Uma mineradora canadense colocou uma área de mais de 243 quilômetros quadrados no Nordeste de Minas Gerais no radar da corrida internacional por minerais estratégicos. A Atlantico Energy Metals identificou 12 áreas prioritárias para exploração de terras raras no projeto Novo Cruzeiro e, paralelamente, delimitou zonas de interesse para gálio e lítio.
O levantamento mais recente, divulgado nesta segunda-feira (21), chama atenção principalmente por reunir em uma mesma propriedade três grupos de minerais ligados à transição energética, à indústria de semicondutores e à fabricação de equipamentos de alta tecnologia.
Há, porém, uma diferença importante: a empresa ainda não anunciou uma jazida ou reserva mineral. Os 12 pontos são alvos de exploração, definidos a partir do cruzamento de geoquímica, imagens de satélite, mapeamento de reconhecimento e dados geofísicos obtidos anteriormente. O projeto continua em estágio inicial.
Projeto cobre área equivalente a mais de 34 mil campos de futebol
O Novo Cruzeiro reúne 15 direitos de exploração contíguos, que somam 24.387 hectares — cerca de 243,9 km² — entre os municípios de Novo Cruzeiro, Itaipé e Ladainha.
O tamanho da área é uma das apostas da companhia. Em levantamentos anteriores, a Atlantico coletou 170 amostras de sedimentos de corrente e 61 amostras classificadas como fragmentos de rocha, distribuídas pela propriedade.
A análise integrada desses dados levou à definição dos 12 alvos associados prioritariamente às terras raras. A maior concentração de sinais considerados promissores pela companhia aparece no setor leste da propriedade.
Entre os elementos detectados estão neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, utilizados na produção de ímãs permanentes de alto desempenho empregados em motores elétricos, turbinas eólicas, robótica, equipamentos aeroespaciais e aplicações de defesa.
Em uma das amostras de sedimento no Nordeste da propriedade, o resultado chegou a 1.427 ppm de óxidos totais de terras raras, dos quais aproximadamente 284 ppm foram classificados como óxidos de terras raras magnéticas.
Gálio apareceu nas 114 amostras analisadas
O resultado mais incomum, entretanto, está no gálio. Em uma campanha complementar concentrada principalmente na porção oeste do projeto, a empresa analisou 114 amostras superficiais. Todas registraram presença do elemento, com concentrações entre 16 e 72 partes por milhão de gálio.
O maior resultado correspondeu a um valor calculado de 96,8 gramas por tonelada de óxido de gálio (Ga₂O₃). Entre as dez amostras com maiores concentrações, os valores calculados ficaram entre 88,7 e 96,8 g/t.
A companhia passou a destacar especialmente uma área chamada Rio Bravo, onde concentrações elevadas foram associadas principalmente a saprolitos — material formado pela decomposição de granito pela ação do intemperismo.
O próximo passo será verificar se os valores observados na superfície continuam em profundidade e, principalmente, identificar quais minerais estão efetivamente hospedando o gálio. Esse ponto é decisivo: presença do elemento em amostras superficiais não significa que exista uma jazida economicamente explorável.
China produz praticamente todo o gálio primário do mundo
É justamente a concentração internacional da produção que torna o resultado mineiro mais relevante. Dados do U.S. Geological Survey citados no comunicado apontam que a China respondeu por aproximadamente 99% da produção mundial de gálio primário de baixa pureza em 2025. O país também adotou controles de exportação do metal nos últimos anos.
O gálio aparece em compostos usados na fabricação de semicondutores, equipamentos de telecomunicações, radares, sistemas de comunicação por satélite, componentes de redes 5G e eletrônica de potência. O USGS também registra o uso relevante do elemento em circuitos integrados e dispositivos optoeletrônicos.
Isso transforma qualquer nova ocorrência potencial fora da China em um ativo de interesse estratégico, ainda que seja cedo para dizer se o material identificado em Minas poderá um dia ser produzido comercialmente.
Empresa também mantém um alvo de lítio
A terceira frente do Novo Cruzeiro continua sendo o lítio. Na parte sul da propriedade, os técnicos identificaram uma anomalia magnética de aproximadamente cinco quilômetros, coincidente com uma zona de anomalias geoquímicas de lítio. Há também indicadores de césio, rubídio e ocorrência de pegmatitos, formação geológica frequentemente associada a depósitos de lítio na região.
Os próprios resultados divulgados pela empresa, entretanto, mostram que a tese ainda precisa avançar. Das 114 amostras complementares, 77 ficaram abaixo do limite de detecção de 10 ppm de lítio e o maior resultado atingiu 71 ppm. A Atlantico ressalta que a estrutura de cinco quilômetros é uma feição geofísica, e não um corpo mineralizado de lítio já identificado.
O projeto fica no Nordeste mineiro, dentro da Província Pegmatítica Oriental Brasileira. A Atlantico o apresenta internacionalmente como parte da região do “Lithium Valley”. Já o projeto oficial Vale do Lítio do Governo de Minas possui atualmente um recorte de 14 municípios e não inclui Novo Cruzeiro, Itaipé ou Ladainha.


