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Minas lidera captação de leite no Brasil, mas o produtor não está satisfeito

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Minas Gerais manteve a liderança nacional na produção leiteira no primeiro trimestre de 2026, respondendo por 24,7% de todo o leite cru captado e industrializado no Brasil. Foram mais de 1,67 bilhão de litros adquiridos entre janeiro e março. Enquanto isso, o país registrou captação total de 6,78 bilhões de litros no período, segundo boletim da FIEMG. A posição de destaque, porém, vem acompanhada de sinais de acomodação: a captação caiu 3,4% em relação ao quarto trimestre de 2025. Ademais, o preço médio real recebido pelo produtor mineiro recuou 22,7% na comparação com o mesmo período do ano anterior, chegando a R$ 2,29 por litro.

O retrato não é de crise de produção. É de ajuste em uma cadeia que envolve desde produtores rurais e cooperativas até laticínios, supermercados, transportadores e mais de 35 mil trabalhadores formais no estado.

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A queda de preço que pressiona quem está no campo

O maior alerta do primeiro trimestre está na remuneração do produtor. Em todo o Brasil, o preço médio do leite cru ficou em R$ 2,26 por litro, retração de 21,8% frente ao mesmo período de 2025. Em Minas, a queda foi ainda maior, chegando a 22,7%.

Essa variação tem efeito imediato sobre a gestão das propriedades. O produtor de leite não consegue suspender a atividade sem comprometer o rebanho e a estrutura. A vaca precisa ser alimentada, ordenhada e manejada diariamente. Quando o preço recebido cai, a conta da fazenda não se ajusta automaticamente. Ração, silagem, energia, mão de obra, sanidade animal, genética, manutenção, transporte e financiamento continuam exigindo desembolso.

Diante dessa pressão, parte dos produtores reduz investimentos, adia a compra de animais, ajusta a dieta do rebanho ou vende parte dos animais para equilibrar o caixa. Quem tem maior escala, tecnologia e gestão atravessa melhor o período. Contudo, quem opera com margem estreita sente o impacto antes.

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Minas tem regiões altamente tecnificadas, com produtividade elevada, mas também concentra uma base significativa de pequenos e médios produtores. A mesma queda de preço não tem o mesmo peso para todos.

Indústria e emprego formal no setor

A cadeia leiteira mineira vai além do que acontece no campo. O estado concentra 24,4% da força de trabalho formal nacional da indústria de laticínios. São mais de 35 mil empregos diretos em fábricas, cooperativas, laboratórios, linhas de envase, câmaras frias, controle de qualidade, logística e administração. No primeiro trimestre de 2026, o setor ainda registrou saldo positivo de 529 novas vagas formais.

O leite captado nas propriedades rurais mineiras abastece uma linha diversificada de produtos finais. Entre eles estão leite UHT, leite pasteurizado, queijo, requeijão, manteiga, doce de leite, iogurte, bebida láctea, leite em pó, creme de leite e ingredientes usados por outras indústrias alimentícias.

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Essa diversidade industrial ajuda a explicar a liderança de Minas no setor. O estado não depende apenas do volume produzido pelo produtor rural. Depende também da capacidade de transformar esse volume em produtos de maior valor agregado.

A FIEMG aponta para um reequilíbrio gradual do mercado ao longo de 2026, sinal de que a cadeia tenta encontrar um novo ponto de estabilidade entre oferta, demanda e preço. O excesso de produção estimulado pelos preços mais altos de 2025 pressionou a remuneração no início deste ano. Assim, o setor espera que seja um movimento transitório.

Do curral ao supermercado: por que o preço não cai na gôndola

Supermercado moderno e bem iluminado Imagem gerada por IA
Imagem gerada por IA Moon BH

Uma inconsistência frequente para o consumidor é que a queda no preço pago ao produtor raramente aparece de forma direta nas prateleiras dos supermercados. Entre a fazenda e a gôndola há transporte, industrialização, embalagem, distribuição, impostos, margem do varejista e perdas operacionais. Todos esses custos também subiram nos últimos anos, o que comprime a transmissão de eventuais reduções ao consumidor final.

Em Minas, essa discussão ganha uma camada adicional por causa do queijo artesanal. O estado transformou o produto em patrimônio cultural, ativo turístico e identidade territorial. A ExpoQueijo 2026 será realizada entre 25 e 28 de junho em Araxá, com concurso internacional, feira e fórum técnico. Além disso, a Megaleite, no Parque da Gameleira em Belo Horizonte, é mais um exemplo de como o leite mineiro foi elevado de commodity rural a marca regional com valor de mercado.

O desafio é fazer essa diferenciação chegar ao bolso de quem produz. Queijos premiados e genética valorizada ajudam a imagem do setor. Mesmo assim, a sustentabilidade econômica da cadeia ainda depende de preço, escala, logística e eficiência no dia a dia das propriedades.

Fatores externos e novos desafios para a liderança mineira

A liderança de Minas no leite é estrutural, sustentada por tradição, clima, regiões produtoras consolidadas, cooperativas, laticínios, centros de pesquisa e mercado consumidor expressivo. Mas o primeiro trimestre de 2026 mostrou que essa posição exige atenção contínua.

Do lado externo, a importação de lácteos, especialmente leite em pó proveniente de Argentina e Uruguai, segue no radar de entidades do setor. A concorrência com produtos importados mobilizou produtores e associações agropecuárias em 2025 e permanece como preocupação para o ciclo atual.

Uma agenda mais recente começa a ganhar espaço: a eficiência ambiental. Levantamento do Sebrae Minas indicou que propriedades leiteiras mais produtivas tendem a emitir menos carbono por quilo de leite. Se cooperativas, laticínios e produtores conseguirem transformar esse dado em diferencial de mercado, crédito diferenciado e acesso a compradores que exigem rastreabilidade ambiental, Minas pode agregar mais uma vantagem à sua posição nacional.

Para manter a liderança, produzir volume não será suficiente. O setor terá de combinar escala com margem, qualidade com eficiência e tradição com capacidade de adaptação a um mercado que cobra cada vez mais previsibilidade, sustentabilidade e valor agregado.

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Anna Millard
Anna Millard
Jornalista pela Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP. Tem experiência em jornalismo esportivo e de cidades e economia e passou pelo setor público e em assessoria de imprensa.