A nova rodada de tarifas discutida pelos Estados Unidos acendeu alerta para a indústria brasileira e pode atingir setores importantes de Minas Gerais. A Confederação Nacional da Indústria estima que 4.187 produtos exportados pelo Brasil aos norte-americanos podem chegar a uma taxação acumulada de até 37,5%, caso duas propostas em análise sejam adotadas.
O valor afetado é relevante: US$ 14,9 bilhões em exportações brasileiras. A maior parte desses produtos, segundo a CNI, é formada por bens intermediários, usados como insumos em processos industriais. Isso significa que o impacto não ficaria restrito a mercadorias de consumo final. Poderia chegar a cadeias produtivas inteiras, tanto no Brasil quanto nos próprios Estados Unidos.
Minas entra nessa discussão por um motivo simples: os EUA são um dos principais mercados para produtos industriais mineiros. Em 2025, o país foi o segundo maior destino das exportações do estado, atrás apenas da China. A pauta inclui café, ferro-gusa, ferroligas, transformadores, equipamentos elétricos, máquinas, alimentos processados, joias, pedras e produtos ligados à indústria de base.
Se as duas forem aplicadas aos mesmos produtos, a carga poderia chegar a 37,5%. Ainda não é decisão final.
O que preocupa Minas hoje
O produto mineiro mais sensível nessa discussão é o ferro-gusa. Ele é usado pela siderurgia norte-americana e tem forte presença na pauta de exportações de Minas para os Estados Unidos. Levantamento da FIEMG mostrou que o ferro-gusa respondeu por cerca de US$ 1 bilhão das vendas mineiras ao mercado norte-americano, atrás apenas do café.
A diferença é que o café aparece como produto estratégico e foi tratado entre os itens isentos em propostas anteriores. O ferro-gusa, não. Ele já vinha pagando tarifa adicional de 10% e poderia chegar a 35% se a sobretaxa de 25% for confirmada.
A situação é delicada porque parte da indústria mineira de ferro-gusa depende fortemente dos Estados Unidos. Não se trata de um produto que pode ser facilmente redirecionado de uma semana para outra. Há contratos, padrões técnicos, logística e relacionamento comercial construído ao longo de anos.
Além do gusa, aparecem no radar máquinas e equipamentos, dispositivos elétricos, transformadores, conversores, alimentos processados, joias, bijuterias e bens industriais. São setores com menor visibilidade que minério e café, mas importantes para regiões industriais de Minas.
Por que a tarifa pode afetar mais que exportadores
Quando uma tarifa sobe, o primeiro impacto aparece na competitividade. O produto brasileiro chega mais caro ao comprador norte-americano. Se houver concorrente de outro país sem a mesma sobretaxa, o cliente pode trocar fornecedor, renegociar preço ou reduzir pedidos.
Para empresas mineiras, isso pode significar margem menor, queda de produção, atraso em investimentos e mais cautela na contratação. Em setores industriais, a redução de volume nem sempre é simples. Fábricas têm turnos, contratos de energia, fornecedores, estoque, frete e mão de obra especializada.
Há também efeito indireto. Um fabricante de máquinas em Minas pode não exportar diretamente para os Estados Unidos, mas vender peça ou equipamento para uma empresa que exporta. Um fornecedor de embalagem, metal, componente elétrico ou serviço logístico pode sentir a queda mesmo sem aparecer na estatística de comércio exterior.
O que está sendo discutido em Washington
A proposta de tarifa adicional de 25% vem de uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana. O órgão apontou práticas brasileiras que, na avaliação dos EUA, seriam restritivas ao comércio, envolvendo temas como comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal.
A audiência pública sobre essa proposta ocorre em Washington. A CNI será representada pelo embaixador Roberto Azevêdo. Segundo a entidade, dos 80 inscritos para falar na audiência, 66 devem se posicionar contra a medida. A expectativa é que uma decisão final saia até 15 de julho.
Há ainda uma segunda frente, relacionada a investigações sobre trabalho forçado. Nesse caso, o Brasil aparece entre os países que podem ser alcançados por uma tarifa de 12,5%. A audiência dessa etapa também está prevista para esta semana nos Estados Unidos.
Para Minas, a soma das duas discussões é o que torna o cenário mais preocupante. Uma tarifa de 10% já reduz competitividade. Uma de 35% ou 37,5% pode tirar produto do mercado.


