O mercado do varejo alimentar em Belo Horizonte e região metropolitana acaba de se tornar o epicentro de uma das transformações trabalhistas e operacionais mais comentadas do país. O Grupo Supernosso anunciou oficialmente a decisão de extinguir a tradicional e desgastante escala 6×1, migrando de forma definitiva para o modelo 5×2 (cinco dias de expediente e duas folgas semanais) em todas as 45 unidades da rede.
A decisão foi pavimentada após o encerramento bem-sucedido de um projeto-piloto iniciado em março, que envolveu cerca de 500 colaboradores em lojas da bandeira Supernosso e Apoio Mineiro.
O movimento carrega um peso socioeconômico avassalador: o setor de supermercados é historicamente associado à alta rotatividade de pessoal, margens de lucro esmagadas e um ritmo asfixiante de funcionamento ininterrupto aos finais de semana e feriados.
A engenharia aplicada pelo grupo mineiro, contudo, não envolveu a redução da jornada de trabalho legal. A empresa manteve a exigência das 44 horas semanais, mas aplicou uma readequação de fluxo nas planilhas de ponto. Na prática, a jornada diária dos funcionários foi estendida de 7 horas e 20 minutos para 8 horas e 48 minutos.
A troca oferecida pela corporação é clara e direta: dias de expediente ligeiramente mais longos e exaustivos em contrapartida a um final de semana ou dia adicional completo de descanso e desconexão urbana por semana.
O cronograma de expansão em três grandes blocos
A transição das equipes de atendimento não ocorrerá de forma abrupta, visando blindar as engrenagens logísticas contra buracos operacionais ou quedas na experiência de compra do cliente.
Segundo o plano de expansão institucional divulgado pelo Grupo Supernosso, o cronograma de implementação foi fatiado em três etapas ao longo do período de inverno:

- 1º de Junho: Entrada imediata de mais 12 lojas integradas ao novo modelo tático.
- 6 de Julho: Migração automática de um segundo bloco contendo mais 12 unidades.
- 3 de Agosto: Implementação nas últimas 18 filiais, unificando 100% da operação de asfalto.
O projeto abrangerá diretamente uma massa de 4.800 colaboradores de frente de loja — englobando operadores de caixa, repositores, estoquistas, açougueiros e padeiros. O colosso mineiro, que registra um faturamento anual consolidado na casa dos R$ 5,1 bilhões, detém um ecossistema robusto de marcas, controlando bandeiras como Supernosso, Apoio Mineiro, Raro Alimentos, Be Honest e os braços de atacado distribuidor Dec Minas e Dec Bahia.
Inteligência Artificial nas gôndolas: Como a conta fechou?
O grande trunfo corporativo revelado pela marca foi a capacidade de quebrar o principal argumento macroeconômico do empresariado brasileiro. Tradicionalmente, defensores da escala 6×1 alegam que conceder duas folgas no varejo presencial exigiria contratações em massa, elevando o custo operacional e forçando o repasse inflacionário dos preços dos alimentos para o consumidor final.
O Supernosso provou o contrário na prática do balcão. A rede confirmou que a transição para o modelo 5×2 ocorreu sem demissões, sem queda nos indicadores de vendas e sem a necessidade de novas contratações relevantes.

A conta fechou através de três pilares de eficiência tecnológica:
- Algoritmos de escala: O grupo utilizou ferramentas de Inteligência Artificial para mapear com precisão cirúrgica os horários de pico e os dias de maior fluxo de clientes em cada microrregião de BH, distribuindo os funcionários de forma cirúrgica.
- Ajuste de relógio: A empresa reduziu de uma a duas horas o funcionamento de unidades específicas em momentos de baixo consumo noturno, otimizando o gasto de energia e a permanência das equipes.
- Corte de despesas acessórias: A reorganização reduziu os custos internos com itens recorrentes, como vales-transporte e vales-refeição nos dias de folga integral.
A caça pelos talentos e o combate ao fantasma do Turnover
Para além do impacto político no Congresso Nacional — onde o debate sobre a PEC do fim da escala 6×1 ganha tração —, a jogada do Supernosso atua como uma agressiva ferramenta de competitividade de mercado de capitais humanos. O setor supermercadista enfrenta uma dificuldade crônica para reter profissionais (turnover), sofrendo com faltas recorrentes, desmotivação crônica e processos trabalhistas por desgaste físico.
Ao consolidar a previsibilidade de duas folgas semanais, o diretor de Gente e Gestão do grupo, Jorge Feliciano, classificou o modelo como “irreversível” e apontou uma melhora substancial no clima organizacional das lojas.
O Supernosso passa a portar a melhor marca empregadora do setor em Minas Gerais. Em vez de disputar mão de obra na base do salário bruto com concorrentes pesados, a rede passa a atrair talentos oferecendo qualidade de vida e tempo para o convívio familiar, provando que o bem-estar do trabalhador pode caminhar lado a lado com o lucro de bilhões.


