Gerada com ajuda de AI
A coisa mais curiosa da cultura sobre rodas brasileira é que tudo — absolutamente tudo — que se relacione aos carros pode virar notícia! Do mais banal ao trágico. Às vezes, assistindo ao jornal, fico imaginando como seria se não houvesse nenhuma reportagem sobre automóveis. O jornal não duraria nem cinco minutos!
Sem notícias sobre engarrafamentos, sem o frentista pendurado na janela tentando alcançar o motorista que fugiu sem pagar, sem as batidas no anel rodoviário, sem os motoqueiros esmigalhados, sem os projetos de pedágios ou sem o senador que arrumou um trator para acabar com um deles. Como seria?
Como seria sem as histórias de crianças esquecidas e mortas nos bancos de trás por adultos distraídos? Sem as tais prestações intermináveis ou os casos de manobristas que batem carros de luxo — que, francamente, pouco me importa a marca? Quem me dera virar notícia por deixar qualquer coisa cara quebrar no serviço! Como seria viver sem ouvir sobre a alta dos combustíveis, os buracos nas ruas, as avós atropeladas ao ajudar seus netos ou aquele sujeito arrogante que bateu o carro pela quinta vez, embriagado, nas madrugadas da cidade?
Fico pensando: como seria um jornal sem as notícias do IPVA e o tal número final da placa relacionado com uma data para pagamento? Ou sem as matérias sobre o cálculo do seguro? Como ficaríamos sem as imagens de assaltantes arrombando veículos, levando bolsas, celulares e causando medo — muito medo? É de se espantar!
Como seria viver sem o motorista reclamando da ciclovia e do congestionamento que, curiosamente, nunca existiram no tal local? Ou sem ouvir sobre os atrasos nas grandes avenidas — essas sim, que nunca viram, nem verão, qualquer espaço para ciclistas? Melhor nos distrairmos um pouco, rirmos, com a notícia sobre o tal influencer — que ninguém de fato conhecia — comprando um carro roxo de
bolinhas ou estilizando um veículo caríssimo com tema de um desenho infantil. E o carro do jogador de futebol? Qual será? Que curioso!
E o galho da árvore? Quando se fala de carros, o meio ambiente também tem seu espaço! No caso, aquela árvore que caiu na tempestade, amassando a lataria de alguém. Como se lataria fosse coisa viva — mais viva que a própria árvore! Essas árvores nem perdem tempo antes de “pularem” na frente de algum veículo em movimento. Melhor seria cortarmos tudo logo: duplicássemos as vias, tapássemos
os rios, asfaltássemos tudo! Se bem que não. Onde estacionaria meu carro na sombra? E as notícias sobre ruas alagadas e motoristas presos, transformando carros em pequenas ilhas? Não gostaria de ficar órfão delas.
De fato, seria muito estranho passar o dia sem assistir à cobertura de um acidente na estrada que matou uma família inteira ou daquela outra que sobreviveu por um milagre. Seria ótimo se esquecêssemos das 80 mortes diárias no trânsito brasileiro — gente jovem, saudável e com muito futuro — daqueles para quem nem milagre nem oração antes da partida adiantaram de alguma coisa. Deus é quem sabe das
coisas.
Como seria ligar no jornal sem ouvir que a poluição está alarmante, das ilhas de calor, que o estresse só aumenta e que novos pardais serão instalados? Essa indústria da multa é a culpada de todos os males!
Sempre me pego pensando nessas coisas. Como seria o noticiário sem os carros — e sem notícias sobre eles? Sem o carro esquisito da empresa do bilionário, sem o carro autônomo, sem o carro elétrico, sem o carro voador, sem o carro movido a água, sem o carro movido a gás, sem o carro que, independentemente do combustível, do meio, da tecnologia ou do condutor, insiste em trafegar mais lento que as carroças do século XIX com a sua inteligência equina? Sem o carro que sempre precisa de mais espaço, de uma nova ponte, de um novo viaduto; que exige que se tire ou coloque um sinal, que se tape um buraco, que se reforme a via que ele mesmo destruiu?
O que, afinal, o jornalista iria noticiar sem se ter carros? Seria um completo caos.
Marcelo Dias, 40, é doutorando em Ecologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pesquisando a relação entre a diversidade cultural indígena e a distribuição de espécies vegetais na América do Sul. Mestre em Ecologia pela UFMG, com estudos sobre biodiversidade em Terras Indígenas e Unidades de Conservação, também possui mestrado em Fisiologia, com pesquisa sobre o comportamento visual e de piscar de corujas-buraqueiras (Athene cunicularia).
Licenciado em Ciências Biológicas, tem formação interdisciplinar com interesse em ecologia, antropologia, história e fisiologia comparada, além de experiência em pesquisas de campo e iniciação científica com registros eletrofisiológicos em aves.
Cidadão de Belo Horizonte, atua desde 2013 como professor de ciências na rede municipal, desenvolvendo projetos de meio ambiente, educação ambiental e a educação de jovens e adultos. Defende uma cidade mais sustentável, com maior respeito às pessoas e ao meio ambiente, pautada na justiça social e na valorização dos saberes tradicionais e da biodiversidade.
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