Quando se fala nas grandes indústrias de Minas Gerais, mineração, siderurgia, construção e setor automotivo costumam aparecer primeiro. Existe, porém, uma cadeia que emprega mais de 115 mil pessoas formalmente no estado e reúne aproximadamente 8,4 mil estabelecimentos: a moda.
Os números incluem empresas de produtos têxteis, vestuário, acessórios, couro e calçados. Em 2025, aproximadamente uma em cada seis empresas da indústria mineira estava ligada a essas atividades, segundo levantamento divulgado pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais.
A dimensão ajuda a mudar a percepção sobre um setor frequentemente associado apenas a lojas, estilistas e desfiles. Antes de uma roupa chegar à arara existem fornecedores de matéria-prima, modelagem, corte, costura, lavanderia, acabamento, logística, representação comercial e uma série de serviços especializados.
É justamente essa engrenagem que estará por trás da 36ª edição do Minas Trend, marcada para os dias 20, 21 e 22 de outubro, no BH Shopping, em Belo Horizonte. O evento funciona como vitrine da moda mineira, mas os dados que antecedem sua realização revelam uma história maior: o setor possui peso econômico muito superior ao espaço que costuma ocupar na discussão sobre a indústria do estado.
Moda emprega mais gente do que o tamanho das marcas sugere
O número de empresas ajuda a explicar uma característica importante dessa indústria. A produção mineira é extremamente pulverizada.
Um panorama setorial da FIEMG mostrou que 71,7% das empresas de moda do estado eram classificadas como microempresas. Outras 23,5% eram pequenas. Somadas, as duas categorias correspondiam a mais de 95% dos negócios do segmento.
Isso significa que a força da moda mineira não depende apenas de algumas marcas nacionalmente conhecidas. Ela está espalhada por centenas de pequenas fábricas, oficinas, fornecedores e empresas que, isoladamente, podem parecer discretas, mas juntas formam uma cadeia industrial relevante.
A confecção de vestuário e acessórios é o maior núcleo desse ecossistema. No levantamento setorial referente a 2024, eram mais de 52 mil empregos apenas nesse segmento. A fabricação de calçados vinha depois, com aproximadamente 24,5 mil trabalhadores, seguida por artefatos têxteis, com mais de 14 mil.
Esse perfil coloca a moda em uma posição diferente de setores concentrados em grandes plantas industriais. A geração de renda se espalha por mais empresas e por diferentes etapas da produção.
Minas também ganhou espaço nas novas contratações
O setor não carrega apenas um estoque elevado de empregos. Entre janeiro e julho de 2026, Minas respondeu por aproximadamente 18% da geração líquida de empregos formais da cadeia de moda no Brasil, segundo a FIEMG.
Em 2025, o estado concentrava aproximadamente 13% dos estabelecimentos brasileiros ligados às atividades analisadas e cerca de 10% dos empregos do setor no país.
A diferença mostra uma característica interessante. Minas possui uma fatia proporcionalmente maior de empresas do que de trabalhadores, o que combina com a predominância de negócios menores e estruturas produtivas mais distribuídas.
Ao mesmo tempo, essa fragmentação cria desafios. Empresas pequenas costumam ter menos capacidade de absorver períodos de juros altos, investir em tecnologia ou negociar custos de matéria-prima e logística.
O tamanho da indústria não elimina uma dependência do exterior
Existe ainda um contraste importante nos números. Apesar da quantidade de empresas e empregos, a balança comercial da moda mineira é negativa.
Em 2025, as exportações do setor somaram cerca de US$ 169,4 milhões, enquanto as importações chegaram a US$ 805,5 milhões. O déficit ficou próximo de US$ 636 milhões. As exportações recuaram 11,7% em relação a 2024, enquanto as importações cresceram 19,4%.
O dado ajuda a explicar por que a concorrência com produtos importados aparece entre as preocupações da indústria. Juros elevados também encarecem o financiamento de máquinas, expansão de fábricas e capital de giro, enquanto custos logísticos e tributários pressionam principalmente os negócios menores.
O desafio, portanto, não é apenas vender mais roupas produzidas em Minas. É fazer uma cadeia formada majoritariamente por pequenas empresas ganhar produtividade e competir com mercadorias que chegam ao país em grande escala.
Minas Trend coloca uma indústria escondida na vitrine
A edição deste ano do Minas Trend usa o conceito “Made in Minas” e pretende justamente associar a origem mineira a atributos como qualidade, identidade e produção autoral. Na edição anterior, segundo a organização, o evento movimentou mais de R$ 36 milhões em negócios, recebeu mais de 5,3 mil visitantes e reuniu mais de 150 marcas.
Os números do evento são importantes, mas o retrato da cadeia produtiva é maior. A moda em Minas não começa na passarela e tampouco termina na loja.
Com mais de 115 mil empregos e milhares de estabelecimentos, o setor se parece menos com um nicho criativo e mais com aquilo que de fato é: uma das grandes redes industriais de Minas Gerais — apenas muito mais pulverizada e menos visível do que as gigantes que tradicionalmente simbolizam a economia do estado.


