Uma empresa de Vespasiano, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, vai produzir no Paraguai para crescer no Brasil. A frase parece contraditória, mas ajuda a explicar uma decisão cada vez mais comum entre indústrias brasileiras de médio porte: manter a origem no país, mas buscar no vizinho uma operação mais barata, mais simples e melhor posicionada para vender ao Mercosul.
A Temperatta, fabricante mineira de temperos, especiarias e molhos, vai investir cerca de R$ 6 milhões em uma unidade fabril em Ciudad del Este. A fábrica deve ficar pronta em aproximadamente 12 meses e operar em 2027. A meta é dobrar a capacidade produtiva e ampliar a presença da marca no Paraguai, no Mercosul e também em mercados brasileiros estratégicos, como a região Sul e São Paulo.
O movimento não significa abandonar Minas. A sede da empresa continua em Vespasiano, onde a marca nasceu e mantém sua operação brasileira. Mas a ida ao Paraguai coloca a Temperatta dentro de uma discussão maior: por que uma indústria mineira em crescimento decide abrir uma nova fábrica fora do Brasil quando ainda quer vender para o próprio mercado brasileiro?
A resposta passa por logística, impostos, ambiente de negócios e competição. Em entrevista ao Diário do Comércio, o sócio-diretor Fernando Seabra afirmou que Ciudad del Este foi escolhida pela posição estratégica para atender países do Mercosul e pelo plano de nacionalização da marca. Também citou os benefícios oferecidos pelo Paraguai, que considera muito superiores aos existentes no Brasil para empresários locais.
O que a Temperatta produz
A Temperatta atua no atacado e no food service, com linhas de especiarias, churrasco, molhos, óleos compostos, sais de parrilla, marinadores, farofas prontas e produtos voltados a supermercados, açougues, empórios e lojistas. No site oficial, a marca se apresenta como indústria brasileira instalada em Vespasiano e destaca entrega para todo o Brasil, produtos de alto giro e foco em revenda B2B.
Hoje, o portfólio tem mais de 120 itens. A empresa afirma que pretende lançar pelo menos outros 20 produtos até o fim de 2026, incluindo marinadas, queijos saborizados e óleos saborizados. A expansão anual, segundo a reportagem do Diário do Comércio, tem ficado próxima de 30%. O faturamento passou de R$ 30 milhões no ano passado, e a projeção é manter crescimento próximo de 30% neste ano.
Essa é uma diferença importante. A Temperatta não está indo ao Paraguai como empresa em retração. Pelo contrário. A decisão aparece no meio de uma fase de crescimento, quando a companhia precisa aumentar capacidade, lançar produtos e atender melhor redes varejistas. É justamente nesse momento que o custo de produzir, transportar, contratar e competir pesa mais.
Empresas menores costumam sentir esse limite antes das gigantes. Uma multinacional tem departamento tributário, escala de compra, capital barato, centros de distribuição espalhados e força para negociar com fornecedores. Uma indústria média, mesmo bem-sucedida, enfrenta margem apertada e precisa transformar cada ponto de custo em vantagem comercial.
O que torna o Paraguai tão atrativo para indústrias brasileiras?
Um regime tributário específico, voltado à exportação. O regime de maquila paraguaio permite que empresas produzam no país pagando imposto único de 1% sobre o valor agregado em território local, além de contar com benefícios na importação de máquinas, equipamentos e insumos.
O guia comercial do governo dos Estados Unidos sobre o Paraguai também destaca custos relativamente baixos de mão de obra e energia elétrica no país, somados à vantagem de origem Mercosul quando o produto atinge conteúdo regional mínimo de 40%.
Na prática, isso significa que uma empresa pode fabricar no Paraguai, marcar o produto como “made in Paraguay/Mercosur” e reexportá-lo para países do bloco em condições mais competitivas, pagando apenas o imposto de 1% sobre o valor agregado.


