O Flamengo mapeia o mercado com a autoridade de quem possui o maior orçamento do continente, mas o presidente Luiz Eduardo Baptista (Bap) deixou um recado claro: o clube não será feito de refém em negociações inflacionadas. O nome que domina os corredores da Gávea para a próxima janela é o de Luiz Henrique, atacante do Zenit, da Rússia.
Ao comentar o planejamento para o segundo semestre durante o painel no São Paulo Innovation Week, no Pacaembu, Bap não confirmou uma proposta oficial, mas fez questão de manter a porta escancarada. A mensagem nas entrelinhas é de que uma investida pelo ponta canhota dependeria de um alinhamento perfeito de astros: a vontade pessoal do jogador, a flexibilidade dos russos, o assédio europeu e o timing de uma operação que esbarra nos valores mais altos da história do futebol brasileiro.
Questionado pelo portal Lance! sobre a busca por jogadores de nível de Seleção Brasileira, o dirigente adotou a cautela como escudo. Bap citou o exemplo do próprio Lucas Paquetá, lembrando que, se o desejo do atleta for estritamente financeiro e europeu, o Flamengo não entrará em uma guerra de foice no escuro. A agressividade rubro-negra só será acionada se o mercado abrir uma brecha realista.
A muralha russa: O abismo entre R$ 200 milhões e R$ 300 milhões
O radar do Flamengo aponta para Luiz Henrique porque ele representa a obsessão tática do técnico Leonardo Jardim: um jogador em idade competitiva, com currículo de Seleção, força física para quebrar blocos baixos e capacidade inegável de elevar o teto do elenco. Contudo, o grande obstáculo para transformar o desejo em assinatura de contrato fala russo e tem um cofre blindado.

O Flamengo trabalha com a ideia de uma proposta inicial agressiva, girando na casa dos 35 milhões de euros (aproximadamente R$ 201 milhões). O Zenit, porém, joga duro. A pedida dos russos trafega em um patamar superior, oscilando entre 40 milhões e 50 milhões de euros.
Dependendo da cotação e dos gatilhos de bônus, o pacote total pode saltar para a assustadora faixa dos R$ 300 milhões. O Zenit desembolsou uma fortuna pelo atacante após seu auge absoluto pelo Botafogo na histórica temporada de 2024, quando o jogador foi protagonista do título brasileiro e da Libertadores. Sem a necessidade de fazer caixa, os russos não aplicarão descontos camaradas.
O choque de realidade: Mais caro que Paquetá, Vitor Roque e Gerson
Para dimensionar o absurdo financeiro que uma negociação de R$ 300 milhões representa, é necessário olhar para os movimentos recentes das SAFs e dos gigantes nacionais. Segundo levantamento de inteligência de mercado do Moon BH, cruzando os dados da plataforma Transfermarkt, a eventual repatriação de Luiz Henrique faria outras contratações faraônicas parecerem “baratas”.
Se os russos baterem o pé na pedida máxima, o ponta custará substancialmente mais do que o Flamengo gastou na complexa engenharia para o retorno de Lucas Paquetá. O meia, que mobilizou os cofres da Gávea, exigiu uma operação que orbitou a casa dos 25 milhões de euros (cerca de R$ 150 milhões). Ou seja, Luiz Henrique custaria praticamente o dobro.
A comparação com os rivais diretos é igualmente assustadora:
- Vitor Roque no Palmeiras: A pesada investida de Leila Pereira para repatriar o “Tigrinho” movimentou cerca de 32 milhões de euros (algo próximo a R$ 190 milhões).
- Gerson no Cruzeiro: O retorno do “Coringa” ao Brasil para liderar o meio-campo celeste sob a gestão da SAF custou em torno de 18 milhões de euros (R$ 108 milhões).
Por R$ 300 milhões, o reforço deixa de ser apenas uma peça tática para se tornar uma obrigação institucional. Não bastaria Luiz Henrique jogar bem; ele teria que dominar a liga e justificar sozinho o retorno comercial da maior operação da América do Sul.
A peça que falta na engrenagem de Leonardo Jardim
Do ponto de vista puramente esportivo, a obsessão tem total cabimento. O Flamengo possui um elenco extremamente técnico, mas esbarra em partidas onde os adversários estacionam um “ônibus” na frente da área. O time carece de um ponta direita canhoto com extrema potência física.
Luiz Henrique traz a imposição atlética. Ele recebe aberto, protege a bola de costas, ganha duelos individuais no corpo a corpo e obriga as defesas a dobrarem a marcação, liberando espaço para Arrascaeta ou Pedro. Em transições rápidas, é letal; em fase defensiva, tem “motor” para recompor as linhas. É um impacto tático, não apenas uma grife.
A armadilha do elenco inchado e a faca de dois gumes da Copa

A chegada de uma estrela deste calibre criaria um efeito dominó na Gávea. Para comportar um atleta deste valor, o Flamengo precisaria aliviar a folha salarial. Nomes como Luiz Araújo (frequentemente assediado pelo mercado saudita) e Everton Cebolinha precisariam ser negociados. Um elenco precisa de profundidade, mas o excesso de peças caríssimas na mesma posição gera insatisfação e rompe o equilíbrio do vestiário.
Além disso, há o relógio-bomba da Copa do Mundo de 2026. A presença quase certa de Luiz Henrique na lista de Carlo Ancelotti para a Seleção Brasileira é uma faca de dois gumes para a diretoria:
- Se ele for para a Copa e brilhar: O preço dispara. O Zenit ganha argumentos para exigir os 50 milhões de euros, e a concorrência da Premier League torna a repatriação impossível.
- Se o cenário russo pesar: Caso a falta de competições europeias na Rússia desanime o atleta, o Flamengo pode usar o mesmo trunfo institucional que tentou com Paquetá — oferecer um projeto esportivo vencedor e vitrine imediata para forçar a saída.
Bap joga o jogo corporativo. Ao pregar prudência e dizer que o negócio “depende de variáveis”, ele esfria as expectativas da torcida, evita inflacionar o mercado e tira a corda do pescoço do diretor de futebol. O Flamengo tem bala na agulha para realizar a operação, mas só vai apertar o gatilho se o alvo valer cada centavo desta fortuna recorde.


