Antes do cartão de crédito, do pix e dos pagamentos feitos por aproximação, bastavam um papel, uma caneta e um aperto de mãos para que uma compra fosse feita. Durante décadas, era assim que o comércio funcionava: o cliente entrava na loja, escolhia o produto, conversava alguns minutos com o comerciante e, na hora de pagar, era estabelecida uma relação de confiança. O pedido “pendura para mim?” era comum de ser acatado em estabelecimentos que nem sempre tinham proximidade com o cliente. O “pendurar” era uma referência ao ato de prender o papel da anotação da venda com prego na parede. Em alguns locais, o prego dava lugar a uma caderneta já amarelada pelo tempo que o lojista registrava o nome do freguês, o valor da compra e a data do pagamento. Nenhum contrato era assinado. Transações com senha, biometria, QR Code ou aplicativo de banco sequer podiam ser imaginadas. Mas por trás da venda, um ativo importante: a palavra.
Fundada em 1881 em Ouro Preto, na região Central de Minas Gerais, a Casa Salles se transferiu para a nova capital mineira em 1904 e foi a primeira loja de Belo Horizonte. Com a mudança, o comércio que vendia artigos de caça e pesca fez um investimento que hoje virou relíquia: uma máquina registradora National movida à manivela. “Na época, isso foi feito pensando em modernização, a máquina separava as moedas das notas recebidas e registrava inclusive o fiado. As coisas foram evoluindo, e com o passar dos anos fomos abandonando o fiado e trabalhamos com notas promissórias, até os cheques chegarem”, conta Guilherme Salles, tataraneto do fundador.
esquina das Ruas São Paulo e Caetés (Acervo pessoal)
O fiado também fez parte da história da Fábrica de Doces, empresa localizada no bairro Padre Eustáquio que é um dos comércios mais tradicionais da região Noroeste de Belo Horizonte. Luiz Antônio Machado de Melo, um dos responsáveis pela gestão da fábrica inaugurada em 1955, conta como a confiança construiu a relação com a clientela. “No início, além das vendas à vista, também existiam vendas no fiado, principalmente para clientes conhecidos e comerciantes da região. Era uma relação baseada na confiança, algo muito comum naquela época, com menos burocracia e baseada na proximidade com o bairro”, relembra.
A relação de confiança com os clientes também é celebrada há 50 anos na loja de artigos esportivos do empresário Caetano de Paula, de 80 anos, que desde 1976 está à frente dos negócios. “Tem casos de que, há anos, o pai comprou uniforme escolar aqui para um filho. E agora, o filho vem para comprar para o neto.”, conta. Estabelecimentos como estes, que atravessam gerações, também acompanharam a evolução das formas de pagamento. Se antes a palavra era meio de pagamento, hoje ela não é mais uma garantia para o comércio, e o bisneto que hoje veste o uniforme do Caetano, provavelmente nunca viu um cheque.
Crescimento do comércio aumenta desconfiança e tecnologia traz segurança aos negócios
Explicar a relação comercial do passado é voltar a um comércio muito mais humano e baseado no caráter. Pelo menos, é assim que a gerente do Conselho Estadual do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) — primeiro órgão do tipo criado no Brasil, em 1957, por empresários e pelo então Clube dos Diretores Lojistas —, Adilsa Fernandes, descreve. “A grande moeda de troca era a palavra. O fiado e a famosa caderneta eram a alma do negócio. O comerciante conhecia o cliente pelo nome, sabia onde morava e conhecia a família. Era um comércio feito de pessoas para pessoas”, diz.
Do “Cê é fi de quem?” ao “fulano te pagou?”
Mas Belo Horizonte (assim como outras cidades) expandiu e deixou de ser formada apenas por pequenos bairros onde todos se conheciam. Pessoas de fora vieram trabalhar na capital, novos consumidores passaram a circular e comerciantes começaram a atender clientes dos quais não tinham nenhuma referência. Pouco a pouco, a confiança deixou de ser um ativo no comércio que temia lidar com o fantasma da inadimplência, que ainda hoje assombra mais de 83 milhões de brasileiros (Serasa/maio de 2026). A tecnologia e novas formas de venda entraram para proteger a relação, sem que o comércio perdesse vendas por não conhecer o freguês.
“Uma necessidade muito clara dos dois lados: do cliente, que precisava levar o produto, mas não tinha todo o dinheiro na hora, e do lojista, que precisava girar o estoque e manter o negócio vivo. Assim, surgiu a evolução das formas de concessão de crédito. No início, tivemos o carnê, posteriormente a duplicata, a nota promissória e, então, o cheque, que representou uma grande revolução já que com o carnê, especialmente para consumidores vindos de outras cidades ou estados, o crédito demorava até três meses para ser liberado”, conta Adilsa.
O funcionamento se dava pela ficha SCI (Serviço Central de Informações) que constava o cadastro no SPC e de outras lojas indicadas pelo próprio cliente, que eram referência para consulta de seu histórico de pagamento. “Um agente do SCI ia em cada uma dessas lojas, quando eram próximas, e verificava o histórico do cliente. Só após esse levantamento, o crédito era liberado”, detalha a gerente Adalgisa, que ajudou a implementar o SPC em Minas.
A confiança também moldou os negócios da família e a rotina da Cristina Auxiliadora, de 62 anos. Além de ter comércio, ela também era consumidora na modalidade fiado. “Meu pai tinha um açougue e eu trabalhava com ele. Os clientes, a maioria eram amigos e conhecidos, compravam e pediam para pagar no mês seguinte. Geralmente funcionava na base da confiança e dava certo. Quem não correspondia ao pagamento na data combinada era cortado daquela lista”, relembra. “Já eu também comprava em lojas do bairro com crédito na confiança. Por ser moradora e conhecida no bairro, isso era um facilitador. Se eu precisasse de presente de última hora, sabia onde comprar, uma emergência, eu tinha onde ir”, completa.
De BH para o Brasil: CDL da capital mineira é pioneira no país na proteção ao crédito
No Brasil, a história da proteção ao crédito passa obrigatoriamente por Minas Gerais. Mais precisamente por Belo Horizonte, onde lojistas inicialmente enviavam mensageiros do Clube dos Diretores Lojistas, (hoje Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL-BH)), para consultar se um cliente interessado era um bom pagador. Sem isso, o comerciante era refém constante dos “calotes”.
Caetano de Paula foi um dos que sofreu com calotes ao longo de 50 anos de comércio, mas considera que o prejuízo faz parte da tradição dos lojistas. “O comerciante na faixa dos 40, 50 anos de mercado que falar que não tomou calote é mentiroso, né? Esses dias, a gente estava contando os cheques que recebemos, mas que nunca foram pagos. Deve ter uns 100 cheques”, garante.
Foi neste contexto, que em 1957, que a entidade de Belo Horizonte deu origem a um sistema revolucionário, uma espécie de call center para onde ligavam os lojistas que queriam vender à prazo. “Eram enormes arquivos de metal, repletos de fichas de papel organizadas em gaveteiros que pareciam não ter fim. A atendente corria até o arquivo, procurava manualmente ficha por ficha para verificar se aquele comprador possuía alguma restrição e dava a resposta pelo telefone. Esse modelo mineiro foi tão revolucionário que acabou sendo adotado em todo o país”, lembra orgulhosa.
Foi neste contexto, que em 1957, que a entidade de Belo Horizonte deu origem a um sistema revolucionário, uma espécie de call center para onde ligavam os lojistas que queriam vender à prazo. “Eram enormes arquivos de metal, repletos de fichas de papel organizadas em gaveteiros que pareciam não ter fim. A atendente corria até o arquivo, procurava manualmente ficha por ficha para verificar se aquele comprador possuía alguma restrição e dava a resposta pelo telefone. Esse modelo mineiro foi tão revolucionário que acabou sendo adotado em todo o país”, lembra orgulhosa.
*Video feito com uso de IA / Créditos: Deevid.AI
Com a expansão das linhas telefônicas, as grandes redes varejistas, bancos e financeiras passaram a consultar o SPC diretamente por telefone. Ramais agilizavam o atendimento, permitindo que o consumidor tivesse a aprovação do crédito na hora ou, no máximo, no dia seguinte, seja para comprar uma mercadoria, abrir uma conta ou conseguir financiamento, como detalha o atual presidente da CDL-BH, Marcelo de Souza e Silva. “O modelo deu certo porque os desafios dos comerciantes eram semelhantes em qualquer cidade. A união fortaleceu o varejo e permitiu que o setor passasse a falar com muito mais representatividade”, pontua.
“A minha felicidade é um crediário nas Casas Bahia”
Os crediários juntaram a fome com a vontade de comer antes de o cartão se popularizar. Os carnês foram as lojas entendendo que precisavam permitir o parcelamento para que o brasileiro pudesse, principalmente, adquirir itens de casa e vestuário. Comprar seu rádio-vitrola, fogão, televisão, geladeira…
O crediário fazia o cliente voltar à loja todos os meses para pagar a prestação no caixa. O cliente entrava com o dinheiro na mão para quitar uma parcela e, no caminho até o caixa, muitas vezes, saía de lá com novos carnês.
Sai a assinatura, entra a senha: atravessando a inflação com um método eletrônico
Em 1984, para atender à demanda crescente dos associados em relação ao banco de dados do SPC, o CDL/BH adquiriu o primeiro computador, agilizando as buscas que antes eram feitas manualmente em fichas de gaveta.
Nas décadas de 1970 e 1980, o cartão de crédito passou a ser um método mais amplamente utilizado no Brasil, já não tão restrito às elites. “As operadoras de cartão passaram a assumir o risco das operações de crédito em troca de uma taxa. Essa proteção era fundamental porque, naquela época, quem não vendia a prazo acabava ficando para trás, mas quem concedia crédito sem controle também corria sério risco de desaparecer. Isso ficou ainda mais evidente durante as décadas de 1980 e 1990, quando a inflação era extremamente elevada. Se um lojista vendesse uma geladeira em dez prestações e calculasse mal os juros, quando recebesse a última parcela, aquele dinheiro já não comprava sequer um liquidificador”, explica Silva.
Para quem não tinha como ter cartão de crédito, a solução eram os cheques pré-datados. Uma volta à confiança estabelecida entre as partes. O cliente se comprometia a ter recurso necessário nas futuras datas de cada compensação dos cheques e o lojista, a levar as folhas do talão para depósito apenas nas datas combinadas. “Esse modelo ajudou o comércio brasileiro a atravessar anos de inflação elevada e permaneceu presente no dia a dia dos consumidores por mais de duas décadas”, afirma.
Você sabia?
Foi também uma conquista da CDL junto ao Banco Central, a inclusão do CPF nos cheques. Essa mudança trouxe mais segurança às consultas de crédito, pois a pesquisa apenas pelo nome gerava muitas dúvidas em casos de homônimos.
O boom dos cartões de crédito, os juros e o endividamento da população
De 2010 pra cá, a chegada de novas financeiras e bancos digitais no mercado fez o uso dos cartões de crédito disparar. De acordo com os últimos dados do Banco Central, 243 milhões de cartões de crédito estão ativos no Brasil, para uma população de 174 milhões de trabalhadores em idade ativa no país. Se de um lado eles representam uma possibilidade para o cliente comprar o que não consegue à vista e ao mesmo tempo são um meio seguro para o lojista vender à prazo, por outro ele favorece um dos maiores problemas econômicos do país, o endividamento.
O presidente da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas, José César da Costa, destaca que o planejamento a longo prazo é um fundamental para a saúde financeira da população. “O crédito no Brasil desempenha um papel fundamental na economia, mas a expansão das plataformas digitais e a facilidade para o consumo por impulso têm funcionado como severas armadilhas para o orçamento doméstico. Percebemos uma clara cultura baseada na ilusão da parcela, em que o cidadão prioriza apenas se o desembolso mensal cabe momentaneamente nas finanças, deixando de lado a avaliação técnica do custo total e dos juros incidentes na operação.”, pontua.
De acordo com os dados do Banco Central, as taxas do cartão de crédito rotativo podem atingir entre 428% e 440,5% ao ano. O cartão é o principal fator de endividamento para 83,6% das famílias brasileiras e compromete, sozinho, 54% da renda familiar. Dados da Abecs (Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços) referentes ao primeiro trimestre de 2026, mostram que R$ 138,3 bilhões em compras foram divididas entre 7 e 12 parcelas, um aumento de 16,4% em relação ao mesmo período de 2025.
“Para o lojista, isso significa que a maior parte do seu faturamento fica presa ao longo de 7 meses a 1 ano, obrigando a empresa a ter um planejamento rigoroso ou arcar com os custos de antecipação. Para a economia de forma geral, também é um sinal de alerta, pois vira um problema de consumo. As pessoas se endividam tanto com parcelamentos que isso corroi poder de compra”.
DLI: Dia Livre de Imposto
A carga tributária chegou a 32,4% do PIB em 2025. O índice significa que 1/3 de toda a renda gerada na economia vira imposto para os cofres do governo federal, estados e municípios. Um brasileiro médio trabalha cerca de 5 meses ao ano só para pagar impostos. Com o propósito de estimular o debate sobre o sistema tributário a CDL Jovem de Belo Horizonte criou em 2007, o Dia Livre de Impostos. “A campanha nasceu para conscientizar a população sobre o peso da carga tributária no consumo. Durante a ação, empresas participantes comercializam produtos e serviços sem repassar ao consumidor o valor correspondente aos tributos, assumindo esse custo para mostrar na prática, quanto os impostos impactam o preço final”, explica o Presidente da CDL/BH, Marcelo de Souza e Silva.
Hoje o Dia Livre de Impostos se tornou um movimento nacional, e mobiliza milhares de empresas em centenas de cidades brasileiras.
Pix: ainda uma questão de confiança?
Se no passado o comerciante controlava o caixa pela caderneta ou precisava aguardar o tempo de compensação de um cheque, a revolução do pix trouxe a instantaneidade. A forma de pagamento chegou a atingir 313 milhões de transações em um único dia do ano passado e ao longo de todo 2025 movimentou R$35,4 trilhões, de acordo com o Banco Central. A agilidade é indiscutível, mas o conceito de confiança não desapareceu.
Hoje, com o avanço de golpistas que utilizam recibos falsos e agendamentos simulados, o comércio vive o dilema de equilibrar a praticidade com a cautela necessária diante de comprovantes que nem sempre comprovam alguma coisa. Para mitigar esses riscos e reforçar essa ponte de credibilidade, o Banco Central tem tentado blindar o sistema com regras de segurança adicionais, como limites para transferências noturnas e mecanismo especial de devolução.
Essa nova dinâmica mostra que a boa-fé do cliente continua sendo testada, mesmo no digital. Ludimila Romão é dona de um salão de beleza em Belo Horizonte, e levou um golpe de R$ 950, de uma cliente que apresentou um comprovante falso de pix: “O Pix nunca caiu. Tentamos contato diversas vezes. Primeiro ela disse que estava viajando, depois começou a se esquivar. Descobrimos que se trata de uma pessoa com diversos registros de golpes semelhantes. Infelizmente, pessoas de má-fé ainda se aproveitam do nosso trabalho”, lamentou.
Golpes como este reforçam que, independentemente de a moeda ser o papel, o cheque ou o código digital, a verificação atenta ainda representa prosperidade ou prejuízo para os negócios. “Mudaram os meios de pagamento, mas não mudou a necessidade de segurança nas relações comerciais, por isso, a entidade continua apoiando os empresários na gestão do crédito, mas também oferece soluções, informações e capacitação sobre inovação ”, conclui Marcelo de Souza e Silva sobre o atual papel da CDL.
Reportagem: Raquel Penaforte e Mariana Reis.


