As paradas programadas para manutenção na usina de Ouro Branco, na Região Central de Minas Gerais, foram o principal fator responsável pela queda de 10,4% na produção brasileira de aço bruto da Gerdau no terceiro trimestre de 2026. A informação consta no balanço financeiro (3T26) divulgado pela siderúrgica nesta semana.
Entre julho e setembro, as operações da Gerdau no Brasil produziram 1,471 milhão de toneladas de aço bruto. No mesmo período de 2025, o volume foi de 1,641 milhão. A retração representa 170 mil toneladas a menos no intervalo de um ano. Na comparação direta com o segundo trimestre de 2026 (1,560 milhão de toneladas), a redução foi de 5,7%.
A siderúrgica não detalhou o volume exato da perda produtiva restrita à planta mineira, mas atribuiu a retração geral no país diretamente às interrupções técnicas em Ouro Branco. A queda não foi maior porque houve compensação parcial pelo aumento na produção de aços especiais em outras unidades.
Queda na utilização da capacidade e alta de custos
O reflexo operacional das manutenções ficou evidente na taxa de utilização da capacidade instalada. O segmento Brasil da Gerdau operou com 77% de ocupação no terceiro trimestre, patamar inferior aos 79% do segundo trimestre e bem distante dos 85% registrados no mesmo período de 2025.
Esse número abrange todas as operações nacionais e não se confunde com o corte estrutural da capacidade da empresa: a redução do limite nacional de 7,9 milhões para 7,7 milhões de toneladas anuais registrada no trimestre ocorreu pelo fechamento da área de aciaria da unidade Açonorte, em Pernambuco, e não por cortes em Minas Gerais.
As paradas em Ouro Branco também pressionaram os balanços de despesas. O custo das vendas da operação brasileira subiu 2,4% ante o segundo trimestre. O indicador foi influenciado pela manutenção dos custos fixos industriais da planta durante a inatividade e pelo encarecimento de insumos básicos, como carvão, diesel e materiais importados.
Rentabilidade sobe com foco no mercado interno
Apesar da queda de 9,7% na receita líquida brasileira (de R$ 7,697 bilhões para R$ 6,948 bilhões) e do forte recuo de 14,6% nos embarques totais, a rentabilidade da operação no Brasil melhorou. O EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado atingiu R$ 741 milhões, recuo mínimo de 2,8% em base anual. Consequentemente, a margem EBITDA avançou de 9,9% para 10,7%.
O resultado positivo derivou de uma mudança comercial. A Gerdau cortou suas exportações a partir do Brasil quase pela metade (-47,9%), derrubando o volume exportado de 330 mil para 172 mil toneladas. As vendas externas, que representavam 21% dos embarques, caíram para 13%.
A siderúrgica redirecionou o foco para o mercado interno. Embora os embarques domésticos totais tenham caído 5,8% na comparação anual, houve crescimento de 7,7% nas vendas de aços planos (produzidos prioritariamente em Ouro Branco), atingindo 420 mil toneladas. A estratégia permitiu à empresa cobrar preços melhores e preservar o resultado financeiro, mesmo vendendo menos toneladas.
O peso da América do Norte e o cenário global
No acumulado de janeiro a setembro de 2026, a produção brasileira de aço bruto ficou em 4,500 milhões de toneladas, praticamente empatada com os 4,505 milhões do ano anterior (queda de apenas 0,1%). O dado isola as paradas de Ouro Branco como um evento restrito ao terceiro trimestre. No entanto, o cenário comercial permanece pressionado: as importações brasileiras de aço cresceram 19,8% em relação ao trimestre anterior.
O balanço consolidado da Gerdau escancara a dependência do exterior. A companhia encerrou o trimestre com EBITDA ajustado de R$ 3,771 bilhões (alta anual de 37,8%). Desse total, as operações nos Estados Unidos e Canadá geraram R$ 2,9 bilhões, respondendo sozinhas por 76,4% do resultado global da empresa. O descompasso é evidente: embora Brasil e América do Norte representem fatias semelhantes nos volumes físicos de vendas (45,4% e 44,2%, respectivamente), o lucro gerado na operação norte-americana é brutalmente superior.
Apesar da assimetria, Minas Gerais segue como eixo de capital intensivo. Ouro Branco, abastecida por duas minas de minério de ferro da Gerdau no estado, receberá a nova plataforma de mineração de Miguel Burnier, em Ouro Preto. O projeto entrou em fase final de testes integrados e tem início de operação previsto para o quarto trimestre de 2026, recebendo a maior parte dos R$ 955 milhões investidos globalmente pela companhia no período.


