A BYD tem uma peça silenciosa no tabuleiro do lítio em Minas Gerais. A montadora chinesa adquiriu direitos minerários em Coronel Murta, no Vale do Jequitinhonha, por meio da subsidiária Exploração Mineral do Brasil. O negócio foi feito em 2023, e foi tratado pela Reuters na época como uma compra em segredo.
Agora, com a companhia acelerando a produção de baterias no Brasil, Minas pode usar essa presença mineral como argumento para atrair uma fábrica, uma unidade de processamento ou pelo menos parte da cadeia de baterias? É uma oportunidade de mercado a ser explorada, mas é preciso negociar com precisão, porque o ativo em Coronel Murta ainda não é uma mina em operação. São direitos minerários em fase de pesquisa, etapa inicial de um caminho que pode levar anos até qualquer produção comercial.
Segundo documentos públicos analisados pela Reuters, os direitos da BYD cobrem 852 hectares no Vale do Lítio. A área fica perto de projetos da Atlas Lithium e a cerca de 825 quilômetros de Camaçari, na Bahia, onde a montadora instalou sua fábrica brasileira de veículos elétricos e híbridos.
Essa distância não impede uma conexão industrial. Também não garante nada. O que ela cria é uma oportunidade política e econômica para Minas: se o estado abriga parte da matéria-prima, por que não disputar também uma etapa mais rica da cadeia?
BYD quer nacionalizar peças no Brasil
A montadora chinesa está em uma corrida para aumentar o conteúdo local dos carros fabricados no país. O vice-presidente sênior da BYD no Brasil, Alexandre Baldy, disse à mesma Reuters que a empresa quer chegar a 50% de componentes nacionais em seus veículos produzidos no Brasil até o início de 2027.
A estratégia passa pela fábrica de Camaçari, que recebeu plano de investimento de R$ 5,5 bilhões. A unidade baiana é o centro da operação automotiva da marca no país e deve produzir carros elétricos e híbridos para o mercado brasileiro e, depois, para outros países do Mercosul.
As baterias entram nessa conta. A BYD já produz baterias para ônibus em Manaus e anunciou expansão nessa linha, com investimento entre R$ 50 milhões e R$ 60 milhões. A empresa também prepara um novo ciclo voltado a sistemas de armazenamento de energia, os BESS, com aporte que pode chegar a R$ 500 milhões. A decisão sobre o local deve sair nos próximos meses.
É uma nova oportunidade para o estado, que já produz mais energia solar que Itaipu, mas sofre com problemas de linhas de distribuição e precisa investir em baterias de armazenagem.
Esse é o ponto que interessa a Minas. A nova fábrica ou linha de baterias pode ir para Manaus, pode ficar ligada à Bahia ou pode abrir uma disputa entre estados. Minas tem lítio, mineração, energia solar, fornecedores industriais, universidades e localização estratégica. Falta transformar esses ativos em proposta concreta.
O lítio mineiro muda a conversa
O Vale do Jequitinhonha já entrou no mapa global do lítio. Sigma, Lithium Ionic, Atlas Lithium e outras empresas colocaram a região na vitrine dos minerais críticos. A chegada da BYD, mesmo discreta, pesa de outro jeito. Não é apenas uma mineradora olhando para o subsolo. É uma das maiores fabricantes de veículos elétricos e baterias do mundo marcando posição na origem da matéria-prima.

Ontem a canadense Spark anunciou um investimento de R$ 150 milhões para minerar terras raras por aqui. Isso muda a natureza da negociação. Minas não precisa vender apenas minério. Pode tentar vender uma cadeia.
Uma agenda mais ambiciosa envolveria processamento de lítio, insumos para baterias, reciclagem, armazenamento estacionário, pesquisa aplicada e fornecedores de componentes. O estado não precisa, necessariamente, disputar uma megafábrica de carros com a Bahia. Pode mirar etapas complementares, ligadas ao mineral e à energia.
Há um caminho especialmente interessante nos sistemas de armazenamento. O Brasil tem sofrido com cortes de geração renovável em horários de excesso de oferta, principalmente solar e eólica. Baterias estacionárias podem ajudar a guardar energia e estabilizar a rede. Minas, que já superou 14 GW de potência solar instalada, teria argumento para atrair uma planta voltada a BESS.
A BYD conhece esse mercado. A empresa é uma potência global em baterias e veículos eletrificados. Se vai investir em armazenamento no Brasil, Minas tem motivos para tentar entrar na disputa.
Por que não é simples
A parte delicada é que a própria BYD diz não ter planos de desenvolver os direitos minerários em Minas por enquanto. Baldy afirmou à Reuters que a exploração dessas áreas não está nos planos nem em discussão interna, citando o preço baixo do lítio como um dos motivos.
Isso não significa que o ativo perdeu valor. Significa que ele é uma opção estratégica de longo prazo. Em mineração, comprar direito mineral pode ser uma forma de reservar posição antes de o mercado mudar. Se o preço do lítio voltar a subir, se a demanda por baterias crescer mais ou se a nacionalização de componentes exigir matéria-prima local, o cenário pode mudar.
Também há o prazo. Um projeto mineral no Brasil pode levar de oito a 15 anos para começar a produzir, se for considerado viável. Antes disso, vêm pesquisa, sondagem, relatório técnico, licenciamento, financiamento, relacionamento com comunidades, infraestrutura e decisão de investimento.
O que o governo poderia negociar
O Governo de Minas tem uma janela. A BYD quer ser vista como fabricante brasileira, precisa nacionalizar peças e já está se movendo em baterias. O estado tem lítio, ferro, energia renovável e tradição industrial. A conversa poderia partir daí.
Uma proposta mineira poderia incluir áreas industriais com energia renovável contratada, apoio a licenciamento, conexão com fornecedores, formação de mão de obra, parceria com universidades e aproximação com empresas do Vale do Lítio. O pacote também deveria exigir contrapartidas: empregos qualificados, centro técnico, compras locais, compromisso ambiental e alguma etapa de agregação de valor no estado.
A meta não precisa ser apenas “trazer uma fábrica de bateria Blade”. Esse seria o troféu maior, mas talvez não seja o primeiro passo. Minas poderia mirar uma planta de módulos, uma unidade de BESS, reciclagem de baterias, laboratório de materiais, pré-processamento de lítio ou centro de pesquisa em armazenamento.
O estado tem o laboratório-fábrica de ímãs de terras raras do Hemisfério Sul e fica na Grande BH, o CIT Senai ITR em Lagoa Santa. A presença da BYD mostra que essa vitrine foi vista. Agora começa a parte mais difícil: transformar interesse mineral em fábrica, tecnologia e emprego qualificado.





