A pergunta sobre a preferência clubística de Romeu Zema (Novo) parece elementar em um estado onde a rivalidade esportiva divide famílias e molda conversas diárias. No entanto, a resposta do ex-governador de Minas Gerais e candidato à Presidência da República revela uma relação muito mais curiosa, diplomática e multifacetada do que a escolha direta entre Atlético Mineiro, Cruzeiro ou América.
Ao longo de sua trajetória pública, Zema já apresentou versões distintas sobre sua ligação com os gramados: já declarou torcer formalmente para o Araxá Esporte Clube, já afirmou que preferia acompanhar exclusivamente a Seleção Brasileira e, em uma revelação mais recente, admitiu que duas das maiores frustrações de sua juventude foram derrotas históricas do Atlético.
O conjunto dessas declarações constrói um perfil peculiar: embora nunca tenha vestido publicamente a camisa de um dos gigantes da capital para evitar atritos políticos com as torcidas de massa, Zema admitiu ter sofrido tanto com o Galo a ponto de decretar o fim de sua vida como torcedor de arquibancada.
O trauma com duas finais históricas do Atlético
A declaração mais reveladora sobre o seu passado nos estádios ocorreu durante a cerimônia do Troféu Guará Bmg, tradicional premiação do esporte mineiro, em fevereiro de 2024. Na ocasião, Zema relembrou que acompanhava futebol com frequência e paixão durante a juventude, mas que duas decisões do Campeonato Brasileiro deixaram marcas profundas.
Os episódios citados pelo político foram a decisão do Brasileirão de 1977, na qual o Atlético chegou invicto à final contra o São Paulo e acabou derrotado nos pênaltis em pleno Mineirão, e a polêmica final do Brasileiro de 1980, quando o time alvinegro venceu o primeiro jogo em Belo Horizonte por 1 a 0, mas perdeu o título para o Flamengo no Maracanã por 3 a 2.
Segundo o próprio ex-governador, a carga emocional e o sofrimento gerados por essas duas partidas foram suficientes para afastá-lo do hábito de acompanhar o futebol de perto. “Abandonei minha carreira de torcedor”, resumiu Zema ao justificar seu distanciamento dos campeonatos. O fato de ter escolhido justamente reveses emblemáticos da história alvinegra para explicar sua desilusão com o esporte chamou a atenção de cronistas e torcedores.
Oficialmente Araxá, emocionalmente marcado pelo Galo
A evolução das declarações mostra uma linha do tempo curiosa: a neutralidade da Seleção Brasileira em 2018, o apego regional ao Araxá em 2022 e a confissão pública de um sofrimento juvenil ligado às decisões do Galo em 2024.
Embora nunca tenha proferido de forma explícita a frase “sou atleticano”, o histórico esportivo de Romeu Zema é definido por essa dualidade: perante o registro público e a diplomacia política, o candidato coloca o Araxá como seu único clube; no campo da memória afetiva, no entanto, foram as dores e as glórias do Atlético nos anos 1970 e 1980 que moldaram seu sentimento pelo futebol.


