Minas Gerais não produziu apenas queijos, cafés, cachaças e algumas das receitas mais conhecidas do país. O estado também criou refrigerantes que atravessaram gerações, viraram símbolos de cidades e desenvolveram sabores difíceis de encontrar fora do território mineiro.
Alguns deles permanecem nas prateleiras dos supermercados. Outros sobrevivem principalmente na memória de quem cresceu em Belo Horizonte ou no interior. Há ainda marcas que começaram em pequenas fábricas familiares e conseguiram disputar espaço com multinacionais.
A lista abaixo reúne oito refrigerantes nascidos em Minas Gerais. A palavra “nascidos”, neste caso, envolve tanto fórmulas criadas no estado quanto marcas e fábricas que começaram suas histórias em municípios mineiros.
Del Rey: o refrigerante que chegou a dominar a Grande BH

Durante décadas, a Del Rey foi uma das marcas mais reconhecidas de Belo Horizonte e da Região Metropolitana. A empresa começou suas atividades na década de 1940 e instalou sua principal estrutura industrial em Ribeirão das Neves.
O guaraná era um dos produtos mais lembrados, mas a marca também oferecia sabores como laranja, cola, limão, uva e abacaxi, além de néctares e outras bebidas.
A força regional chegou a ser impressionante. Um laudo produzido durante o processo de recuperação da companhia estimou que a Del Rey alcançou aproximadamente 40% do mercado de refrigerantes da Região Metropolitana de Belo Horizonte e 25% de Minas Gerais.
Até 2015, teriam sido fabricados mais de 2 bilhões de litros de refrigerantes e 120 milhões de litros de néctares. A empresa chegou a manter cerca de 700 empregos diretos.
A trajetória, porém, terminou de maneira turbulenta. Investigações por crimes tributários, dificuldades para obter crédito e bloqueios judiciais enfraqueceram a operação. A falência foi decretada em 2020, e a antiga fábrica acabou colocada em leilão.
Guarapan: o sabor de maçã que virou símbolo de BH

O Guarapan nasceu em Belo Horizonte e se tornou um dos produtos regionais mais conhecidos do sistema Coca-Cola no Brasil. A versão mais repetida sobre sua origem afirma que um técnico decidiu experimentar uma mistura entre uma base de guaraná e maçã dentro de uma fábrica da capital. A combinação teria agradado à direção e acabado transformada em produto comercial.
Como parte dessa história foi transmitida oralmente, detalhes como uma possível bronca, promoção do funcionário ou compra de patente devem ser tratados como elementos da lenda da marca, não como fatos inteiramente documentados.
O que não está em dúvida é a identidade do produto. O Guarapan não tem o sabor tradicional de um refrigerante de guaraná: a presença da maçã cria uma bebida mais doce, aromática e imediatamente reconhecível por quem cresceu em Minas.
A marca acabou incorporada ao portfólio da Coca-Cola e continuou sendo vendida principalmente como um produto regional. Embora tenha nascido em BH, uma reportagem publicada em 2022 apontou que sua fabricação havia sido transferida para São Paulo.
Pon Chic: a bebida que virou patrimônio afetivo de Divinópolis

Em Divinópolis, falar de refrigerante regional é falar de Pon Chic. A marca está ligada à trajetória de José Lopes Ferreira, empreendedor que chegou ao município em 1945 e começou a atuar no comércio de bebidas.
Em 1952, ele abriu a fábrica Naná, no bairro Niterói, e lançou o Guaraná Divinópolis. A operação foi transferida para o bairro Interlagos em 1968, quando nasceu oficialmente a empresa Refrigerantes Pon Chic.
A marca cresceu associada à vida cotidiana da cidade. Seus refrigerantes passaram a aparecer em festas, escolas, bares, almoços de família e eventos comunitários.
A explicação tradicional para o nome afirma que Pon Chic surgiu da união entre “ponche” e “chique”. Mais do que a origem exata da expressão, o que importa é que ela se tornou reconhecível para várias gerações de moradores do Centro-Oeste mineiro.
Mate Couro: seis amigos, um farmacêutico e três extratos vegetais

O Mate Couro talvez seja o refrigerante mais genuinamente associado a Belo Horizonte.
A bebida foi lançada em setembro de 1947, depois que seis amigos mineiros, entre eles um farmacêutico, começaram a pesquisar uma fórmula produzida a partir de extratos vegetais.
O sabor tradicional combina erva-mate, folhas de chapéu-de-couro e guaraná. A mistura criou um produto que não se encaixa perfeitamente nas categorias tradicionais de cola, guaraná ou refrigerante de frutas.
A empresa cresceu ao ponto de produzir marcas de grandes grupos. Em 1955, firmou um contrato para fabricar e distribuir Pepsi-Cola e Mirinda. Mais tarde, também engarrafou produtos da Antarctica em Minas Gerais.
Artemis: o refrigerante que faz parte da história de Patos de Minas

A Artemis é uma daquelas marcas cuja fama muda completamente conforme o lugar onde a pergunta é feita. Fora do Alto Paranaíba, muitas pessoas nunca ouviram falar. Em Patos de Minas, porém, o refrigerante faz parte da memória da cidade.
A empresa associa sua história local ao ano de 1959. Registros da época mostram a produção de bebidas como laranjada, tubaína, soda e guaraná, em um período no qual pequenas fábricas abasteciam mercados muito mais restritos geograficamente.
O guaraná Artemis se tornou o principal produto da marca. Atualmente, a empresa também divulga refrigerante de maçã, versões sem açúcar e diferentes tamanhos de embalagem.
Taça de Cristal: começou como Ternurinha em uma fazenda

O refrigerante Taça de Cristal nasceu em Campo Belo, no Sul de Minas, de uma forma bastante diferente das grandes linhas industriais.
A história começou em 9 de maio de 1989, quando Pedro Antônio Salume passou a produzir artesanalmente uma bebida chamada Ternurinha na fazenda da família. Ele e o irmão, Renzo Salume, industrializaram a receita, dando origem à marca Taça de Cristal.
O guaraná tornou-se o carro-chefe. Em 2013, o produto venceu um concurso nacional de sabores organizado pela Confrebras. Em 2019, ficou na segunda colocação. A Taça de Cristal continua em atividade em Campo Belo e representa um exemplo de empresa familiar que transformou uma produção artesanal em indústria regional.
Jota Efe: mais de 75 anos produzindo bebidas em Ouro Fino

A Bebidas Jota Efe surgiu em 1949, quando José Faria Neto adquiriu uma pequena fábrica artesanal em Ouro Fino, no Sul de Minas. A operação começou de maneira modesta, mas cresceu ao longo das décadas. Em 1982, a empresa inaugurou uma fábrica às margens da MG-290, em uma área de 14 mil metros quadrados.
A linha inclui refrigerantes de guaraná, cola, laranja, abacaxi e outros sabores. A empresa também firmou parceria para produzir e distribuir bebidas Tampico em Minas Gerais e no Espírito Santo.
Em sua apresentação institucional mais recente, a Jota Efe afirma atender mais de 5 mil pontos de venda e manter uma unidade produtiva e um centro de distribuição na região Sudeste de Minas.
A marca completou 76 anos em 2025 e continua sendo uma das indústrias de bebidas mais tradicionais em funcionamento no estado.
Guaranita: o nome nasceu da mistura de guaraná com Itanhandu

A história da Guaranita guarda uma curiosidade que passou despercebida na versão anterior desta lista. Embora a empresa esteja atualmente em Passa Quatro, o refrigerante nasceu em 1949, na cidade vizinha de Itanhandu. O próprio nome foi formado pela combinação entre “guaraná” e “Itanhandu”.
Em 1962, a fábrica foi adquirida pelo imigrante italiano Mauro Saullo e pela esposa, Dulce Pereira Saullo. A empresa passou a se chamar Comércio Indústria de Bebidas Áurea, origem da sigla Cibal, e a produção foi transferida para Passa Quatro.
A localização na Serra da Mantiqueira deu à marca um diferencial. A partir da década de 1980, a empresa passou a usar água mineral da Fonte Mauro Saullo na fabricação de seus produtos. Hoje, o portfólio inclui Guaranita tradicional, zero açúcar, laranja, uva, citrus e cola. A empresa ainda produz água mineral com gás e mantém embalagens retornáveis de vidro, além das garrafas PET.
Por que tantos refrigerantes nasceram em Minas Gerais?
A existência dessas marcas está ligada a uma época em que o mercado de bebidas era muito mais regionalizado. Antes da consolidação das grandes redes de distribuição, pequenas fábricas abasteciam uma cidade e alguns municípios próximos. Garrafas retornáveis circulavam por trajetos curtos, e cada região acabava desenvolvendo seus próprios sabores e hábitos de consumo.
Por isso, o refrigerante regional raramente era apenas uma versão mais barata de uma marca nacional. Ele fazia parte das festas, dos bares, dos lanches escolares, dos almoços de domingo e da identidade de cada cidade.
lgumas empresas conseguiram modernizar suas fábricas e ampliar a distribuição. Outras continuaram concentradas em mercados locais. A Del Rey, mesmo depois de alcançar participação expressiva, não resistiu às crises financeiras e judiciais.
Mate Couro, Pon Chic, Artemis, Taça de Cristal, Jota Efe e Guaranita mostram o caminho oposto: marcas que mantiveram produção regional e continuaram associadas aos municípios onde nasceram. Já o Guarapan seguiu outra trajetória. Foi incorporado a uma multinacional, teve a produção deslocada, mas preservou a imagem de refrigerante mineiro.


