A possível candidatura de Cleitinho Azevedo ao governo de Minas Gerais tem uma força evidente: o senador construiu capital político criticando pedágios, impostos, privilégios e o peso das mineradoras no estado. A mesma força, porém, carregaria um risco se ele chegasse ao Palácio Tiradentes.
Como governador, Cleitinho deixaria a posição de fiscal do sistema e passaria a responder por contratos, orçamento, dívida pública, concessões e limites legais que não desaparecem com discurso.
Pedágio: a crítica fácil e o contrato difícil
O primeiro teste seria o pedágio. Cleitinho tem usado as redes para criticar concessões rodoviárias. Em março de 2025, foi a Monte Sião questionar o pedágio sem cancela da MG-459, no modelo free flow, reclamando do valor de R$ 9,60 e das condições da via.
Também se opôs à instalação de pedágio na Linha Verde, que liga Belo Horizonte ao Aeroporto de Confins, defendendo reação jurídica e consulta à população.
Como governador, a equação mudaria. Pedágio em rodovia concedida está amarrado a contratos de longo prazo, metas de investimento e equilíbrio econômico-financeiro. No Sul de Minas, a concessão da EPR Sul prevê R$ 4,1 bilhões em investimentos ao longo de 30 anos, com reajuste tarifário previsto em contrato.
Um governador pode fiscalizar, renegociar e endurecer metas. Mas acabar com pedágios já contratados ou reduzir tarifa por vontade política tende a abrir disputa jurídica, pedido de indenização e risco de paralisação de serviços. A crítica rende na oposição. A gestão cobra a conta.
IPVA menor depende de receita, Assembleia e lei fiscal
O segundo ponto é o IPVA. No Senado, Cleitinho prometeu reduzir a alíquota em Minas se virar governador e compensar a perda cobrando mais das mineradoras.
Mas um governador não reduz IPVA sozinho por live ou decreto. Alterar alíquota exige mudança legal, negociação com a Assembleia Legislativa e compatibilidade fiscal. A Lei de Responsabilidade Fiscal exige que a renúncia de receita venha acompanhada de estimativa de impacto e compensação.
O contexto de Minas aperta ainda mais. Ao aderir ao Propag, o estado confessou saldo devedor de R$ 179,3 bilhões com a União, refinanciado por 360 meses. A promessa de baixar IPVA, portanto, teria que virar engenharia fiscal, com planilha de quanto perde, quem compensa e sob qual risco jurídico.
Mineradoras não saem de Minas, mas não pagam por simples ordem

O terceiro teste seria a mineração. Cleitinho identifica o setor como peça central da economia mineira, e Minas já tem instrumento estadual sobre a atividade: a TFRM, taxa criada em 2011 que corresponde a 1 Ufemg por tonelada de minério extraída e custeia fiscalização e monitoramento.
O limite está em transformar discurso de cobrança em receita livre para compensar o IPVA. A principal compensação financeira da mineração, a CFEM, tem regra federal, administração da Agência Nacional de Mineração e distribuição definida em lei, com repasse majoritário aos municípios produtores.
Minas pode fiscalizar melhor, cobrar a TFRM e endurecer o licenciamento dentro da lei. Mas criar uma nova cobrança relevante ou elevar substancialmente a arrecadação sem conflito jurídico exigiria desenho técnico, base legal e provável disputa com as empresas.
A armadilha entre fiscal e gestor
Essa é a tensão central de uma eventual vitória. Cleitinho cresce porque fala como fiscal. O governo exigiria que ele virasse gestor, e gestor precisa entregar estrada, pagar dívida, manter serviço, negociar contrato e montar maioria parlamentar.
Para o próprio senador, o Senado oferece um lugar mais confortável para sua marca: denunciar, propor e pautar o debate. O governo de Minas daria poder real, mas também cobraria responsabilidade real.
Se vencer, o desafio não será provar que sabe criticar o sistema. Será mostrar quais partes dele consegue mudar sem quebrar o funcionamento do estado, dentro dos contratos, das leis fiscais e da autonomia dos Poderes que hoje ele questiona da tribuna.


