O Governo de Minas lançou o Guia Abrindo Fronteiras: Oportunidades de Exportação para a Cachaça Mineira, publicação voltada a produtores, empresas e entidades do setor que querem acessar mercados internacionais. A iniciativa mira uma cadeia com força cultural consolidada, mas que ainda exporta pouco diante do tamanho da produção. Minas é o maior produtor nacional de cachaça de alambique, reúne cerca de 40% dos estabelecimentos produtores do país e tem produtores registrados em 256 municípios, o equivalente a quase um terço das cidades mineiras.
Em 2025, o estado exportou 337 toneladas de cachaça, com receita de US$ 1,5 milhão, alcançando 14 mercados internacionais. Os principais destinos foram Uruguai, com US$ 478,7 mil; Estados Unidos, com US$ 446,1 mil; Itália, com US$ 264,7 mil; Austrália, com US$ 91,8 mil; e Reino Unido, com US$ 79 mil. O número mostra potencial, mas também revela o tamanho do desafio: no exterior, a cachaça ainda disputa espaço com rum, tequila, mezcal, gin, uísque e vodca, categorias que conseguiram transformar origem em marca global.
Quais cidades lideram as exportações de cachaça em Minas
A distribuição das exportações mineiras de cachaça em 2025 mostra que o setor vai além dos alambiques familiares mais conhecidos. Extrema liderou em valor exportado, com US$ 756,1 mil. Salinas, a cidade do Norte de Minas mais associada à cachaça de alambique no imaginário nacional, aparece em segundo lugar, com US$ 296,2 mil. Araxá exportou US$ 151,6 mil, Novorizonte chegou a US$ 144,9 mil e Matozinhos somou US$ 79,9 mil.
Salinas continua sendo a referência simbólica do setor, mas o mapa exportador de Minas já inclui empresas mais estruturadas e regiões que buscam transformar a cachaça em ativo econômico permanente. O guia contou com apoio dos setores de promoção comercial das embaixadas brasileiras em Assunção, Montevidéu, Madri e Roma, indicando atenção especial aos mercados da América do Sul e da Europa como rotas prioritárias para a bebida mineira.
O que é preciso para exportar além da boa bebida
A aposta do guia é ajudar o produtor a entender que não basta ter uma boa bebida para acessar o mercado externo. Para exportar com regularidade, é preciso registro sanitário, padrão de produto, documentação completa, embalagem adequada ao mercado de destino, volume mínimo, regularidade de lote, capacidade de reposição e leitura sobre o perfil do consumidor estrangeiro.
Em muitos países, a cachaça ainda aparece ligada quase exclusivamente à caipirinha. Essa associação ajuda a abrir portas, mas limita a categoria. Para crescer fora do Brasil, a bebida precisa ocupar outros espaços: bares de coquetelaria, lojas especializadas, restaurantes brasileiros, empórios premium, festivais gastronômicos e cartas de destilados ao lado de outros produtos de origem reconhecida.
Minas tem vantagens nesse posicionamento. A produção de alambique permite contar uma história próxima do território, do pequeno produtor e do processo artesanal. O envelhecimento em madeiras brasileiras como amburana, bálsamo, jequitibá e carvalho ajuda a diferenciar a bebida em um mercado acostumado a destilados envelhecidos. A cachaça mineira de alambique foi reconhecida como patrimônio cultural do estado desde 2007, elemento que fortalece a narrativa de origem.
A cachaça como cartão de visita de Minas no mundo
A bebida mineira tem uma vantagem que poucos produtos de exportação possuem: ela pode vender Minas antes mesmo de ser consumida. Uma garrafa em uma prateleira de Montevidéu, Nova York, Roma ou Londres pode funcionar como convite para conhecer Salinas, rotas de alambiques, gastronomia mineira, queijo artesanal e turismo rural.
O Anuário da Cachaça 2025, do Ministério da Agricultura, confirma a liderança de Minas em números: 501 estabelecimentos elaboradores registrados em 2024 e 2.492 produtos de cachaça registrados, representando 34,5% do total brasileiro.
Vinhos, queijos, cafés especiais, azeites, tequilas e uísques construíram esse tipo de associação entre produto e território ao longo de décadas. A cachaça mineira tem os ingredientes para percorrer esse caminho, mas ainda não chegou ao ponto em que a origem vira diferencial de preço e não apenas de narrativa.





