Em qualquer outro momento da história, uma vitória do Botafogo traria paz. Em janeiro de 2026, ela traz apenas desconfiança. Os muros pichados do Espaço Lonier com a frase “Cadê o dinheiro?” e as cobranças diretas a John Textor sinalizam um fenômeno raro: a ruptura entre a arquibancada e a gestão, mesmo quando a bola entra.
Estamos assistindo ao início do que pode ser chamado de “Era Pós-Textor” — não necessariamente a saída do empresário, mas o fim da Era da Inocência. O torcedor alvinegro acordou do sonho da SAF salvadora e percebeu que, sem gestão e fluxo de caixa, a empresa pode ser tão perigosa quanto o clube associativo.
O Sintoma: Ganhar Não Basta
Por que protestar se o time ganhou? Porque o botafoguense entendeu que o buraco é mais embaixo.
- A Ameaça Real: O Transfer Ban da FIFA (pela dívida de US$ 22,5 milhões com o Atlanta por Almada) e os atrasos nos direitos de imagem são problemas estruturais. Eles ameaçam a continuidade do clube, a permanência de jogadores e a credibilidade no mercado.
- O Gatilho: A promessa de dinheiro vindo de “amigos” foi a gota d’água. Para uma torcida escaldada por amadorismo, ouvir o dono de uma multinacional do futebol falar em “ajuda de amigos” soou como improviso, não como governança.
A Morte do “Salvador”
Nos primeiros anos, Textor era uma celebridade, o “John” que traria a glória. Hoje, ele é o CEO cobrado por resultados financeiros. A relação mudou. O torcedor deixou de ser fã do dono e virou fiscal da SAF.
- O Risco de Elenco: A crise financeira já contaminou o vestiário. Jogadores como Barboza travam renovações e empresários recomendam não fechar com o clube. A torcida sabe que, se o salário não cair, o time para de correr. A vitória de hoje não garante o empenho de amanhã se o Pix não chegar.
O “PSG Brasileiro” às Avessas?
Enquanto o Flamengo discute gastar R$ 1 bilhão, o Botafogo discute como pagar a luz (metaforicamente). A crise expõe a fragilidade do modelo multi-club da Eagle Football. Se a holding trava lá fora (litígios com a Ares/Iconic nos EUA), o Botafogo sangra aqui. O torcedor percebeu que o clube virou linha de uma planilha global que, neste momento, está no vermelho.