Quando Abel Ferreira afirmou que o Palmeiras não abriria mão de nenhuma competição, a decisão parecia principalmente uma declaração de ambição. Alguns dias depois, o calendário começa a mostrar o preço concreto dessa escolha.
O clássico contra o São Paulo fará o Verdão completar uma sequência de dez partidas em apenas 31 dias. O detalhe mais incomum é que, pela maneira como as datas se sobrepõem, será a segunda vez nesta mesma semana que uma janela móvel de um mês reúne dez compromissos palmeirenses.
Não é uma carga comum nem mesmo quando a comparação sai do Brasil.
Segundo levantamento publicado por PVC no UOL, sequências semelhantes apareceram apenas duas vezes no futebol europeu recente, envolvendo Internazionale e Barcelona na temporada 2024/25. O Palmeiras está reproduzindo a marca enquanto continua disputando três campeonatos simultaneamente.
Palmeiras praticamente não teve semanas livres
A primeira sequência considerada pelo levantamento começou no empate sem gols com o Internacional, em 9 de agosto, e terminou na vitória por 1 a 0 sobre a LDU pela Libertadores.
Nesse período, o Palmeiras somou três vitórias, cinco empates e uma derrota.
Quando a conta avança alguns dias no calendário e passa a considerar o intervalo iniciado no empate contra o Cerro Porteño, em 12 de agosto, o clássico com o São Paulo novamente se torna o décimo compromisso em 31 dias. Nesse recorte, são quatro vitórias, quatro empates e uma derrota antes do Choque-Rei.
A diferença entre as duas contas é pequena porque boa parte dos jogos se repete. O que interessa não é tratar os números como duas maratonas independentes, mas mostrar que o Palmeiras permaneceu durante semanas preso a uma frequência próxima de uma partida a cada três dias.
Escolha de Abel começa a ser realmente testada

O calendário ganha ainda mais peso porque o clube poderia tentar reduzi-lo esportivamente por meio de escalações alternativas.
Abel decidiu não seguir esse caminho como regra.
Depois da classificação à semifinal da Copa do Brasil, o treinador afirmou que o Palmeiras continuaria brigando pelas três competições. A opção mantém aberta a possibilidade de uma temporada histórica, mas diminui drasticamente a margem para preservar titulares.
No Campeonato Brasileiro, qualquer rotação envolve risco porque o Flamengo assumiu a liderança e abriu um ponto de vantagem.
Na Libertadores, o Palmeiras venceu a LDU apenas por 1 a 0 e ainda precisará decidir a classificação na altitude de Quito.
Na Copa do Brasil, já está entre os quatro melhores. Preservar força em uma frente significa aceitar risco em outra.
Exemplo europeu mostra que sobreviver não é o mesmo que terminar bem
A comparação com a Internazionale ajuda a dimensionar o perigo sem transformar o calendário em sentença.
Na temporada 2024/25, o clube italiano enfrentou uma sequência semelhante quando ainda brigava por Campeonato Italiano, Copa da Itália e Champions League. Entrou no período disputando todos os grandes objetivos.
Terminou sem conquistar nenhum deles.
A Inter foi vice-campeã italiana, caiu diante do Milan na Copa nacional e perdeu a final da Champions por 5 a 0 para o Paris Saint-Germain. Isso não significa que o mesmo roteiro espera o Palmeiras, porque elencos, adversários e contextos são completamente diferentes.
A comparação serve para mostrar outra coisa: chegar vivo às fases decisivas não garante que o corpo consiga sustentar o mesmo nível até o fim.
São Paulo vira parte de uma decisão maior
O Choque-Rei, portanto, não vale apenas três pontos.
O Palmeiras entra na rodada sabendo que um tropeço pode permitir que o Flamengo aumente a vantagem na liderança. Ao mesmo tempo, precisa sair do clássico preparado para viajar a Quito e defender uma margem mínima diante da LDU.
O cenário torna o gerenciamento de minutos quase tão importante quanto a própria escalação.
Jogadores que apresentem sinais de desgaste podem precisar deixar o campo antes. Outros que normalmente começariam no banco ganham importância. O departamento físico passa a influenciar decisões que, em períodos normais, seriam quase exclusivamente técnicas.
Foi exatamente esse risco que o Moon BH apontou quando Abel decidiu continuar atacando as três competições.
Naquele momento, a escolha ainda era teórica. Agora existe um número capaz de medi-la.
Dez jogos em 31 dias é uma frequência que gigantes europeus raramente enfrentam. O Palmeiras está prestes a completar essa marca pela segunda janela consecutiva enquanto tenta conquistar três títulos ao mesmo tempo.
Abel escolheu não abrir mão de nada. A partir de agora, a grande questão é descobrir quanto o elenco consegue carregar sem precisar abrir mão de alguma coisa à força.


