O Flamengo que disputa a Libertadores não é necessariamente o mesmo que entra em campo pelo Campeonato Brasileiro. O empate por 1 a 1 com o Cruzeiro, nesta quarta-feira (12), no Mineirão, voltou a evidenciar uma característica do trabalho de Leonardo Jardim: alguns jogadores ganham espaço de acordo com o tipo de partida que o treinador espera encontrar, e não apenas por uma hierarquia fixa dentro do elenco.
Em Belo Horizonte, dois exemplos chamaram atenção. Emerson Royal começou na lateral direita, deixando Varela no banco, enquanto Bruno Henrique foi escolhido para comandar o ataque no lugar de Pedro.
As decisões poderiam parecer simples mudanças de escalação. Depois da partida, porém, Jardim deixou claro que existe uma lógica por trás delas.
“Não mudamos muito o que tem sido o nosso cenário na Libertadores. Muitos dos jogadores têm jogado na Libertadores. No Brasileiro, jogam outros”, explicou o português.
Na prática, o Flamengo começa a apresentar diferentes versões de seu time titular.
Royal é o exemplo mais evidente

Nenhuma disputa mostra melhor essa estratégia do que a lateral direita.
Emerson Royal foi titular nos sete jogos disputados pelo Flamengo na Libertadores de 2026 até agora. Mais do que isso: atuou durante os 90 minutos em todas essas partidas.
No Brasileirão, entretanto, Varela também recebe oportunidades e disputa normalmente a posição.
Jardim explicou que a escolha está diretamente relacionada às características que espera encontrar em cada confronto.
Segundo o treinador, quando pretende ter mais posse de bola e construir um jogo mais envolvente, Varela tende a ser utilizado. Já Royal possui características consideradas especialmente úteis para partidas mais físicas.
“Nos jogos da Libertadores, mais agressivos, com mais duelos, o Royal nisso é forte”, explicou Jardim após enfrentar o Cruzeiro.
A declaração muda a maneira de interpretar a disputa.
Royal não necessariamente “tomou” a posição de Varela. Da mesma forma, quando o uruguaio aparece entre os titulares no Brasileiro, isso não significa que Royal tenha perdido espaço.
São ferramentas diferentes para partidas diferentes.
Pedro no banco também segue uma lógica
Algo semelhante acontece no ataque.
Pedro é uma das principais referências ofensivas do Flamengo, mas começou a partida contra o Cruzeiro no banco. Bruno Henrique foi escolhido como titular. Não foi uma decisão isolada.
A mesma lógica já havia aparecido durante a fase de grupos da Libertadores, quando Jardim utilizou Bruno Henrique como referência em partidas do torneio continental. Contra o Cruzeiro, repetiu a fórmula.
O curioso é que Pedro havia conquistado grande espaço logo nos primeiros meses do trabalho do português. Em abril, chegou a ser tratado como peça praticamente fixa do ataque, enquanto Bruno Henrique passou a exercer outras funções. A sequência da temporada, entretanto, mostrou que a hierarquia é menos rígida do que parecia.
Na Libertadores, Jardim parece valorizar determinadas características de Bruno Henrique, especialmente mobilidade, velocidade e capacidade de atacar espaços.
Contra o Cruzeiro, porém, a mudança no segundo tempo também mostrou o outro lado dessa estratégia.
Pedro entrou aos 20 minutos junto com Lucas Paquetá. Pouco depois, sofreu a falta que originou a jogada do empate. Na cobrança, Léo Ortiz acertou o travessão e Paquetá aproveitou o rebote para marcar.
Ou seja: a escolha inicial por Bruno Henrique não significa que Pedro tenha se tornado uma opção secundária no elenco.
Flamengo tenta colocar em prática ideia dos “22 titulares”
A estratégia de Jardim também conversa diretamente com um projeto defendido pela diretoria.
No começo da temporada, o presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, afirmou que o objetivo era montar um elenco com “22 titulares”, criando competição em praticamente todas as posições.
Em abril, quando Jardim começava a estabelecer suas primeiras hierarquias, laterais e ataque já apareciam como os setores com maior rodízio. Varela e Royal se alternavam conforme o adversário, enquanto Pedro, Bruno Henrique, Samuel Lino e Plata dividiam minutos no setor ofensivo.
Meses depois, o cenário se tornou ainda mais claro. A diferença é que o rodízio não parece acontecer simplesmente para descansar jogadores.
Existe um componente tático, Jardim escolhe determinadas características dependendo daquilo que acredita que a partida exigirá.
Então o Flamengo tem dois times titulares?
Não exatamente.
A ideia não é dividir o elenco entre uma equipe do Brasileiro e outra da Libertadores. Vários jogadores continuam aparecendo nas duas competições e alguns nomes permanecem como referências independentemente do adversário. O que está mudando é o conceito de titularidade.
No caso de Royal e Varela, por exemplo, a pergunta deixa de ser apenas “quem é melhor?” e passa a ser “quem é melhor para este jogo?”.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado ao ataque. Um confronto em que o Flamengo espere encontrar espaços para correr pode favorecer Bruno Henrique. Uma partida na qual o adversário esteja recuado e a equipe precise ocupar constantemente a área pode aumentar a importância de Pedro.
Até mesmo jogadores como Plata e Carrascal podem ganhar ou perder espaço conforme a necessidade de velocidade, associação ou controle da bola.
É uma forma de utilizar a profundidade de um elenco construído justamente para oferecer alternativas.
Estratégia também traz um risco para Jardim
Ter jogadores diferentes para cenários diferentes oferece possibilidades, mas também aumenta a cobrança sobre cada escolha.
Contra o Cruzeiro, por exemplo, Pedro e Paquetá começaram no banco e participaram imediatamente da reação que resultou no empate.
Paquetá precisou de poucos minutos para marcar. Pedro também teve influência na origem da jogada ao sofrer a falta que levou a bola para a área.
Quando reservas entram e mudam uma partida, surge naturalmente a pergunta sobre o que teria acontecido se fossem titulares.
Jardim, entretanto, indica enxergar essa discussão de outra maneira. Para ele, a força do Flamengo também está justamente em conseguir mudar características durante os 90 minutos. O jogo contra o Cruzeiro deixou isso evidente.
Royal e Bruno Henrique começaram porque representavam o tipo de confronto que o treinador esperava encontrar. Pedro e Paquetá entraram quando o cenário mudou e o Flamengo precisava buscar o empate. O resultado foi 1 a 1.
Para a volta, marcada para quarta-feira, 19 de agosto, às 21h30, no Maracanã, Jardim terá novamente de decidir qual versão do Flamengo é mais adequada para enfrentar o Cruzeiro. Uma vitória classifica o Rubro-Negro, enquanto um novo empate leva a decisão para os pênaltis.
E a escalação poderá novamente produzir algumas surpresas.
Não necessariamente porque alguém perdeu a posição, mas porque, no Flamengo de Jardim, ser titular pode depender tanto do adversário quanto do próprio jogador.


