Lideranças do varejo alimentar mineiro se reúnem nesta quinta-feira, 25 de junho, em Contagem, para discutir tendências, eficiência operacional e os desafios impostos por um consumidor que mudou o jeito de comprar. O evento ABRAS em Ação nas Estaduais, realizado no Actual Convention Hotel em parceria com a AMIS, chega em um momento em que o setor convive com um paradoxo: redes bilionárias, presença forte no ranking nacional e expansão em diferentes formatos, mas um cliente cada vez mais cauteloso, menos fiel a marcas e muito mais atento ao valor final do carrinho.
Levantamento da NielsenIQ citado por reportagens recentes do setor mostra que 66% dos consumidores estão dispostos a migrar para opções mais baratas, 45% dizem fazer essa troca independentemente da marca e 40% acompanham o valor total da cesta antes de fechar a compra. O consumidor não parou de ir ao supermercado. Ele passou a recalcular o que coloca no carrinho.
A força do varejo mineiro e o novo comportamento de compra
Minas Gerais tem um dos varejos alimentares mais robustos do país. O Ranking ABRAS 2026 posicionou o Supermercados BH em quarto lugar nacional, com faturamento de R$ 25,7 bilhões em 2025. O Mart Minas & Dom Atacadista aparece entre os dez maiores do Brasil, com R$ 12,5 bilhões. A Rede Smart, também de Minas, ficou logo na sequência, com R$ 11,8 bilhões. O estado tem ainda redes como Supernosso, Verdemar, Epa, Mineirão Atacarejo e Apoio Mineiro, além de supermercados independentes, mercearias, sacolões e atacadistas que abastecem desde a Grande BH até o interior.
Tamanho, porém, não protege ninguém da mudança de comportamento do consumidor. A inflação dos alimentos dos últimos anos ensinou o cliente a comparar antes de colocar o produto no carrinho. Muita gente passou a consultar encarte, acompanhar promoção em aplicativo, observar preço por quilo, considerar marca própria e avaliar embalagem econômica. A compra ficou menos automática.
Um mês a compra grande vai para o atacarejo. No outro, itens de reposição são feitos no supermercado de bairro. A troca de marca acontece quando a diferença de preço parece relevante. O consumidor que antes repetia a lista quase sem pensar agora substitui, corta e compara com naturalidade.
Atacarejo em alta e a pressão sobre o supermercado tradicional
O avanço do atacarejo explica parte dessa mudança. Formatos como Mart Minas, Mineirão Atacarejo e Apoio Mineiro cresceram porque falam diretamente com quem quer abastecer a casa gastando menos por unidade. O modelo atende família, pequeno comerciante, bar, restaurante e revendedor informal em um mesmo espaço. Em períodos de orçamento apertado, a embalagem maior compensa quando o cliente percebe economia real.
O supermercado tradicional não perdeu espaço, mas precisa se defender melhor. Ele continua forte pela conveniência, localização, padaria, açougue, hortifrúti e compra de reposição. A diferença está em como cada rede se posiciona diante do cliente mais criterioso.
O Supermercados BH cresceu com preço competitivo e presença em bairros e cidades onde o consumidor compra com frequência. O Supernosso trabalha conveniência e qualidade. O Verdemar ocupa um nicho premium, com público de maior renda, produtos próprios, adega e padaria. O Epa se apoia na compra cotidiana e na proximidade com o bairro. Cada rede reage a seu modo, mas o desafio comum é o mesmo: o cliente está menos previsível.
Tecnologia e eficiência no centro da operação
O evento em Contagem tem como pano de fundo uma discussão que ganhou urgência no setor: eficiência operacional. Em um negócio de margem apertada, tecnologia deixou de ser assunto distante para virar parte da sobrevivência.
Sistemas de gestão, controle de estoque, precificação dinâmica, controle de ruptura, rastreamento de perdas, programas de fidelidade, dados de comportamento de compra e uso de inteligência promocional passaram a separar redes que crescem das que perdem competitividade. Um supermercado que compra mal perde margem. Um que precifica errado perde cliente. Um que deixa produto faltar perde venda sem recuperação.
Para redes independentes do interior, o desafio é ainda maior. Elas costumam conhecer melhor o cliente local, mas têm menos poder de compra e menos acesso a tecnologia do que grandes grupos. Saídas possíveis incluem centrais de compra, associações setoriais, marcas próprias compartilhadas e uso mais eficiente de dados básicos de venda.
A escolha de Contagem para sediar o evento tem uma lógica própria. A cidade fica no centro da Região Metropolitana de BH, com forte presença logística, atacadista, industrial e comercial. É ponto de passagem de corredores que abastecem a capital e o interior e concentra centros de distribuição relevantes para o varejo mineiro.





