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Atlético-MG coloca desafio em Mateo Cassierra após Hulk deixar o Galo

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O futebol, em sua natureza cíclica e muitas vezes cruel, não costuma dar tempo para o luto. No exato momento em que o Atlético-MG processa a despedida de seu maior ídolo do século, o destino tratou de colocar os holofotes sobre quem tem a missão ingrata de preencher o vazio deixado no placar. Com o gol marcado no empate por 1 a 1 contra o Botafogo, Mateo Cassierra atingiu a marca de cinco gols na temporada 2026, igualando-se ao agora ex-camisa 7 no topo da artilharia alvinegra.

A coincidência estatística é carregada de simbolismo. A ascensão do colombiano ocorre no vácuo de uma rescisão contratual que encerra uma era de cinco anos, 311 jogos, 140 gols e 56 assistências. Mas, para o torcedor que frequenta a Arena MRV, a pergunta que ecoa não é apenas quem fará os gols, mas sim como o Atlético aprenderá a caminhar sem a bengala técnica que Hulk representava.

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O Fim do “Hulksistema” e a Nova Dinâmica de Cassierra

Durante meia década, o Atlético operou sob o que podemos chamar de “Hulksistema”. Era um modelo de jogo gravitacional: a bola buscava o corpo do camisa 7, os adversários dobravam a marcação sobre ele, e o time se organizava a partir de suas arrancadas da direita para o meio ou de suas descidas para buscar jogo no círculo central. Hulk era, simultaneamente, o arquiteto e o executor.

Mateo Cassierra pelo Atlético após fazer gol
Foto: Pedro Souza / Atlético

Com Mateo Cassierra, a lógica de Eduardo Domínguez precisa ser radicalmente oposta. O colombiano é um centroavante de ofício, um “especialista em área” que não possui — e nem deveria ter — a característica de carregar o piano da construção ofensiva. Enquanto Hulk precisava tocar na bola 70 ou 80 vezes para se sentir no jogo, Cassierra é o jogador do “toque de elite”. Ele pode passar 15 minutos sem ser notado, apenas para reaparecer no espaço vazio e converter uma chance única.

Essa mudança exige uma evolução coletiva urgente. Sem a individualidade de Hulk para resolver jogos travados em um lance isolado, o Atlético precisa aumentar seu volume de criação. As alas, agora povoadas por talentos como Alan Minda e Renan Lodi, tornam-se corredores vitais para alimentar um atacante que depende visceralmente da qualidade do último passe. Cassierra não vai criar o próprio gol; ele vai punir a falha adversária após uma construção coletiva bem executada.

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O Vazio Simbólico: Liderança além das Quatro Linhas

Substituir os gols de Hulk é uma tarefa estatística; substituir sua presença é um desafio antropológico. O atacante era o “para-raios” da Cidade do Galo. Em momentos de crise, a responsabilidade era dele. Em momentos de glória, o troféu passava por suas mãos. Ele era o rosto da marca Atlético, o motor de bilheteria e o pesadelo psicológico dos zagueiros adversários antes mesmo do apito inicial.

Fotos: Pedro Souza / Atlético

Cassierra, embora competente e já integrado ao radar da Seleção Colombiana para a Copa de 2026, ainda é um “estrangeiro em adaptação” no quesito idolatria. Ele resolve a parte prática do problema — a rede balançando —, mas não herda automaticamente o comando emocional do vestiário. Esse espaço terá de ser ocupado por lideranças silenciosas que precisam subir o tom, como Everson, Guilherme Arana e o xerife Junior Alonso. O Atlético de 2026 será, por necessidade, um time de “muitos capitães”, já que nenhum jogador sozinho carrega hoje o magnetismo que Hulk ostentava.

Internacionalização como Estratégia de Sobrevivência

A transição de Hulk para Cassierra também revela a nova face da SAF alvinegra. O clube mudou o perfil de seu investimento. Se em 2021 o foco era repatriar estrelas brasileiras com salários de elite europeia, o projeto atual olha para a América do Sul como um mercado de eficiência e revenda.

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Cassierra é o expoente dessa “internacionalização”. Ao lado de nomes como Alan Franco e Ángelo Preciado, ele compõe um elenco que perdeu o brilho midiático da CBF (ficando fora da pré-lista de Carlo Ancelotti), mas ganhou relevância em outras seleções. Para o caixa do clube, essa mudança é saudável: reduz a dependência de um único ativo veterano e cria uma vitrine multinações que pode render frutos financeiros através do Programa de Benefícios aos Clubes da FIFA.

Esportivamente, o desafio de Domínguez é garantir que essa “Legião Estrangeira” não perca a identidade com a massa. O gol de Cassierra contra o Botafogo foi um passo importante para mostrar que existe vida — e competitividade — após o adeus do ídolo.

O Caminho para a Maturidade Coletiva

Eduardo Dominguez em campo pelo Atlético
Eduardo Dominguéz do Galo – Paulo Henrique França / Atlético

O “pós-Hulk” obriga o Atlético a amadurecer. É o fim do jogo de “herói e operários” para o início de uma democracia tática. Sem a tentação de entregar a bola no pé esquerdo do camisa 7 e esperar o milagre, o meio-campo terá de ser mais criativo, os pontas terão de ser mais agressivos no um contra um e a defesa terá de ser mais sólida para proteger vantagens magras.

Cassierra já provou que tem o “faro”. Cinco gols em um início de temporada conturbado não é uma marca desprezível. Ele dá profundidade ao time, prende os zagueiros e oferece um alvo claro para os cruzamentos de Lodi. O risco, no entanto, é a invisibilidade. Se o Atlético não produzir, Cassierra morre de fome. Hulk, por outro lado, buscava o próprio alimento na defesa.

A reconstrução do plano ofensivo passará pela capacidade de envolver mais peças na finalização. O Galo de 2026 precisa parar de procurar o “novo Hulk” e começar a valorizar o “novo Atlético”. Cassierra é a resposta para o gol, mas o elenco inteiro é a resposta para a ausência do ídolo. A era da dependência acabou; agora, começa a era da coordenação.

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Naiara Souza
Naiara Souza
Jornalista formada há quase dez anos pela Universidade Estácio de Sá, cobre o futebol há mais de cinco anos, focada em Cruzeiro, Atlético, Palmeiras e Flamengo, e também as notícias mais importantes sobre Belo Horizonte e Minas Gerais.

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