O Cruzeiro chegou à convocação da Seleção Brasileira com cinco jogadores na pré-lista de Carlo Ancelotti e terminou o anúncio de quarta-feira (9) com apenas um representante entre os 26 escolhidos. O goleiro Otávio foi chamado pela primeira vez para a equipe principal, enquanto Jonathan Jesus, Zé Lucas, Kaio Jorge e Matheus Pereira ficaram fora da relação definitiva.
Uma pré-lista é naturalmente maior e não garante convocação, por isso quatro cortes do mesmo clube não representam, sozinhos, uma surpresa. O caso de Matheus Pereira, porém, ganhou outra camada quando Ancelotti explicou publicamente a reconstrução que pretende fazer no meio-campo brasileiro e reconheceu a necessidade de encontrar novas características para o setor.
A lista oficial divulgada pela CBF tem Andrey Santos, Breno Bidon, Bruno Guimarães, Danilo Santos, Douglas Luiz e Gabriel Bontempo entre os meias. O grupo reúne jogadores de circulação, intensidade e capacidade de atuar de área a área, mas não inclui um camisa 10 de ofício com o perfil criativo que Matheus costuma exercer no Cruzeiro.
O problema apontado por Ancelotti encosta na principal qualidade de Matheus
Ao falar sobre a renovação da Seleção, Ancelotti destacou a procura por uma nova geração para o meio-campo. O treinador vem observando diferentes perfis e, segundo levantamento do UOL sobre as escolhas para o setor, reconheceu a dificuldade de encontrar determinados tipos de meio-campistas, enquanto boa parte das opções possui características de “box-to-box”.
É aí que a ausência do camisa 10 celeste fica mais interessante do que uma simples discussão sobre merecimento. Matheus não foi chamado, mas o problema que a comissão técnica tenta resolver passa justamente por uma região do campo na qual ele construiu sua relevância no futebol brasileiro.
Isso não significa que o jogador deveria ocupar automaticamente uma das seis vagas. A Seleção trabalha com funções específicas, comportamento sem a bola, idade, encaixe coletivo e planejamento para um ciclo que terminará na Copa de 2030, critérios que não aparecem completamente nas estatísticas produzidas por um atleta no clube.
Ainda assim, o contraste existe. Ancelotti decidiu renovar quase todo o setor e testar novos nomes, mas deixou de fora um jogador que já estava sendo monitorado e que voltou a aparecer entre os pré-convocados.
Matheus de 2026 também passou a oferecer algo além da criação

A leitura fica ainda mais interessante porque o Matheus Pereira desta temporada não é apenas o organizador que recebe a bola longe da área e procura o último passe. O Moon BH mostrou em agosto que o camisa 10 passou a ocupar zonas mais ofensivas e chegou a 11 gols em 2026, igualando a produção que havia alcançado durante toda a temporada de 2024.
Essa mudança revela um jogador mais presente perto da área e com maior participação na conclusão das jogadas. O número de assistências caiu em relação ao seu ano mais produtivo como garçom, mas a influência ofensiva foi redistribuída, algo que amplia as possibilidades de função em um meio-campo que procura novas respostas.
O próprio histórico recente com Ancelotti mostra que Matheus não está fora do radar. Antes da Copa do Mundo, o treinador já havia comentado publicamente que o meia e Kaio Jorge eram observados, e o cruzeirense chegou a alimentar expectativa de disputar o Mundial antes de ser cortado da relação definitiva.
Agora, a situação se repete em escala menor. Houve presença na relação preliminar, ausência entre os escolhidos e uma nova oportunidade para transformar o desempenho pelo clube em argumento para as próximas convocações.
Otávio prova que a hierarquia pode mudar depressa
A convocação de Otávio oferece ao próprio Cruzeiro um exemplo de como o cenário da Seleção pode mudar rapidamente. O goleiro de 20 anos começou o ano distante da condição de titular, ganhou espaço ao longo da temporada e chegou à primeira chamada para a equipe principal justamente na abertura do ciclo para 2030.
A escolha também mostra que atuar no futebol brasileiro não representa obstáculo para quem consegue entrar no perfil buscado pela comissão. A convocação tem dez atletas de clubes do país e oito estreantes, dentro de um movimento assumido de renovação depois da Copa.
Para Matheus Pereira, isso transforma os próximos meses em um argumento contínuo. Com o Cruzeiro concentrado na sequência do Campeonato Brasileiro, o camisa 10 terá partidas suficientes para mostrar se a versão mais goleadora de 2026 pode continuar entregando também a criatividade que sempre marcou sua passagem pela Toca da Raposa.
O corte, portanto, não fecha a discussão, especialmente porque o novo ciclo começou com uma lista construída para testes e observações. A questão para Matheus passa a ser aproveitar justamente a característica que o diferencia das opções escolhidas para permanecer perto do radar.
Para o Cruzeiro, sobra uma pergunta que pode acompanhar cada atuação do camisa 10 daqui para frente: se a Seleção continua procurando soluções para tornar seu meio-campo mais criativo, por quanto tempo Matheus Pereira conseguirá permanecer fora da lista definitiva?


