadores identificados no recorte estadual do levantamento, elaborado pelo Instituto Retail Think Tank (IRTT). A concentração revela como um número relativamente pequeno de empresas possui influência sobre uma parcela expressiva dos empregos formais associados às maiores operações varejistas de origem mineira.
A dimensão desses negócios ajuda a compreender por que decisões relacionadas à abertura de lojas, integração de operações, investimentos em tecnologia e mudanças nos processos de atendimento têm consequências que ultrapassam o ambiente empresarial. Quando uma rede com milhares de funcionários modifica sua estrutura, os efeitos podem alcançar diferentes municípios, fornecedores, transportadoras e trabalhadores que dependem direta ou indiretamente de suas atividades.
O levantamento, entretanto, não representa todos os empregos do comércio varejista de Minas Gerais. O recorte considera as companhias sediadas no estado que integram o ranking nacional e informaram seus números de funcionários, deixando de fora milhares de pequenos estabelecimentos, redes de outras unidades da Federação e empresas que não declararam esse indicador.
Supermercados BH emprega quase 50 mil pessoas
O Supermercados BH lidera o levantamento mineiro com 49.233 funcionários, número que representa aproximadamente 28,7% de todos os trabalhadores declarados pelas 21 companhias analisadas. Na prática, quase três em cada dez empregos desse grupo de grandes varejistas estão associados à rede fundada pelo empresário Pedro Lourenço, conhecido como Pedrinho BH.
A companhia também aparece entre as maiores empregadoras do varejo brasileiro, ocupando a quinta posição nacional nesse critério. O resultado acompanha a expansão comercial da empresa, que encerrou 2025 com R$ 25,7 bilhões em vendas e alcançou a nona colocação no ranking geral das maiores varejistas do país, considerando diferentes segmentos de atuação.
A relação entre faturamento, número de lojas e quantidade de trabalhadores ajuda a dimensionar a estrutura necessária para manter uma operação desse porte. Além das equipes responsáveis pelo atendimento ao consumidor, o funcionamento de uma grande rede supermercadista depende de profissionais de logística, abastecimento, armazenamento, administração, tecnologia e distribuição.
O crescimento também envolve a integração de operações adquiridas de outras empresas. Em 2026, o Supermercados BH avançou na incorporação de unidades das bandeiras Epa e Mineirão, pertencentes à DMA. O movimento ampliou a presença da companhia em diferentes mercados, mas exige uma ressalva na interpretação dos dados: os números do ranking correspondem ao exercício de 2025 e não representam necessariamente a estrutura de empregos resultante das negociações realizadas posteriormente.
Mart Minas, DMA e Araujo completam o grupo das maiores empregadoras
A segunda posição entre as varejistas mineiras é ocupada pelo Mart Minas/Dom Atacadista, com 18.919 funcionários, o equivalente a aproximadamente 11% do total analisado. A rede atua no segmento de atacarejo, modelo que combina vendas em grandes volumes com atendimento ao consumidor final e que ganhou espaço no mercado brasileiro ao longo dos últimos anos.
Na sequência aparece a DMA Distribuidora, com 17.176 trabalhadores, representando cerca de 10% do contingente. A companhia reúne operações de supermercados e atacarejos e participou de uma das movimentações empresariais mais relevantes do varejo mineiro em 2026, ao negociar parte de suas unidades com o Supermercados BH.
A quarta colocação pertence à Drogaria Araujo, com 12.136 funcionários, ou aproximadamente 7,1% do total. A rede farmacêutica, que mantém suas lojas físicas concentradas em Minas Gerais, registrou vendas superiores a R$ 5 bilhões em 2025 e vem ampliando sua presença em cidades do interior, especialmente no Triângulo Mineiro e no Vale do Aço.
A distribuição dos empregos entre as quatro maiores companhias mostra que a concentração não está restrita a um único formato comercial. Embora os supermercados e atacarejos predominem, o varejo farmacêutico também possui capacidade expressiva de geração de postos de trabalho, sustentada por operações que combinam lojas físicas, centros de distribuição e canais digitais.
| Empresa | Funcionários em 2025 | Participação no total |
| Supermercados BH | 49.233 | 28,7% |
| Mart Minas/Dom | 18.919 | 11,0% |
| DMA Distribuidora | 17.176 | 10,0% |
| Drogaria Araujo | 12.136 | 7,1% |
| Total das quatro redes | 97.464 | 56,7% |
Os percentuais foram calculados sobre os 171.812 funcionários informados pelas 21 varejistas mineiras com dados disponíveis no levantamento.
Outras cinco redes somam mais de 40 mil trabalhadores
A concentração nas quatro primeiras posições não elimina a importância de outras companhias regionais. Logo abaixo aparecem o Grupo ABC, com 9.310 funcionários, o Bahamas, com 8.866, e o Martins/Rede Smart, com 8.250. O Supernosso registra 8 mil trabalhadores, enquanto a Farmácia Indiana possui 7.300.
Somadas, essas cinco empresas reúnem 41.726 funcionários, um contingente relevante para o mercado de trabalho mineiro. O resultado mostra que a estrutura empresarial do estado não depende exclusivamente de um pequeno grupo de líderes, embora a diferença de escala entre as companhias seja expressiva.
A presença dessas redes também evidencia a importância econômica de cidades fora da Região Metropolitana de Belo Horizonte. O Grupo Martins, por exemplo, possui origem e sede em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, enquanto o Bahamas mantém uma forte atuação na Zona da Mata. A distribuição territorial dessas operações contribui para movimentar mercados regionais que nem sempre aparecem nas análises concentradas na capital.
O varejo mineiro apresenta, portanto, duas características simultâneas: um grupo de empresas com dezenas de milhares de funcionários e uma rede mais ampla de companhias regionais que também sustentam milhares de postos de trabalho. Essa combinação ajuda a explicar a força do setor no estado, mas também demonstra como sua estrutura está organizada em diferentes níveis de escala.
Mart Minas registra mais vendas por funcionário, mas comparação exige cuidado
O cruzamento entre o faturamento das companhias e o número de trabalhadores permite observar diferenças entre seus modelos de operação. O Mart Minas/Dom, que registrou vendas de aproximadamente R$ 12,55 bilhões em 2025, apresenta uma relação próxima de R$ 663 mil em vendas anuais por funcionário. No Supermercados BH, o indicador fica em torno de R$ 522 mil, enquanto a DMA registra aproximadamente R$ 519 mil.
Na Drogaria Araujo, considerando vendas próximas de R$ 5,1 bilhões e um quadro de 12.136 trabalhadores, a relação é de aproximadamente R$ 420 mil por funcionário. A diferença entre os valores, entretanto, não permite concluir que os empregados de uma empresa sejam individualmente mais produtivos do que os de outra.
O atacarejo, por exemplo, costuma trabalhar com volumes elevados de mercadorias e estruturas de atendimento diferentes das encontradas em supermercados de vizinhança. Já as drogarias possuem características próprias de operação, exigências regulatórias, composição de produtos e serviços prestados ao consumidor.
Além disso, a relação entre vendas e número de funcionários não considera diferenças de jornada, terceirização, margens de lucro, quantidade de lojas ou participação do comércio eletrônico. O indicador é útil para compreender a escala comercial de cada modelo, mas não deve ser confundido com uma medida direta de eficiência dos trabalhadores.
Minas tem 23 empresas entre as maiores varejistas do Brasil
O Ranking TOP 300 do Varejo Brasileiro 2026, disponibilizado pelo IRTT, reúne 23 companhias sediadas em Minas Gerais. Juntas, essas empresas registraram aproximadamente R$ 106,4 bilhões em vendas durante 2025, com predominância do segmento alimentar, responsável por cerca de R$ 86,5 bilhões desse montante.
Das 23 empresas mineiras presentes na classificação nacional, 17 atuam no varejo alimentar. A participação demonstra a força das redes supermercadistas regionais, que conseguiram construir operações de grande porte e manter posições relevantes mesmo diante da concorrência de grupos nacionais e multinacionais.
Essa característica já havia aparecido em levantamentos anteriores. Como mostrou o Moon BH ao analisar as maiores redes de supermercados do país, Minas Gerais possui uma presença expressiva entre as companhias líderes do setor, especialmente quando considerados grupos de origem regional.
A diferença do novo recorte está em observar o mercado de trabalho, e não apenas o faturamento. Empresas que movimentam bilhões de reais também precisam manter estruturas capazes de atender consumidores, abastecer lojas, organizar estoques e distribuir mercadorias, o que explica a relevância dos números de emprego para a economia estadual.
Inteligência artificial e automação entram na rotina das grandes redes
A concentração de trabalhadores ganha uma dimensão adicional quando observados os investimentos em tecnologia. Entre as empresas mineiras incluídas no ranking, 15 informaram possuir operações de comércio eletrônico, enquanto seis relataram projetos de inteligência artificial em andamento.
A Drogaria Araujo é um exemplo da transformação digital do setor. Em 2025, a companhia registrou aproximadamente R$ 1,05 bilhão em vendas pelos canais digitais, resultado que demonstra a importância crescente de aplicativos, plataformas de compra e serviços de entrega para o varejo farmacêutico.
A empresa também vem investindo em automação logística. O Moon BH mostrou que a Araujo destinou R$ 100 milhões à modernização de equipamentos de seu centro de distribuição em Contagem, estrutura responsável por abastecer unidades espalhadas por Minas Gerais.
No levantamento do IRTT, Mart Minas, Martins, Bahamas e Farmácia Indiana classificaram a inteligência artificial como uma prioridade média, enquanto Araujo e Supernosso atribuíram prioridade alta à tecnologia. As aplicações envolvem iniciativas como atendimento automatizado, análise de dados e melhorias na experiência de compra.
Esses investimentos não permitem concluir, isoladamente, que haverá redução de empregos. A abertura de novas lojas, o crescimento das entregas e a ampliação dos centros de distribuição também podem criar demanda por trabalhadores em diferentes funções. O que os dados mostram é que as maiores varejistas estão reorganizando processos em um momento de expansão tecnológica, movimento que pode alterar o perfil das atividades desempenhadas por parte de seus funcionários.
Concentração de empregos amplia o peso das decisões empresariais
A principal conclusão do levantamento está na escala alcançada pelas maiores empresas do setor. Quatro grupos concentram quase 100 mil trabalhadores dentro de um universo de aproximadamente 172 mil funcionários declarados pelas grandes varejistas mineiras analisadas. Isso significa que decisões tomadas por um número reduzido de companhias possuem potencial para alcançar uma parcela expressiva da força de trabalho desse segmento.
O resultado também precisa ser interpretado à luz das mudanças societárias em andamento. A negociação entre Supermercados BH e DMA, por exemplo, demonstra como operações que aparecem separadamente em um ranking referente a 2025 podem passar por processos de integração nos anos seguintes. Por isso, não seria correto somar automaticamente os funcionários das duas companhias e tratar o resultado como o quadro atual de um único empregador.
Para Minas Gerais, a concentração evidencia a importância de acompanhar não apenas as vendas e as inaugurações anunciadas pelas grandes redes, mas também a evolução de seus quadros de pessoal, a distribuição regional das vagas e os efeitos das mudanças tecnológicas.
O varejo mineiro construiu empresas capazes de competir nacionalmente e movimentar dezenas de bilhões de reais. O próximo desafio será compreender como essa escala empresarial se traduzirá em oportunidades de trabalho, qualificação profissional e transformações nas funções exercidas por milhares de pessoas que sustentam diariamente o funcionamento do comércio no estado.


