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De vice de Lula a casa de Nikolas: como o PL virou o maior pesadelo do PT em Minas Gerais

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Nas eleições presidenciais de 2002, a grande tacada que levou Lula (PT) à sua primeira vitória nacional teve o Partido Liberal (PL) como fiador. E o símbolo máximo dessa aliança estratégica era um mineiro: José Alencar, poderoso empresário do setor têxtil e senador pela legenda. A chapa vitoriosa uniu o líder sindical ao capital industrial, selando uma aliança histórica.

Avançando vinte e quatro anos na linha do tempo, a mesma sigla partidária abriga hoje, em Minas Gerais, o deputado federal Nikolas Ferreira. Símbolo do bolsonarismo e atual vice-líder da oposição na Câmara dos Deputados, Nikolas dedica grande parte de sua retórica a pesados ataques ao governo Lula e às pautas da esquerda.

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Essa transformação radical não é apenas uma curiosidade isolada. Ela ajuda a explicar a profunda reorganização da política brasileira nas últimas duas décadas. O PL mineiro não apenas rompeu sua aliança com o PT; ele se metamorfoseou no polo mais vocalmente antagônico ao lulismo, e usou Minas Gerais como palco para eleger o deputado federal mais votado do país nas eleições de 2022.

2002: O PL que ajudou a eleger Lula

A filiação de José Alencar ao PL, no final de 2001, foi a peça que faltava no quebra-cabeça do PT. A composição com o empresário mineiro permitiu que Lula construísse a imagem do “Lulinha Paz e Amor”, desfazendo resistências do mercado financeiro e do empresariado nacional. Documentos da época, arquivados no Senado, descreviam abertamente a chapa como a grande conciliação nacional entre o capital e o trabalho.

Essa harmonia entre as siglas desceu a rampa do Planalto e chegou às eleições municipais. Um exemplo contundente ocorreu em Contagem (Região Metropolitana de BH), em 2004, quando o PL ocupou a vice-prefeitura na chapa encabeçada por Marília Campos, do PT. O candidato a vice era, ironicamente, o então presidente estadual do PL, Agostinho da Silveira.

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Hoje, essa fotografia política soa quase como ficção. Marília Campos, que atualmente concorre ao Senado, pertence exatamente ao campo ideológico que o PL moderno de Minas Gerais tenta extirpar do poder.

O longo caminho: Mensalão, PR e o desembarque de Bolsonaro

A metamorfose do partido, contudo, não ocorreu da noite para o dia. A aliança com o PT ruiu durante o escândalo do Mensalão, em 2005, que envolveu as principais lideranças do PL. José Alencar deixou a sigla naquele mesmo ano, migrando para o PRB (atual Republicanos), partido pelo qual se reelegeria vice de Lula em 2006.

O PL também passou por reciclagens. Em dezembro de 2006, fundiu-se com o folclórico Prona (partido do falecido Enéas Carneiro) e criou o Partido da República (PR). A marca “Partido Liberal” só seria ressuscitada juridicamente em 2019, com a autorização do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

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Mas a virada definitiva — o “Big Bang” do novo PL — ocorreu em 30 de novembro de 2021. Naquela data, o então presidente Jair Bolsonaro assinou sua filiação à sigla. A entrada de Bolsonaro reposicionou o partido no extremo do espectro conservador, atraindo uma rede gigantesca de políticos e militantes identificados com a nova direita. Em Minas Gerais, nenhum personagem encarnou tão bem essa nova fase quanto Nikolas Ferreira.

A era Nikolas: o PL mineiro vira potência de direita

A ascensão de Nikolas Ferreira foi meteórica. Em 2022, ele saltou da Câmara Municipal de Belo Horizonte diretamente para a Câmara dos Deputados em Brasília, cravando 1.492.047 votos.

Ele não foi apenas o candidato mais votado do Brasil naquele ano; ele registrou a maior votação absoluta para o cargo na história de Minas Gerais, superando o segundo colocado no estado por uma margem de seis vezes o número de votos.

A força de Nikolas funcionou como um trator eleitoral. O PL elegeu uma bancada de 11 deputados federais por Minas Gerais (incluindo nomes como Domingos Sávio, Eros Biondini, Junio Amaral e Emidinho Madeira). O crescimento capilarizou-se no interior: nas eleições de 2024, a legenda elegeu 53 prefeitos, número que subiu para 67 chefes do Executivo em 2026 após movimentações partidárias.

A mudança não foi apenas de tamanho, mas de essência. O atual presidente do PL-MG, Domingos Sávio, deixa claro que o funil do partido hoje exige a defesa inegociável de valores de direita, citando a liberdade econômica e religiosa.

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Fhilipe Pelájjio
Fhilipe Pelájjiohttps://moonbh.com.br/fhilipe-pelajjio/
Publicitário, jornalista e pós-graduado em marketing, é editor do Moon BH e do Jornal Aqui de BH e Brasília. Já foi editor do Bhaz, tem passagem pela Itatiaia e parcerias com R7, Correio Braziliense e Estado de Minas. Especialista na cobertura de política, economia de Minas Gerais e de futebol e sua influência econômica e política.