A Ambev foi a empresa com maior renúncia de ICMS em Minas Gerais em 2025. Segundo a lista de benefícios fiscais divulgada a partir dos dados do governo estadual, a fabricante de bebidas aparece no topo do ranking com R$ 1,517 bilhão em imposto que deixou de ser recolhido ao longo do ano. A segunda colocada é a Stellantis Automóveis Brasil, dona da Fiat, com R$ 889,9 milhões. Na sequência aparecem Souza Cruz, com R$ 617,8 milhões; Unilever Brasil, com R$ 584,2 milhões; e Ebazar.com.br, empresa do grupo Mercado Livre, com R$ 551 milhões.
Juntas, as cinco empresas somam R$ 4,16 bilhões em renúncias de ICMS, o equivalente a pouco mais de um quinto dos R$ 19,4 bilhões listados nesse tipo de benefício fiscal em todo o estado no período.
O dado não representa dinheiro depositado pelo governo nas contas das empresas. A renúncia fiscal é receita que o Estado deixa de arrecadar, geralmente por meio de regimes especiais, reduções de carga tributária ou tratamentos diferenciados. A justificativa oficial costuma ser atrair investimentos, manter fábricas, preservar empregos e disputar empresas com outros estados da federação.
Ambev: liderança isolada e presença industrial em várias cidades
A posição de destaque da Ambev no ranking chama atenção pelo volume e pela folga em relação à segunda colocada. A diferença entre o benefício da fabricante de bebidas e o da Stellantis supera R$ 600 milhões.
A companhia mantém operação industrial relevante em Minas. Em Uberlândia, está localizada a maior fábrica de bebidas do Brasil, onde a empresa anunciou R$ 1,3 bilhão em investimentos, com novas linhas de produção de cervejas. Além da unidade no Triângulo Mineiro, a Ambev opera fábricas em Sete Lagoas, Juatuba, Contagem e Belo Horizonte, o que coloca Minas como um dos estados de maior peso industrial para a companhia no país.
Stellantis, Souza Cruz e Unilever completam o topo
A renúncia de quase R$ 900 milhões da Stellantis aparece em um momento de expansão do Polo Automotivo de Betim. A montadora anunciou R$ 14 bilhões em investimentos na unidade até 2030, o maior aporte da história da fábrica mineira. Na semana passada, a empresa abriu 1,5 mil vagas para a produção de novos modelos das marcas Fiat e Jeep, com a maior parte das contratações concentradas em Betim.
O terceiro lugar é ocupado pela Souza Cruz, hoje ligada à BAT Brasil, com R$ 617,8 milhões em renúncia de ICMS. O caso envolve sensibilidades específicas: a indústria do tabaco é um dos setores mais tributados do país e frequentemente aparece nos debates sobre saúde pública, mercado ilegal e arrecadação. A fábrica da companhia em Uberlândia é uma das operações industriais mais relevantes do grupo no Brasil.
A Unilever ocupa o quarto lugar, com R$ 584,2 milhões. A multinacional tem em Pouso Alegre sua maior fábrica de alimentos da América Latina. O último grande anúncio da companhia no município foi um investimento de R$ 80 milhões para ampliar a produção de Hellmann’s, consolidando o Sul de Minas como base industrial da divisão de alimentos da empresa.
O quinto nome do ranking é a Ebazar.com.br, do grupo Mercado Livre, com R$ 551 milhões. Minas ocupa papel crescente na estrutura logística e tecnológica da companhia. O grupo instalou centro de distribuição em Extrema, ampliou a operação em Contagem e abriu um hub de tecnologia e produto no bairro Savassi, em Belo Horizonte.
O que os R$ 19,4 bilhões em renúncia representam
O volume total de renúncia de ICMS listado em Minas em 2025 chega a R$ 19,4 bilhões. Para ter dimensão do número, a cifra representa uma fatia relevante da arrecadação estadual e mostra a escala dos benefícios fiscais concedidos pelo governo mineiro ao longo do tempo.
Renúncia fiscal é um instrumento comum entre os estados brasileiros, especialmente no contexto da chamada guerra fiscal, em que unidades da Federação competem para atrair indústrias e centros de distribuição com oferta de alíquotas reduzidas, diferimentos e regimes especiais de ICMS. A prática foi parcialmente limitada por legislação federal e por acordos no âmbito do Conselho Nacional de Política Fazendária, o Confaz, mas seus efeitos acumulados ainda aparecem nas listas de benefícios concedidos.
A justificativa dos governos para manter esses benefícios é a geração de empregos diretos e indiretos, a atração de investimentos e a preservação de cadeias produtivas. O contra-argumento é que a renúncia reduz a base de arrecadação disponível para serviços públicos e pode distorcer a concorrência entre empresas com e sem acesso aos regimes especiais.
Investimentos e empregos como contraparte dos benefícios
Em todos os cinco casos do ranking mineiro, as empresas beneficiadas mantêm operações industriais ou logísticas com peso real na economia do estado. A Ambev emprega diretamente em várias cidades. A Stellantis é o maior empregador industrial de Betim. A Unilever sustenta parte relevante do emprego formal de Pouso Alegre. O Mercado Livre movimenta logística e tecnologia em diferentes regiões.
Essa relação entre benefício fiscal e presença industrial é o argumento central dos governos ao defender os regimes especiais. A permanência ou a expansão dessas operações em Minas, em vez de em outros estados, depende, ao menos em parte, do ambiente tributário oferecido.





