Quem passa hoje pela Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, encontra jardins simétricos, palmeiras, fontes, edifícios históricos e o Palácio da Liberdade como cenário de uma das regiões mais conhecidas da capital. O que pouca gente sabe é que parte daquela paisagem foi redesenhada para receber um casal real e que essa visita ajudou a aproximar Minas Gerais do capital europeu que, pouco depois, daria origem a uma das empresas mais importantes da história industrial do estado: a Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira.
Em outubro de 1920, o rei Alberto I e a rainha Elisabeth, da Bélgica, chegaram a Belo Horizonte acompanhados do presidente Epitácio Pessoa. O Brasil republicano recebia, pela primeira vez, representantes de uma monarquia europeia. Na capital mineira, o desembarque ocorreu na Praça da Estação. De lá, os visitantes seguiram de carruagem até o Palácio da Liberdade, preparado para recebê-los como um gesto político, diplomático e também econômico.
A Praça da Liberdade também entrou nessa encenação. O desenho original, de linhas mais arredondadas, foi alterado para um formato geométrico, de inspiração francesa, numa tentativa de dar ao coração político de Minas ares mais próximos dos jardins europeus. Arthur Bernardes, então presidente do estado, queria mostrar uma capital moderna, organizada e aberta aos negócios.
A visita durou pouco, mas deixou marcas. O Palácio ganhou móveis e adaptações. Uma sala usada pela rainha passou a ser lembrada como Sala da Rainha. Os reis ainda presentearam Bernardes com cisnes negros, origem de uma tradição mantida por décadas nos jardins do palácio. A cena parece apenas curiosidade de almanaque, mas havia algo maior por trás: Minas tentava vender à Europa seu potencial siderúrgico.
A diplomacia que virou aço
A aproximação com a Bélgica não surgiu no vazio. Minas tinha minério, carvão vegetal, ambição industrial e políticos interessados em transformar o estado em base de uma siderurgia moderna. O Brasil ainda dependia fortemente de importações de aço, e a produção nacional estava longe de atender às necessidades de ferrovias, construção, máquinas e infraestrutura.
Um registro catalogado pelo IBGE resume o cálculo político daquele momento: Arthur Bernardes queria evidenciar o potencial siderúrgico de Minas e sensibilizar o rei belga para atrair investidores europeus ao estado. A visita, portanto, não era apenas um passeio protocolar pela nova capital mineira. Era uma vitrine.
No ano seguinte, a semente empresarial ganhou forma. Em 11 de dezembro de 1921, a Companhia Siderúrgica Mineira, criada em Sabará por engenheiros brasileiros em 1917, recebeu aportes da Aciéries Réunies de Burbach-Eich-Dudelange, a ARBED, grupo siderúrgico europeu de origem luxemburguesa. A partir dali, passou a se chamar Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira.
A própria memória belga no Brasil trata o investimento como resultado da visita de Alberto I ao país. O rei, ao voltar à Europa, ajudou a divulgar o potencial brasileiro para a indústria siderúrgica. A Belgo-Mineira nascia dessa combinação pouco comum: minério mineiro, engenheiros brasileiros, capital belgo-luxemburguês e uma estratégia política de industrialização.
Sabará foi o primeiro endereço. Ali, a empresa operava com um alto-forno a carvão vegetal que, para a época, era o maior do Brasil, com capacidade de produzir 25 toneladas por dia de gusa. Em 1925, a unidade passou a ser considerada a primeira planta industrial integrada de aço da América do Sul, um marco para um país que ainda engatinhava na indústria pesada.
De Sabará a João Monlevade
A história da Belgo-Mineira não ficou restrita a Sabará. O nome que mais moldou sua expansão foi Louis Ensch, engenheiro luxemburguês que assumiu a reorganização da companhia e conduziu a construção do complexo de João Monlevade. Ao longo das décadas, a empresa ajudou a criar não apenas uma usina, mas uma cidade industrial, com vilas operárias, equipamentos sociais, escola, hospital e uma cultura urbana fortemente ligada ao aço.
A antiga Belgo se tornou uma das bases da siderurgia brasileira. Produzia aços longos, abastecia a construção civil, a indústria e a infraestrutura, e fez de Minas um dos centros mais relevantes da produção siderúrgica nacional. A empresa atravessou ciclos políticos, crises econômicas, mudanças tecnológicas e reorganizações globais do setor.
Com o tempo, o nome Belgo-Mineira saiu da fachada principal, mas não desapareceu da economia. A companhia foi incorporada ao grupo ArcelorMittal, criado em 2006, com sede em Luxemburgo. Hoje, a herança industrial da Belgo aparece em diferentes braços: na ArcelorMittal Brasil, dona de operações de aço, mineração, bioflorestas, energia e distribuição; e na Belgo Arames, marca ligada à parceria entre ArcelorMittal e Bekaert.
A ligação com Minas continua forte. A ArcelorMittal Brasil tem sede em Belo Horizonte e unidades industriais em oito estados, mas mantém ativos estratégicos no estado, incluindo operações de aços longos, mineração em Minas e bioflorestas. A companhia também cita as minas do Andrade e de Serra Azul como parte da integração entre mineração de ferro e produção de aço no país.
A gigante atual e o tamanho do faturamento
Se a Belgo-Mineira foi uma das grandes empresas industriais de Minas no século 20, sua herdeira corporativa segue entre os maiores grupos empresariais ligados ao estado. Em 2025, a ArcelorMittal Brasil registrou receita líquida consolidada de R$ 61,76 bilhões.
balanço do ano mostra um setor pressionado. A produção total de aço ficou em 15,14 milhões de toneladas, queda de 1,3%. As vendas chegaram a 14,9 milhões de toneladas, sendo 57% no mercado interno e 43% no mercado externo. O Ebitda consolidado somou R$ 8,08 bilhões, também em queda, e o resultado final foi negativo em R$ 2,2 bilhões.
A explicação passa por uma combinação dura para a siderurgia brasileira: aço importado, concorrência asiática, excesso global de capacidade produtiva e tarifas americanas. Em 2025, as importações de laminados no Brasil chegaram a 5,7 milhões de toneladas, alta de 20,5% sobre o ano anterior, com uma taxa de penetração de 21%. Para uma indústria de capital intensivo, esse nível de competição comprime margens e dificulta novos investimentos.
No outro braço da história, a Belgo Arames mantém vivo o nome que nasceu da antiga siderúrgica. A empresa se apresenta como fruto da parceria entre ArcelorMittal e Bekaert e atua em segmentos como agronegócio, construção civil, cercamentos, automotivo, solda, petróleo, energia e mineração. Suas unidades fabris incluem Contagem e Sabará, em Minas, além de Osasco, Feira de Santana, Itaúna e Sumaré em diferentes linhas de negócio.
Em 2024, a Belgo Arames anunciou investimento de R$ 20 milhões na fábrica de telas de Contagem, com a meta de dobrar a capacidade da linha de cercamentos urbanos e gradis até o primeiro trimestre de 2025. A unidade é tratada pela empresa como a primeira fábrica dedicada exclusivamente à fabricação de gradis no Brasil.
A visita dos reis da Bélgica não criou sozinha a Belgo-Mineira. Mas ajudou a abrir portas, consolidar relações e apresentar Minas como território de indústria pesada. O que começou como gesto diplomático virou fábrica, cidade, emprego, aço, arame, mineração e faturamento bilionário. Poucos episódios da história de Belo Horizonte renderam uma consequência econômica tão duradoura.


