O mercado de veículos seminovos e usados passou de 900 mil vendas em Minas Gerais nos cinco primeiros meses de 2026 e mostra uma mudança clara no comportamento do consumidor. Entre janeiro e maio, foram 904.025 unidades comercializadas no estado, alta de 6,9% sobre o mesmo período de 2025.
Em Belo Horizonte, o movimento também cresceu. A capital somou 228.866 negociações no acumulado do ano, avanço de 6,1%. Só em maio, foram 50.239 unidades vendidas, com média de 2.512 veículos por dia útil.
Os dados da Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (FENAUTO), reforçam uma tendência que já vinha aparecendo nas ruas, nas revendas e nas plataformas de venda: o carro usado voltou a ser uma saída para quem precisa trocar de veículo, mas não consegue encaixar o preço do zero km no orçamento.
A alta não significa apenas mais gente comprando carro. Ela ajuda a contar uma história de bolso. Com juros ainda elevados, seguro caro, manutenção pesando e veículos novos acima da faixa que muita família consegue financiar, o consumidor mineiro passou a olhar com mais atenção para modelos conhecidos, de manutenção simples e maior liquidez.
Gol, Palio e Uno seguem fortes em Minas
O ranking dos modelos mais vendidos ajuda a entender essa preferência. Em Minas Gerais, o Volkswagen Gol liderou as negociações no período, com 9.636 unidades comercializadas. Em seguida aparecem Fiat Palio, com 6.843, e Fiat Uno, com 6.471.
São carros que já saíram de linha ou perderam espaço no mercado de zero km, mas continuam muito presentes na vida do motorista mineiro. A explicação passa por preço de entrada, facilidade de manutenção, oferta de peças e familiaridade nas oficinas.
Em Belo Horizonte, a ordem muda um pouco. O Fiat Palio aparece na liderança, com 1.705 unidades vendidas, seguido pelo Gol, com 1.659, e pelo Hyundai HB20, com 1.476. A presença do HB20 entre os mais vendidos na capital mostra outro movimento: há espaço também para seminovos mais recentes, com apelo urbano, consumo equilibrado e boa aceitação na revenda.
Esse equilíbrio entre modelos populares mais antigos e hatches compactos mais novos explica parte da força do mercado. Quem tem orçamento menor procura Gol, Palio, Uno, Celta, Fox ou Sandero. Quem consegue financiar um pouco mais busca HB20, Onix, Argo, Polo ou versões seminovas de SUVs compactos.
Consumidor tenta escapar da conta do zero km
O carro zero ficou mais distante para parte da classe média. Mesmo os modelos de entrada já chegam às lojas com preços que exigem financiamento longo, entrada maior e parcelas que competem com aluguel, escola, supermercado e plano de saúde.
Por isso, a compra do usado passou a ser menos uma escolha de ocasião e mais uma decisão financeira. Em muitos casos, o consumidor prefere um veículo de três, cinco ou até dez anos de uso, desde que tenha procedência, documentação regular e manutenção em dia.
Essa mudança favorece revendas profissionalizadas, concessionárias com setor de seminovos, lojas multimarcas e plataformas digitais. O comprador está mais atento ao histórico do carro, à garantia, à vistoria cautelar, ao laudo, à quilometragem e ao custo total depois da compra.
Também há reflexo em outros setores. Oficinas ganham demanda com revisão pós-compra. Seguradoras precisam recalcular risco em uma frota mais envelhecida. Despachantes, financeiras, lojas de acessórios e empresas de rastreamento acompanham o giro. O usado movimenta uma cadeia que vai bem além da venda do veículo.
Em Minas, essa engrenagem tem peso especial. O estado tem mercado consumidor grande, frota espalhada por cidades médias, dependência do carro em regiões sem transporte público amplo e presença forte de revendas em corredores comerciais de Belo Horizonte, Contagem, Betim, Uberlândia, Juiz de Fora, Montes Claros e Governador Valadares.
Locadoras e revendas ajudam a girar o mercado
Outro fator importante é a renovação de frotas. Grandes locadoras e empresas de terceirização de veículos abastecem o mercado de seminovos com carros de poucos anos de uso, revisados e com histórico de manutenção mais controlado. Belo Horizonte tem peso nessa cadeia por ser sede da Localiza, uma das maiores empresas de mobilidade do país, que também atua com venda de seminovos.
Na semana passada, mostramos que a companhia teve um lucro recorde, de mais de R$ 1 bilhão, só nos três primeiros meses do ano.
Esse tipo de oferta conversa com um consumidor que quer reduzir risco. O carro de locadora já foi visto com desconfiança por parte do mercado, mas ganhou espaço quando passou a ser vendido com mais transparência, garantia e padronização. Para muitas famílias, virou alternativa ao zero km.
As concessionárias também se adaptaram. Em vez de depender apenas da venda de carros novos, muitas passaram a tratar seminovos como parte central do negócio. O cliente entrega um usado na troca, financia outro modelo e mantém a roda girando.
O resultado aparece nos números nacionais. De janeiro a maio, o Brasil comercializou quase 7,5 milhões de veículos seminovos e usados, alta de 8,4% em relação ao mesmo período do ano passado. Minas acompanha esse movimento com força e se mantém entre os mercados mais relevantes do país.
A tendência para os próximos meses dependerá de três variáveis: juros, renda e preço dos veículos novos. Se o financiamento continuar caro e o zero km seguir fora do alcance de parte dos consumidores, o usado deve continuar ganhando espaço.
Para o mineiro, a conta é cada vez mais objetiva. O sonho do carro novo ainda existe, mas a compra possível muitas vezes está na revenda da esquina, no estoque da concessionária, no carro de locadora ou no anúncio online. Foi esse mercado, menos glamouroso e mais pragmático, que já movimentou mais de 904 mil negociações em Minas em 2026.


