O Palmeiras construiu nos últimos anos uma das maiores máquinas de receita do futebol brasileiro com venda de jogadores, patrocínios, bilheteria e premiações. Fora dessas fontes mais conhecidas, porém, uma operação criada para aproximar o clube da rotina financeira dos torcedores alcançou uma escala que já pode ser medida em bilhões de reais.
As compras realizadas com o cartão ligado ao Palmeiras Pay já movimentaram cerca de R$ 2 bilhões desde a implantação do projeto. Para o clube, a operação gerou aproximadamente R$ 54,7 milhões em receitas desde 2023, combinando royalties e valores relacionados ao ecossistema do programa de sócio-torcedor.
Cartão virou uma fonte própria de receita
O Palmeiras Pay funciona como uma conta digital associada ao clube e oferece cartão de crédito aos usuários. A operação é realizada em parceria com a Pefisa, braço financeiro do Grupo Pernambucanas, mas a utilização da marca e a integração com os produtos palmeirenses geram receitas para o Verdão.
Dados divulgados pelo clube e obtidos pela Folha de S.Paulo mostram que as compras efetuadas pelos clientes já chegaram à casa dos R$ 2 bilhões. Desde 2023, o Palmeiras recebeu R$ 54,7 milhões relacionados ao programa, valor que inclui royalties e receitas ligadas ao Avanti.
O tamanho da movimentação chama atenção porque coloca o torcedor em uma relação comercial diferente daquela construída por bilheteria ou compra de camisa. Nesse modelo, uma transação que não possui relação direta com futebol pode continuar produzindo receita para o clube.
Palmeiras tenta ampliar receita recorrente
A busca por fontes recorrentes ganhou importância porque as contas do Palmeiras continuam fortemente influenciadas pela negociação de jogadores. Em julho, o Moon BH mostrou que o clube já havia ultrapassado R$ 500 milhões em receitas nos primeiros cinco meses de 2026, mas ainda estava abaixo do resultado financeiro projetado.
Naquele levantamento, o orçamento anual projetava quase R$ 1,2 bilhão em arrecadação. A maior fonte esperada ainda era a venda de atletas, responsável por uma previsão próxima de R$ 400 milhões.
É justamente nesse contexto que produtos como o Palmeiras Pay ganham relevância. Receitas de venda de jogadores podem variar drasticamente de uma temporada para outra, enquanto operações de consumo e relacionamento com torcedores têm potencial para gerar dinheiro de forma mais contínua.
O valor de R$ 54,7 milhões desde 2023 ainda é pequeno quando comparado às maiores negociações realizadas pelo clube no mercado, mas possui uma característica diferente: não exige abrir mão de um atleta para entrar no caixa.
Torcedor deixa de gerar receita apenas no estádio
Historicamente, a relação financeira entre clubes e torcedores esteve concentrada em ingressos, mensalidades de sócios, produtos licenciados e camisas. A digitalização começou a ampliar essa lista, e o Palmeiras passou a buscar participação também em serviços financeiros.
Quando um torcedor utiliza o cartão para abastecer o carro, fazer supermercado ou comprar um produto que não possui qualquer ligação com futebol, a relação comercial com o clube permanece ativa.
Essa característica ajuda a explicar o interesse das equipes brasileiras em construir ecossistemas próprios. Um clube com milhões de torcedores possui uma base de potenciais consumidores que pode ser monetizada muito além dos dias de jogo.
No Palmeiras, essa estratégia conversa diretamente com o Avanti. O programa de sócio-torcedor aparece entre as fontes de receita recorrente e alcançou R$ 29,7 milhões somente nos cinco primeiros meses de 2026, segundo o balanço analisado anteriormente pelo Moon BH.
R$ 2 bilhões não significam R$ 2 bilhões para o Palmeiras

É importante diferenciar o volume movimentado pelo cartão da receita efetivamente recebida pelo clube. Os R$ 2 bilhões representam o total de compras processadas pelos clientes, e não dinheiro que entrou diretamente nos cofres do Palmeiras.
A parcela que chegou ao clube desde 2023 foi de R$ 54,7 milhões. Ainda assim, o número permite medir a dimensão alcançada pelo produto financeiro e o tamanho da atividade econômica gerada em torno de uma marca esportiva.
A operação também mostra como o futebol brasileiro começa a disputar espaços tradicionalmente ocupados por empresas de outros setores. O Palmeiras não se transformou em banco, mas utiliza sua marca e a relação emocional com a torcida para participar de um mercado de serviços financeiros operado por uma instituição parceira.
Receita fora de campo reduz dependência do resultado esportivo
Essa diversificação ganha ainda mais valor porque desempenho esportivo e receita nem sempre caminham juntos. Uma eliminação precoce reduz premiações, jogos e exposição, enquanto uma temporada sem grandes vendas pode comprometer metas orçamentárias.
Serviços financeiros, programas de sócios e licenciamento funcionam de maneira diferente. Eles podem continuar produzindo receita mesmo quando a bola não está rolando.
O Palmeiras Pay ainda representa uma parcela relativamente pequena diante do orçamento bilionário do clube, mas a movimentação de R$ 2 bilhões mostra que o potencial comercial da torcida não está restrito à arquibancada. Para o Palmeiras, cada vez mais, transformar essa relação em receita recorrente é também uma forma de depender menos de vender jogadores para equilibrar as contas.


