Há uma discussão recorrente no futebol brasileiro que, quando envolve goleiros, sempre rende polêmica: o quanto essa posição vale de verdade? No Atlético, o debate ganhou nome e número. Everson recebe R$ 650 mil por mês, é o goleiro mais bem pago do Brasileirão ao lado de Weverton, do Palmeiras, e é avaliado em apenas €900 mil pelo Transfermarkt. A conta não fecha à primeira vista. Mas o futebol raramente se resolve na primeira vista.
O goleiro chegou ao Atlético em setembro de 2020, ainda em litígio com o Santos, a pedido de Jorge Sampaoli. Desde então, nunca saiu. São mais de 370 jogos com a camisa alvinegra, sete títulos oficiais e uma relação construída nos momentos em que o time mais precisou. Em 2021, foi o goleiro menos batido do Brasileirão e parte decisiva do tricampeonato do clube naquela temporada, com Copa do Brasil e estadual incluídos. Já em 2024, manteve o Galo vivo nos pênaltis durante a campanha da Copa Libertadores. Por fim, em 2026, defendeu dois pênaltis e converteu o decisivo na classificação sobre o Ceará pela Copa do Brasil, repetindo uma cena já familiar para quem acompanha o clube há anos.
Não é torcicolo afirmar que Everson se tornou um dos maiores goleiros da história recente do Atlético.
Os números em um time que sofre pressão
Em 2025, o Atlético viveu uma temporada irregular. O elenco perdeu qualidade em relação ao ciclo vitorioso de 2023 e 2024, as trocas de técnico atrapalharam a sequência e o time terminou o Brasileirão na 11ª colocação. Nesse contexto, Everson foi um dos poucos que manteve consistência. Disputou 68 jogos na temporada, registrou 28 clean sheets e teve média de 3,8 defesas por partida no Brasileirão, a mais alta de toda a sua carreira no clube. O dado tem uma leitura dupla: por um lado, mostra um time mais vulnerável defensivamente. Por outro, mostra um goleiro que estava presente e atuante justamente nos momentos em que mais era exigido.
Em 2026, com o Atlético sob comando de Eduardo Domínguez, os números seguem estáveis. São 31 jogos disputados, com 5 partidas sem sofrer gols. A média de defesas por jogo continua alta, reflexo de um time que ainda busca o equilíbrio defensivo ideal. O goleiro acumula 22 pênaltis defendidos na história com o Galo, nenhum outro arqueiro do clube chegou perto disso. Everson saiu vitorioso em 6 das 9 disputas de pênaltis em que o Atlético participou desde que ele chegou, aproveitamento de 66,7%.
O mercado de goleiros no Brasil está inflacionado

Para entender o salário de Everson, é preciso entender o mercado que o rodeia. O posto de goleiro titular num grande clube brasileiro virou uma das funções mais bem remuneradas por jogo disputado em todo o futebol nacional. Cássio, no Cruzeiro, chegou a receber R$ 800 mil mensais. Weverton, no Palmeiras, está na mesma faixa de R$ 650 mil que Everson. Rossi, no Flamengo, R$ 530 mil. Hugo Souza, no Corinthians, R$ 520 mil. Volpi, no Grêmio, na casa dos R$ 400 mil.
Esse patamar reflete algo estrutural: o goleiro é a única posição em que um erro isolado pode custar um título, e os clubes brasileiros passaram a precificar isso de forma mais clara nos últimos anos. A diferença entre um goleiro confiável e um goleiro instável vai muito além da folha salarial. Um pênalti defendido, uma defesa em lance de bola parada no fim do jogo, uma saída de bola que inicia uma jogada ofensiva: são contribuições invisíveis no agregado, mas decisivas no resultado. O futebol brasileiro aprendeu essa lição, e os contratos começaram a refletir isso.
O Transfermarkt avalia Everson em €1 milhão. Usando a mesma lógica aplicada a outros jogadores, esse valor justificaria um salário de, no máximo, R$ 80 mil mensais. A diferença para os R$ 650 mil que ele recebe é enorme. Mas a plataforma usa critérios voltados para transferibilidade no mercado europeu, e Everson, com 35 anos, jamais será um ativo de exportação. Ele vale para quem já o tem. Isso não aparece em nenhuma fórmula do site alemão.
O que divide as opiniões
A polêmica em torno do salário de Everson não vem de seu rendimento atual. Vem da combinação entre idade, perspectiva de mercado e o custo de oportunidade que esse investimento representa para o Atlético. Com R$ 650 mil mensais comprometidos com um goleiro de 35 anos, o clube deixa de alocar esse recurso em outras posições do elenco. Em um Atlético que precisa se reconstruir após as turbulências de 2025, essa discussão é legítima.
Há também um contraponto claro. Quando o Bahia tentou contratar Everson ao fim de 2024, a proposta era de R$ 1 milhão por mês, por três anos, com possibilidade de extensão. O Atlético, além de segurar o jogador por menos, estabeleceu uma multa rescisória superior a R$ 200 milhões. O goleiro recusou um salário 54% maior para ficar em Belo Horizonte. Isso fala algo sobre o vínculo, mas fala mais ainda sobre o fato de que o clube soube negociar melhor do que a concorrência permitia.
Em 2026, a renovação elevou o salário de R$ 520 mil para R$ 650 mil, um reajuste de pouco mais de 25%. Dentro do contexto de mercado para a posição, o valor está alinhado com o que outros goleiros titulares de grandes clubes recebem. Não é o mais barato. Não é o mais caro. É proporcional ao que a posição representa neste mercado.
A questão real não é se R$ 650 mil é muito ou pouco para Everson. É se o Atlético tem um goleiro confiável para atravessar 2026 sem sobressaltos nessa posição. A resposta, por enquanto, é sim. E no futebol, segurança entre as traves é um dos ativos mais difíceis de precificar, e mais caros de repor quando faltam.





