Quantas empresas conseguem sobreviver por 20 anos? E por 50? Algumas companhias brasileiras atravessaram guerras, crises econômicas, mudanças de moeda, revoluções tecnológicas e até a passagem do Império para a República sem desaparecer.
Há negócios que nasceram quando o Brasil ainda tinha imperador.
Descobrir a empresa mais antiga ainda funcionando em cada estado, porém, é mais complicado do que simplesmente comparar datas de CNPJ. Muitas companhias existiam décadas antes da criação do cadastro atual; outras mudaram de razão social, foram compradas ou transformaram-se em marcas pertencentes a grupos maiores.
A Petribu, por exemplo, rastreia a mesma atividade açucareira em Pernambuco até 1729 e se apresenta como a empresa de operação contínua mais antiga do país. Já a Ypióca costuma aparecer em levantamentos como a companhia privada brasileira mais antiga, com origem em 1846.
Por isso, o Buzz BH adotou um critério de continuidade histórica do negócio. Onde não existe documentação suficiente para declarar um campeão absoluto, usamos os registros empresariais antigos ainda identificados nas bases cadastrais disponíveis. A lista é uma apuração histórica, não um ranking jurídico da Receita Federal.
Norte: de uma empresa do Império a registros que antecedem os próprios estados
Acre — Miragina, 1967: a tradicional fabricante de biscoitos e massas completou 58 anos em 2025 e é, segundo A Gazeta do Acre, apontada no próprio estado como a empresa mais antiga ainda em funcionamento no Acre.
Amapá — Casa Santa Neuza, 1977: entre os registros empresariais históricos encontrados no estado, a empresa aparece entre os negócios particulares mais antigos ainda associados à atividade comercial local.
Amazonas — José Tadros & Cia, 1874: é uma das grandes surpresas da lista. Fundada em Manaus no século XIX, a companhia da família Tadros é descrita por entidades empresariais como a empresa mais antiga do Amazonas.
Pará — Phebo, 1930: os primos portugueses Antonio e Mario Santiago criaram a perfumaria em Belém. O famoso sabonete Odor de Rosas nasceu no mesmo ano e continua sendo vendido quase um século depois.
Rondônia — Josemira Alves de Souza, década de 1970: Rondônia é um dos casos em que a documentação histórica empresarial é mais fragmentada. Entre os registros antigos consultados, negócios individuais abertos ainda na década de 1970 aparecem como sobreviventes.
Roraima — F. Barbosa da Silva, 1986: uma base cadastral empresarial coloca o registro aberto em maio de 1986 no topo entre os mais antigos do estado. O número relativamente recente também lembra que Roraima só virou estado com a Constituição de 1988.
Tocantins — negócios registrados ainda nos anos 1960: algumas das empresas mais antigas hoje localizadas em Tocantins foram abertas quando o território ainda pertencia a Goiás. Em Pium, por exemplo, há registro empresarial datado de 1966.
Nordeste guarda algumas das companhias mais antigas do país
Alagoas — Usina Coruripe, 1925: fundada em 12 de fevereiro daquele ano a partir da união de engenhos, a empresa completou um século de história em 2025 e continua entre os grandes grupos brasileiros de açúcar, etanol e energia.
Bahia — Dannemann, 1873: fundada em São Félix pelo alemão Geraldo Dannemann, a fábrica de charutos surgiu ainda durante o reinado de Dom Pedro II. A produção baiana atravessou gerações e consolidou a marca internacionalmente.
Ceará — Ypióca, 1846: a produção começou em Maranguape com um alambique trazido de Portugal. Mesmo depois da aquisição da marca pela Diageo, a história iniciada no Ceará faz da Ypióca uma das operações empresariais privadas mais antigas do Brasil.
Maranhão — Gráfica São Tarcísio, década de 1960: registros empresariais históricos colocam a gráfica entre os negócios privados mais antigos ainda encontrados em atividade no estado.
Paraíba — São Braz, 1938: naquele ano, a família adquiriu a marca Café São Braz, embrião do grupo alimentício que cresceria a partir de Campina Grande. A formalização da razão social ocorreria posteriormente, em 1951.
Pernambuco — Petribu, 1729: é disparadamente o caso mais antigo desta lista. O Engenho Petribu remonta a 1729 e a empresa afirma manter a mesma atividade produtiva continuamente desde então. A operação atravessou quase três séculos de história brasileira.
Piauí — Armazém Paraíba, em Teresina desde 1968: a rede nasceu em Bacabal, no Maranhão, em 1958, mas transferiu um de seus principais centros empresariais para Teresina na década seguinte. A matriz piauiense tornou-se a base de um dos maiores grupos privados do estado.
Rio Grande do Norte — origem do Grupo Guararapes/Riachuelo, 1947: Nevaldo e Newton Rocha abriram em Natal a loja de roupas A Capital. O pequeno comércio foi o embrião do grupo que décadas depois controlaria a Riachuelo.
Sergipe — raízes do Grupo Maratá, década de 1960: José Augusto Vieira iniciou seus negócios com fumo em Lagarto, enquanto o Café Maratá já estava no mercado desde 1962. A marca seria incorporada aos negócios da família na década de 1980.
Centro-Oeste tem empresas que cresceram junto com cidades novas
Goiás — Rádio Difusora Brasileira, registro de 1969: bases cadastrais colocam a empresa, com registro de novembro de 1969, entre as mais antigas atualmente encontradas no estado.
Mato Grosso — Agroboi, 1979, entre as operações longevas confirmadas: registros históricos da Junta Comercial mato-grossense chegam ao século XIX, mas nem sempre é possível comprovar continuidade até hoje. Entre grandes negócios ativos com trajetória documentada, a Agroboi surgiu em 1979 em Rondonópolis.
Mato Grosso do Sul — Correio do Estado, 1954: o jornal começou a circular em Campo Grande quando Mato Grosso do Sul sequer existia como unidade federativa independente. Sua publicação manteve continuidade ao longo das décadas.
Distrito Federal — Pioneira da Borracha, 1959: a empresa nasceu em um galpão no Núcleo Bandeirante um ano antes da inauguração oficial de Brasília, fornecendo botas e capas de chuva aos trabalhadores que construíam a nova capital.
Sul tem gigantes que atravessaram mais de um século
Paraná — Matte Leão, 1901: Agostinho Ermelino de Leão Júnior abriu naquele ano a firma ervateira Leão Júnior S.A., ligada ao ciclo econômico que ajudou a enriquecer Curitiba. A marca Matte Leão atravessaria o século e hoje pertence à Coca-Cola.
Santa Catarina — Hering, 1880: criada em Blumenau pelos irmãos Hermann e Bruno Hering, começou com estrutura têxtil modesta e se tornou uma das marcas de vestuário mais reconhecidas do Brasil.
Rio Grande do Sul — Gerdau, 1901: a história do grupo começa quando João Gerdau adquiriu a Fábrica de Pregos Pontas de Paris, em Porto Alegre. Mais de 120 anos depois, a companhia tornou-se uma multinacional do aço.
Sudeste termina com três empresas do século XIX
Espírito Santo — Rede Gazeta, 1928: o jornal A Gazeta circulou pela primeira vez em setembro daquele ano. O negócio se transformou em um grupo que hoje reúne televisão, rádio e plataformas digitais.
Rio de Janeiro — Granado, 1870: José Antonio Coxito Granado abriu sua farmácia na então Rua Direita, no Centro do Rio. O endereço histórico permanece aberto e a marca passou de botica frequentada pela Corte a companhia de cosméticos com lojas fora do Brasil.
São Paulo — O Estado de S. Paulo, 1875: o jornal nasceu como A Província de S. Paulo ainda durante o Império. A publicação posteriormente adotou o nome atual e permaneceu ligada à família Mesquita.
Minas Gerais — Cedro Têxtil, 1872: Minas fecha a lista com uma companhia nascida no Brasil Imperial. A Cedro e Cachoeira foi fundada pelos irmãos Mascarenhas e mantém mais de 150 anos de atividades ininterruptas. A Assembleia Legislativa de Minas Gerais chegou a reconhecê-la formalmente como a empresa mais antiga em atividade no estado.
A sobrevivência impressiona ainda mais quando comparada ao mapa empresarial atual. Algumas dessas marcas passaram de pequenos negócios familiares a conglomerados; outras permaneceram essencialmente ligadas ao produto que fabricavam no começo.
Ao trocar fama por longevidade, o mapa muda completamente: aparecem charutos, açúcar, tecidos, jornais, perfumes, erva-mate e até uma loja que ajudou a construir Brasília.
E Minas termina em posição privilegiada. A Cedro nasceu em 1872, quando faltavam ainda 17 anos para a Proclamação da República, e continua produzindo tecidos mais de um século e meio depois.


