A China ainda não é um mercado maduro para o café brasileiro, e é exatamente nessa lacuna que reside uma das maiores oportunidades econômicas da década. O país asiático, tradicional consumidor de chá, está mudando de hábito e já se consolidou como o 10º maior destino do grão nacional.
Segundo dados do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), a China importou 1,123 milhão de sacas (60 kg) do Brasil em 2025, um salto de 19,5% em relação ao ano anterior. Enquanto mercados tradicionais estabilizam, o dragão asiático acelera as compras.
A corrida pelo varejo e o novo hábito chinês
Essa expansão não acontece em um vácuo comercial. A mudança é impulsionada por uma guerra bilionária no varejo urbano asiático.
No ano passado, o volume de cafeterias na China disparou mais de 50%, puxado pela agressividade de redes locais como a Luckin Coffee e gigantes globais como a Starbucks. A rede norte-americana, que já opera cerca de 8 mil lojas no país, anunciou a meta de chegar a 20 mil unidades em parceria com investidores locais. O reflexo na balança comercial é imediato: as importações chinesas do produto brasileiro chegaram a saltar mais de 180% no pico recente de abastecimento.
Minas Gerais no centro do tabuleiro asiático
Nesse cenário de transformação global, Minas Gerais não entra como coadjuvante. O estado é o motor do café nacional e tem os números para provar isso.
Em 2025, o grão foi responsável por US$ 11,4 bilhões das exportações do agronegócio mineiro, representando esmagadores 57,2% de todo o valor exportado pelo setor no estado (27,4 milhões de sacas embarcadas). Como a China já foi o principal destino geral do agro mineiro no último ano (US$ 4,6 bilhões), a infraestrutura de relacionamento comercial já existe. O desafio agora é aumentar o peso específico do café nessa balança.

Mais do que volume, o trunfo de Minas está no valor agregado. O mercado urbano e jovem chinês valoriza experiência, marca e qualidade — terreno fértil para os cafés especiais e diferenciados produzidos nas montanhas mineiras. Em 2025, esses grãos premium já responderam por 20,3% das exportações brasileiras, gerando US$ 3,5 bilhões.
O impacto em cascata e os gargalos do setor
Se o café se massificar na China, o efeito na economia de Minas irá muito além da porteira da fazenda. Uma nova fronteira de demanda significa:
- Menor dependência de compradores tradicionais (como EUA e Europa).
- Aumento da margem de lucro com prêmios por qualidade.
- Atração de investimentos pesados em beneficiamento, logística, certificação de origem e marketing internacional.
Apesar do otimismo, a porta de entrada asiática é estreita. A China é um mercado altamente competitivo e sensível a preço. Além disso, a internacionalização tende a favorecer primeiro as grandes tradings e conglomerados exportadores, enquanto pequenos produtores e cooperativas mineiras ainda precisarão lutar por escala comercial.
O caminho, no entanto, está pavimentado. Com 183 empresas brasileiras recentemente autorizadas pela China a exportar café, o estado de Minas Gerais — de onde sai quase metade do café do Brasil — tem a faca e o queijo na mão para transformar uma nova moda de consumo em estratégia econômica de longo prazo.
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