A Cemig deve pagar cerca de R$ 1,55 bilhão a seus acionistas até o fim de junho, em uma das maiores distribuições recentes da companhia mineira. O valor faz parte do pacote de dividendos e juros sobre capital próprio aprovado após o lucro de 2025 e reforça a imagem da estatal como uma das empresas mais tradicionais da Bolsa quando o assunto é remuneração aos sócios.
A distribuição, anunciada oficialmente pela companhia, ocorre em um momento de contraste. Ao mesmo tempo em que repassa uma quantia bilionária aos acionistas, a Cemig afirma estar no maior ciclo de investimentos de sua história, com aportes pesados em distribuição, modernização da rede, expansão da infraestrutura elétrica e melhoria do atendimento em Minas Gerais.
O pagamento vem do lucro líquido de R$ 4,897 bilhões registrado em 2025. Na assembleia de abril, a companhia aprovou a destinação de R$ 3,513 bilhões como dividendos obrigatórios aos acionistas. Parte desse valor já havia sido declarada ao longo do ano passado, na forma de juros sobre capital próprio e dividendos. Outra parte, de R$ 676,1 milhões, foi declarada na própria assembleia.
Na prática, os acionistas receberão até 30 de junho metade dos juros sobre capital próprio ratificados pela assembleia e metade dos dividendos declarados em abril. A segunda parcela desse último pagamento está prevista para até 30 de dezembro.
Quem tem direito aos dividendos da Cemig
O ponto mais importante para o investidor é que o direito ao pagamento depende da chamada “data com”. Não basta comprar a ação agora para receber todos os valores anunciados.
Os juros sobre capital próprio que serão pagos em duas parcelas têm diferentes datas de corte, todas já ocorridas em 2025. Já os dividendos de R$ 676,1 milhões, declarados em abril, têm direito reservado aos acionistas que estavam posicionados em 30 de abril de 2026. A partir de 4 de maio, os papéis passaram a ser negociados “ex-direitos”, ou seja, sem direito a essa distribuição específica.
Essa diferença costuma confundir o pequeno investidor. Quando a empresa anuncia ou aprova dividendos, o pagamento pode ocorrer semanas ou meses depois. Quem compra a ação após a data de corte participa da valorização ou desvalorização do papel dali em diante, mas não recebe aquele provento já declarado.
Também há diferença tributária. Dividendos, pelas regras atuais, são isentos de Imposto de Renda para a pessoa física. Já os juros sobre capital próprio têm retenção de 15% na fonte, o que reduz o valor líquido recebido pelo acionista.
Mesmo assim, a Cemig segue sendo acompanhada de perto por investidores que buscam renda. A própria companhia informa em sua página de relações com investidores que distribui 50% do lucro líquido como dividendo obrigatório, além de observar regras específicas para ações preferenciais.
Lucro, dividendos e investimento em Minas
A distribuição bilionária também tem impacto político e econômico em Minas. O Estado ainda é o principal acionista da Cemig em ações ordinárias e recebe parte dos dividendos proporcionalmente à sua participação. Isso significa que, quando a companhia paga proventos, uma fatia retorna ao caixa público.
Esse ponto é sensível porque a Cemig vive no centro de um debate permanente sobre controle estatal, eficiência, investimentos e eventual privatização. Para defensores da manutenção do controle público, os dividendos são usados como argumento de que a empresa gera retorno financeiro ao Estado. Para quem defende mudanças no modelo, o foco costuma estar na capacidade de investimento, governança e necessidade de modernização da rede.
A companhia tenta equilibrar essas duas agendas. De um lado, remunera acionistas com parte relevante do lucro. De outro, sustenta um plano robusto de investimentos, especialmente na distribuição de energia, área diretamente ligada à qualidade do serviço percebida pelo consumidor.
Para o usuário comum, dividendos podem parecer um assunto distante da conta de luz. Mas eles ajudam a mostrar como a Cemig é, ao mesmo tempo, prestadora de serviço essencial, empresa listada em Bolsa e ativo estratégico do governo mineiro. A companhia precisa investir para reduzir falhas, ampliar capacidade e atender mais de 9 milhões de clientes, mas também responde a investidores que esperam retorno.
O pagamento de R$ 1,5 bilhão até junho reforça essa dupla natureza. A Cemig continua sendo uma empresa de infraestrutura, com obras, redes, subestações e equipes em campo. Mas também é uma companhia de capital aberto, pressionada a converter lucro em remuneração para quem tem ações.


