Antes das prateleiras dos supermercados serem dominadas pela Coca-Cola, pela Pepsi e pelo Guaraná Antarctica, o Brasil era um mosaico de garrafas retornáveis de vidro e sabores exóticos que raramente cruzavam a fronteira de seus estados.
Muitas dessas marcas faliram na década de 90. Outras, porém, não só sobreviveram ao rolo compressor das multinacionais como viraram verdadeiras instituições estaduais — do rosa-choque do Guaraná Jesus (Maranhão) ao clássico e singular Mate Couro (Minas Gerais).
Sem um ranking nacional de vendas pulverizadas, o Moon BH mapeou a marca mais emblemática de cada uma das 27 unidades da Federação, considerando a longevidade, o reconhecimento regional e a força cultural de cada bebida.
As estrelas do Norte
- Acre — Guaraná Quinarí (Ativo): A marca domina o estado e produz de tudo: guaraná, cola, laranja e até uva diretamente de Senador Guiomard.
- Amapá — Guaraná Taí (Na memória): Embora criado pela Coca-Cola (1979) e já quase extinto, foi a bebida mais presente na vida do amapaense durante os anos 80 e 90, período de retração da indústria local.
- Amazonas — Baré (Ativo): Nascido em Manaus, é o rei da Amazônia. Ganhou fama com seu nome indígena e hoje sobrevive no Norte operado pela Ambev.
- Pará — Guaraná Amazônia (Ativo): Nascido em Abaetetuba (anos 50), faz questão de estampar os animais da floresta em seus icônicos rótulos.
- Rondônia — Dydyo (Ativo): O caçula da lista, nascido em 1999, que explodiu e afirma abastecer 30 mil clientes no estado.
- Roraima — Bizu (Ativo): Há três décadas operando em Boa Vista, é figurinha carimbada nas padarias e mercados roraimenses.
- Tocantins — Maná (Situação incerta): Sucesso absoluto em Araguaína nos anos 90, sumiu dos radares comerciais formais em 2026, mas segue vivo na memória da cidade.
Os fenômenos do Nordeste
- Maranhão — Guaraná Jesus (Ativo): O mito rosa e adocicado de cravo e canela. A força cultural é tão grande que a Coca-Cola comprou a marca, mas não ousou mudar uma vírgula de sua identidade maranhense.
- Ceará — São Geraldo (Ativo): O orgulho do Cariri. O famoso “refrigerante de caju” é, tecnicamente, uma bebida gaseificada da fruta, mas bate a Coca-Cola em muitos municípios cearenses.
- Piauí — Cajuína Cristal (Ativo): Uma exceção técnica. A cajuína original não leva gás nem açúcar, mas é informalmente tratada como o “refrigerante oficial” piauiense pela sua importância cultural.
- Alagoas — RefresQ (Ativo): Surgiu nos anos 90 como água mineral e hoje resiste fabricando linhas de cola e guaraná em Maceió.
- Bahia — Sukita (Ativo): A laranja baiana. A marca nasceu na fábrica Fratelli Vita (Salvador), rodou o Brasil pela Brahma e hoje repousa na Ambev.
- Paraíba e Rio Grande do Norte — Dore (Ativo): Começou em João Pessoa no longínquo ano de 1911 e espalhou suas fábricas pelo Rio Grande do Norte, sendo hoje a dona de dois estados.
- Pernambuco — Hiran (Ativo): Um ícone do Sertão, enraizado em Inajá há quase 70 anos.
- Sergipe — São Geraldo (Adotado): Sem um gigante local nativo, o estado abraçou comercialmente o refrigerante de caju cearense a partir de 2024.
Os clássicos do Centro-Oeste
- Goiás — Goianinho (Ativo): Mais de 20 anos dominando o mercado de garrafas pet “família” na região de Trindade.
- Mato Grosso — Marajá (Ativo): A criação de Rondonópolis (anos 60) é tão forte que hoje exporta sua produção até para a Bolívia.
- Mato Grosso do Sul — Funada (Adotado): Originalmente de São Paulo, o guaraná conquistou os sul-mato-grossenses após abrir fábrica em Campo Grande (2006) — a lenda local ditava servir a bebida em saquinhos plásticos.
- Distrito Federal — Guaraná Pioneiro (Desapareceu): Ligado à construção de Brasília, rivalizou com o Crush nos anos 60, mas evaporou do mapa.
Os seculares do Sul
- Paraná — Cini (Ativo): A icônica “gengibirra” e a gasosa de framboesa resistem sob comando da mesma família, em Curitiba.
- Santa Catarina — Pureza (Ativo): Uma antiga cerveja sem álcool que virou refrigerante em 1926 e segue sob a gestão da quinta geração da mesma família.
- Rio Grande do Sul — Fruki (Ativo): O guaraná, nascido nos anos 70, lidera com folga as geladeiras gaúchas (com forte concorrência do Guaraná Cyrilla, uma das fórmulas mais antigas do país, que voltou a operar em 2020).
Sudeste: A pátria das tubaínas
- São Paulo — Itubaína (Ativo): Lançada em 1954 em Itu. Seu sabor tutti-frutti virou o nome genérico para qualquer refrigerante interiorano (Tubaína). Hoje pertence à Heineken.
- Rio de Janeiro — Mineirinho (Ativo): A maior ironia da lista. A fórmula é de Ubá (MG), mas a fábrica foi para Niterói em 1946. Hoje, a bebida de guaraná e chapéu-de-couro é o maior símbolo do Leste Fluminense.
- Espírito Santo — Guaraná Coroa (Ativo): Atravessou nove décadas abastecendo as mercearias capixabas desde Domingos Martins.
- Minas Gerais — Mate Couro (Ativo).
O caso de Minas Gerais: o império do Mate Couro

Minas Gerais tem uma disputa interna ferrenha. Os “refris” do interior são motivo de forte bairrismo regional (quem não se lembra do Del Rey, que desapareceu misteriosamente das prateleiras?). Hoje, a briga envolve fábricas fortes como a Frutty (produzindo 12 milhões de litros/ano) e o Guaraná Mineiro.
Mas a coroa pertence ao Mate Couro. Criado em BH no ano de 1947 por seis amigos, ele fundiu guaraná, erva-mate e chapéu-de-couro. A fórmula única criou um gosto que é impossível confundir com um refrigerante convencional. A marca completou 77 anos em 2024 e viu suas vendas explodirem, traçando um agressivo plano de dobrar a produção em três anos e invadir estados vizinhos.


