Belo Horizonte ganhou espaço de destaque na cobertura nacional da Globo sobre as eleições de 2026. A capital mineira foi escolhida como um dos quatro pontos do país visitados pela apresentadora Renata Lo Prete e pelo cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, em uma série especial do Jornal da Globo dedicada aos eleitores que podem mudar de lado entre uma eleição e outra.
Batizada de “Voto Pendular”, a produção percorre São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Belo Horizonte. O objetivo é compreender um grupo sem fidelidade permanente à esquerda ou à direita e que, justamente por transitar entre candidaturas, pode decidir uma eleição presidencial apertada. Segundo dados da Quaest apresentados na série, 32% dos eleitores mudaram seu voto nas duas últimas eleições analisadas.
No caso mineiro, a Globo foi além da capital. Em Belo Horizonte, Lo Prete e Nunes reuniram moradores de diferentes regiões de Minas Gerais, usando a cidade como ponto de encontro para discutir por que o Estado funciona historicamente como uma espécie de termômetro eleitoral do país.
Café Nice vira cenário para falar da eleição brasileira
A escolha do local também carrega simbolismo. Parte da produção foi realizada no tradicional Café Nice, no Centro de Belo Horizonte. A própria Quaest classificou Minas como “o retrato do Brasil” ao divulgar a participação de Felipe Nunes na série e apontou o estabelecimento como um antigo ponto de encontro e termômetro da política mineira.
Inaugurado em 1939, o Café Nice atravessou mais de oito décadas no coração da capital e ficou conhecido pela passagem de políticos e personagens da história de Belo Horizonte. O espaço foi revitalizado recentemente depois de uma mobilização para impedir seu fechamento.
A combinação não parece acidental: uma série sobre mudanças de voto escolheu como cenário justamente um endereço ligado à memória política da cidade.
Minas acertou todos os presidentes desde 1989
Existe uma razão objetiva para Minas receber tamanho destaque. Desde a primeira eleição presidencial direta após a redemocratização, em 1989, o candidato mais votado em Minas Gerais no turno decisivo também foi o vencedor da eleição nacional.
A sequência inclui Fernando Collor em 1989; Fernando Henrique Cardoso em 1994 e 1998; Lula em 2002 e 2006; Dilma Rousseff em 2010 e 2014; Jair Bolsonaro em 2018; e Lula novamente em 2022. São nove eleições presidenciais consecutivas em que o resultado mineiro acompanhou o resultado brasileiro.
Isso não significa que Minas “preveja” matematicamente quem será presidente. O Estado, porém, combina características econômicas, sociais e regionais muito distintas — da Região Metropolitana de Belo Horizonte ao agronegócio do Triângulo, passando pelo Norte, Vale do Aço, Zona da Mata e Sul de Minas.
Essa diversidade ajuda a explicar por que estrategistas enxergam o Estado como um território particularmente importante para identificar movimentos do eleitorado nacional.
Em 2022, apenas 49 mil votos separaram Lula e Bolsonaro em Minas
A última eleição tornou esse papel ainda mais evidente. No segundo turno de 2022, Lula obteve 50,20% dos votos válidos em Minas Gerais, contra 49,80% de Jair Bolsonaro.
Em números absolutos, foram 6.190.815 votos para Lula e 6.141.161 para Bolsonaro: diferença de apenas 49.654 votos em um Estado com mais de 12 milhões de votos válidos para presidente. Curiosamente, Belo Horizonte não reproduziu o resultado estadual.
Na capital, Bolsonaro venceu com 54,25%, enquanto Lula recebeu 45,75%. O Estado como um todo acabou virando para o petista graças ao desempenho obtido fora de BH.
Minas continua dividida em 2026
Quatro anos depois, a característica permanece. O Datafolha divulgado na semana passada colocou Lula com 46% e Flávio Bolsonaro com 42% em uma eventual disputa de segundo turno em Minas, resultado considerado empate técnico diante da margem de erro de três pontos percentuais.
São Paulo, por outro lado, mostrou vantagem para Flávio; Pernambuco, ampla vantagem para Lula; e o Rio de Janeiro também apresentou terreno mais favorável ao candidato do PL.


