No primeiro semestre de 2026, Minas Gerais vendeu US$ 8 bilhões ao mercado chinês, alta de 8% sobre 2025. O número impressiona. Mas 58% dele vem de um só produto o minério de ferro, que sozinho somou US$ 4,63 bilhões em embarques. A China virou parceira essencial da economia mineira. E também seu maior ponto de vulnerabilidade.
Belo Horizonte, Itabira, Congonhas, Mariana. Cidades diferentes, mesmo destino final: navios que saem rumo à China carregados de minério.
Por que o minério ainda domina tanto a pauta mineira?
A resposta é simples: a China precisa de aço. E muito. O gigante asiático usa minério para infraestrutura, indústria, moradia, máquinas e a própria transição energética. Mesmo com a desaceleração do setor imobiliário chinês nos últimos anos, o país segue como o maior comprador mundial da commodity.
- Minério de ferro respondeu por 58% de tudo que Minas vendeu à China
- Embarques somaram US$ 4,63 bilhões, alta de 5% sobre 2025
- China concentra 35% de todas as exportações mineiras
- O produto sustenta ferrovias, portos, empresas de engenharia e arrecadação municipal
O problema aparece quando o vento muda. Se o preço do minério cai ou a demanda chinesa esfria, o efeito chega rápido a toda a cadeia de Nova Lima às prefeituras que dependem dessa receita.
Quais produtos estão crescendo fora do minério?
Nem tudo gira em torno do minério. Alguns setores ganharam fôlego real no semestre.
- Ferronióbio: US$ 509 milhões, alta de 29,6% — maior crescimento da pauta mineira para a China
- Carne bovina: US$ 372 milhões, alta de 17,5%
- Soja: alta de 3,3%, ainda com peso menor na balança
O ferronióbio merece atenção especial. Ele sai de Araxá, produzido pela CBMM, líder mundial no setor, e serve para deixar aços especiais mais resistentes, com aplicação em carros, energia e maquinário pesado. É um produto de tecnologia mineral, bem diferente do minério bruto que domina a pauta.
Nem tudo subiu, porém. A pasta química de madeira caiu 30% nas exportações para a China, com US$ 148 milhões no período — justamente num momento em que diversificar a pauta importa mais do que nunca.
A China só compra de Minas, ou também vende?
Vende. E cada vez mais rápido. As importações mineiras vindas da China somaram US$ 2,44 bilhões no semestre, alta de 9,8%. O motor dessa alta tem nome: carros elétricos e híbridos plug-in.
- Híbridos plug-in importados: US$ 90 milhões, salto de 76.713%
- Elétricos importados: US$ 81 milhões, alta de 3.421%
- Veículos de passageiros já ocupam a segunda posição entre os produtos mais importados da China por Minas
A base de comparação era pequena, o que explica os percentuais altos. Mas a velocidade do movimento mostra como as montadoras chinesas avançaram sobre o mercado mineiro — território que inclui Betim, um dos polos automotivos mais importantes do país.
O que essa troca revela sobre a relação Minas-China?
Um contraste que incomoda analistas do setor. Minas exporta matéria-prima. A China devolve tecnologia. O estado vende minério, ferronióbio, carne e soja — insumos e commodities. Recebe de volta carros elétricos, eletrônicos, máquinas e componentes industriais. É uma relação de mão dupla, mas com um desequilíbrio claro na sofisticação do que circula em cada direção.
Para Minas, a China ocupa três papéis ao mesmo tempo: cliente, fornecedora e concorrente. Compra a produção mineral e agropecuária do estado. Vende produtos de maior valor agregado. E ainda disputa, com essas mesmas exportações, espaço direto com a indústria automotiva e de autopeças instalada em território mineiro.


