A Atlas Lithium informou nesta quarta-feira (9) que aproximadamente 71% dos gastos diretos de capital previstos para o Projeto Neves já estão cobertos por contratos assinados e acordos firmes com fornecedores em Minas Gerais. O ponto mais relevante está no preço: somados, esses contratos ficaram cerca de 16% abaixo dos valores previstos para as mesmas etapas no estudo definitivo de viabilidade da companhia.
O empreendimento fica no Vale do Jequitinhonha, região que passou de fronteira de pesquisa mineral a uma das áreas mais disputadas do país por empresas interessadas em minerais usados em baterias.
A economia ainda não significa que todo o Projeto Neves ficará 16% mais barato. O percentual divulgado pela companhia se refere especificamente às parcelas do orçamento que já foram contratadas.
Mesmo assim, fechar mais de dois terços dos custos diretos abaixo da estimativa original reduz uma das principais incertezas financeiras de um projeto que ainda precisa atravessar a fase de implantação até chegar à produção comercial.
Onde a Atlas conseguiu gastar menos
Segundo o comunicado divulgado pela Atlas Lithium, os contratos já fechados abrangem algumas das etapas mais relevantes da implantação.
Entram na lista terraplenagem e obras civis, montagem eletromecânica da planta de separação por meio denso, sistema de britagem e peças de reposição, infraestrutura elétrica, engenharia detalhada, gerenciamento e supervisão das obras, construção dos prédios administrativos e operacionais e logística da planta dentro do Brasil.
De acordo com a empresa, os fornecedores foram escolhidos por meio de processos competitivos que avaliaram experiência técnica, desempenho, qualidade e custo.
O resultado chama atenção porque projetos minerais são particularmente sensíveis a mudanças de orçamento. Equipamentos importados, câmbio, mão de obra, obras civis e atrasos podem transformar rapidamente uma estimativa inicial em um investimento maior.
Ao conseguir contratar parte relevante da implantação abaixo da previsão, a Atlas ganha uma margem adicional antes mesmo de produzir.
O tamanho da conta que ainda está em jogo
O estudo definitivo de viabilidade do Projeto Neves estimou US$ 57,6 milhões de CAPEX direto. Esse número não deve ser confundido com o valor dos contratos anunciados agora: a companhia informou apenas que 71% do orçamento direto está contratado e que os custos correspondentes ficaram 16% abaixo das estimativas originais.
A economia importa porque o projeto foi desenhado justamente para competir por custo.
Segundo o estudo apresentado pela empresa, a operação teria capacidade média para produzir aproximadamente 146 mil toneladas por ano de concentrado de espodumênio, com teor de 5,5% de óxido de lítio.
As projeções da própria Atlas apontam ainda custo operacional de cerca de US$ 489 por tonelada, taxa interna de retorno após impostos de 145% e prazo estimado de 11 meses para retorno do investimento. São projeções financeiras e dependem de fatores como preço futuro do lítio, produção efetiva, custos operacionais e cumprimento do cronograma.
O desafio agora é transformar essas estimativas em operação real.
Planta já está no Brasil e produção é prevista para 2027
Outro risco importante já foi parcialmente retirado do caminho.
O Projeto Neves possui as licenças necessárias para avançar até a produção comercial, segundo a Atlas, e a planta de processamento adquirida pela empresa já está no Brasil, aguardando montagem.
Em julho, a companhia informou em seu cronograma atualizado do projeto que trabalha para iniciar a produção comercial no quarto trimestre de 2027, com capacidade projetada próxima de 150 mil toneladas anuais.
A empresa também afirmou ter recebido manifestações de interesse comercial que, somadas, representam mais de três vezes a futura capacidade de produção. Interesse, entretanto, não deve ser confundido com venda garantida: o avanço até 2027 ainda depende da construção e do início efetivo da operação.
Minas já tem lítio; desafio é capturar mais valor

O avanço do Projeto Neves acontece enquanto Minas tenta ampliar o valor econômico de seus minerais críticos.
O estado já concentra boa parte da atividade brasileira relacionada ao lítio e passou a receber projetos de empresas internacionais no Jequitinhonha. O Capital M mostrou recentemente que a canadense Spark pretende investir R$ 150 milhões em pesquisas de lítio, terras raras e gálio na região. A BYD também adquiriu direitos minerários no Vale, aumentando a conexão entre a mineração mineira e a indústria global de baterias.
Existe, porém, uma diferença importante entre possuir reservas, pesquisar depósitos e colocar uma mina comercial em funcionamento.
O Projeto Neves está tentando avançar justamente nessa transição.
E o dado divulgado nesta quarta-feira oferece uma pista relevante sobre as chances econômicas da operação: antes de começar a produzir, a Atlas já conseguiu contratar 71% de uma das principais contas do projeto pagando menos do que havia calculado.
Em mineração, onde estouros de orçamento podem inviabilizar projetos inteiros, começar abaixo da conta prevista pode ser tão importante quanto encontrar o mineral no subsolo.


