O eleitor de Minas Gerais desenvolveu, ao longo deste século, um comportamento eleitoral muito característico, mas que frequentemente é esquecido nos primeiros meses de campanha: o estado quase sempre define a disputa pelo Palácio Tiradentes sem precisar voltar às urnas para um segundo turno. Uma análise histórica feita pelo Moon BH detalhada mostra que o mineiro tende a concentrar seus votos em um favorito absoluto logo na primeira rodada.
Desde 2002, foram realizadas seis eleições diretas para o Governo de Minas Gerais. O dado que mais chama atenção é que cinco dessas disputas terminaram matematicamente no primeiro turno.
A única exceção de todo o século XXI ocorreu em 2018, quando Romeu Zema (Novo) e Antonio Anastasia (PSDB) avançaram para uma segunda votação. Em termos estatísticos, 83,3% das eleições mineiras para o Executivo estadual neste século foram liquidadas imediatamente.
No entanto, a corrida eleitoral de 2026 dá fortes sinais de que pode quebrar novamente esse padrão. De acordo com a pesquisa do instituto Quaest, divulgada nesta terça-feira (25 de agosto), o cenário está amplamente pulverizado. O senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) lidera com 29% das intenções de voto, patamar ainda distante dos 50% mais um dos votos válidos necessários para vencer o pleito no primeiro domingo de outubro. Atrás dele, aparecem Patrus Ananias (PT) com 11%, Alexandre Kalil (PDT) com 10%, e o atual governador Mateus Simões (PSD) com 7%.
De Aécio a Zema: o histórico das vitórias em turno único
A tradição de resolver a fatura rapidamente começou no ano de 2002. Naquela eleição, Aécio Neves (PSDB) consolidou o modelo ao receber 57,68% dos votos válidos contra 30,72% de Nilmário Miranda (PT), assumindo o governo estadual com mais de 5,28 milhões de votos e descartando a necessidade de segundo turno.
Quatro anos depois, em 2006, ocorreu a vitória mais avassaladora do período. Aécio foi reeleito com expressivos 77,03% dos votos válidos, enquanto o candidato petista amargou 22,03%, percentual que até hoje figura entre os maiores recordes da história eleitoral mineira.
Com Aécio migrando para o Senado em 2010, seu sucessor, Antonio Anastasia, herdou não apenas o capital político, mas a tradição. O tucano venceu Hélio Costa ainda no primeiro turno por 62,72% a 34,18%, segundo os dados oficiais do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG).
Nem mesmo a transição de poder alterou o comportamento prático do eleitorado em 2014. Fernando Pimentel (PT) quebrou a hegemonia tucana, mas manteve a tradição do estado ao conquistar 52,98% dos votos válidos contra 41,89% de Pimenta da Veiga (PSDB), assegurando a cadeira de governador sem estender a campanha.
Já em 2022, após a exceção de 2018, o comportamento tradicional retornou em peso: Romeu Zema garantiu sua reeleição na primeira rodada com 56,18% dos votos válidos, desbancando os 35,08% de Alexandre Kalil.
O retrospecto do século, portanto, desenha a seguinte linha do tempo:
- 2002 (1º turno)
- 2006 (1º turno)
- 2010 (1º turno)
- 2014 (1º turno)
- 2018 (2º turno)
- 2022 (1º turno)
A exceção de 2018 e a curiosa matemática de 2026
A única quebra dessa regra ocorreu em 2018. Romeu Zema chocou o mercado político ao arrancar na reta final do primeiro turno, somando 42,73% dos votos válidos contra 29,06% de Antonio Anastasia. Como nenhum dos dois ultrapassou a barreira matemática de 50%, a eleição foi levada para uma segunda votação (onde Zema disparou e venceu com 71,8%). Antes desse episódio, o último segundo turno no estado havia ocorrido duas décadas antes, no distante ano de 1998, no embate entre Itamar Franco e Eduardo Azeredo.
Ao cruzar os números de 2018 com a atual pesquisa Quaest de 2026, surge uma curiosidade matemática intrigante. Hoje, a Quaest registra Cleitinho com 29% das intenções gerais, mas há uma fatia imensa de 31% da amostra que não escolhe nenhum candidato (sendo 19% de indecisos e 12% de brancos, nulos ou que declaram que não votarão). O bloco de eleitores que efetivamente escolheu um nome soma apenas 69%.
Se realizarmos um exercício aritmético básico, isolando apenas esses 69% (para simular uma proporção de votos válidos), a fatia de 29% de Cleitinho representaria cerca de 42% das preferências nominais. Esse percentual é cirurgicamente próximo aos 42,73% obtidos por Romeu Zema no primeiro turno de 2018 — justamente a única eleição do século que demandou um segundo turno.


