João Vitor Xavier levou para a Folha de S.Paulo uma disputa que já não cabe mais só no controle remoto. O CEO da CNN Brasil, jornalista mineiro e presidente da Itatiaia, disse que a emissora passou a GloboNews em alcance na TV por assinatura no primeiro semestre de 2026 e fez uma crítica dura ao modelo de medição de audiência no país. Para ele, se o Ibope não se modernizar, “vai acabar”.
A CNN Brasil tenta se apresentar como o canal de notícias mais visto do país ao usar a métrica de alcance: o número de pessoas diferentes que passaram pela emissora no período. Já a GloboNews segue à frente quando a comparação considera a média diária ponderada de audiência, indicador que leva em conta não só quantas pessoas passam pelo canal, mas também quanto tempo permanecem nele.
Entre janeiro e junho, no recorte de “dia inteiro”, das 6h à meia-noite, a CNN Brasil alcançou 26,79 milhões de indivíduos únicos na TV paga, contra 25,61 milhões da GloboNews. A vantagem foi de 4,43%, segundo dados do Ibope citados pela própria CNN e enviados por Xavier à Folha.
O problema enfrentado pela CNN também é, de certa forma, compartilhado pela CazéTV. É que o Ibope só mede a audiência do Streaming pelas TVs. Ou seja, toda vez que alguém assiste à CazéTV pelo celular ou tablet, estes dados não são contabilizados pelo Ibope. Isso reforça a urgência em modificar os parâmetros do instituo para refletir a audiência real.
Em outro caso, na Copa do Mundo, a audiência do SBT era medida de forma incorreta em tempo real. Hoje o instituto mede o som que sai das TV para verificar qual canal está passando. Como o SBT transmitiu junto da N Sports, essa aferição saia errada e a emissora só sabia sua audiência real no dia seguinte.
A tese de João Vitor: a TV virou multiplataforma
A frase mais forte da entrevista foi dirigida ao Ibope. João Vitor disse ter levado a crítica à sede da empresa de medição e afirmou que os institutos precisam entender que o consumo de mídia saiu das “caixinhas” instaladas em casas de painelistas.
A CNN não quer ser avaliada apenas como canal linear de TV por assinatura. A empresa quer ser lida como uma operação de notícias espalhada por múltiplos ambientes: TV paga, YouTube, Prime Video, Samsung TV Plus, LG, parabólica digital, portal, redes sociais e CNN Money.
A própria emissora ressalta que a liderança em alcance na TV paga não inclui plataformas conectadas, onde também afirma reunir milhões de espectadores.

A posição de Xavier também carrega a experiência mineira. Antes de assumir oficialmente a CNN Brasil, ele vinha da Itatiaia, rádio que construiu parte de sua força justamente por entender distribuição, hábito e presença diária. Não por acaso, na mesma entrevista, ele resgatou o rádio para explicar o futuro da televisão. Na visão dele, a TV tende a ficar cada vez mais parecida com o rádio: forte no factual, no ao vivo, no esporte, no serviço e na cobertura local.
CNN mira TV aberta e quer capilaridade nacional
A entrevista à Folha também mostrou o próximo movimento da CNN Brasil: a entrada na TV aberta. João Vitor disse que a empresa negocia com emissoras locais para formar uma rede nacional, com expectativa de estreia no início de 2027. A programação, segundo ele, estaria praticamente pronta; o obstáculo maior é fechar acordos comerciais e jurídicos que deem capilaridade ao projeto.
O modelo não exigiria concessões próprias em cada praça, mas acordos com estações já autorizadas a operar.
Para Minas, uma eventual presença da CNN em TV aberta teria efeito duplo. De um lado, poderia ampliar a oferta de jornalismo nacional e ao vivo para quem hoje não tem TV paga. De outro, colocaria mais pressão sobre emissoras locais e canais de notícia que disputam atenção em um mercado já fragmentado por rádio, portais, redes sociais, YouTube e influenciadores.
O próprio Reuters Institute, no Digital News Report 2026, descreve o Brasil como um mercado em que a mídia tradicional perde espaço como fonte de notícia, enquanto redes sociais, influenciadores, vídeo digital e canais multiplataforma ganham relevância. O relatório também registra que a televisão tenta ampliar distribuição e diversificar receitas em meio ao avanço do digital.
A CNN usa esse ambiente a seu favor. A emissora também divulgou, em junho, que apareceu no Digital News Report como marca jornalística de maior confiança no Brasil, com 62% dos entrevistados declarando confiança nas notícias da empresa, acima da Globo, que apareceu com 55% no recorte divulgado pela CNN.


