O Grupo Mateus, gigante maranhense que domina parte expressiva do varejo alimentar no Norte e no Nordeste, enfrenta uma fase de reorganização operacional e uma nova pressão tributária bilionária. Na segunda-feira, 29 de junho, a companhia informou ao mercado que sua controlada Armazém Mateus recebeu um auto de infração da Receita Federal no valor de R$ 1,28 bilhão, referente à exclusão de créditos presumidos de ICMS da base de cálculo do IRPJ e da CSLL nos exercícios de 2022 e 2023.
O que a autuação fiscal representa
Do total de R$ 1,28 bilhão cobrado, R$ 492,9 milhões correspondem ao valor principal e R$ 789,1 milhões se referem a multas e juros acumulados. O Grupo Mateus afirmou que possui fundamentos jurídicos para defender sua posição e classificou a contingência como perda possível, indicando que o desfecho do processo ainda é incerto. A discussão começa na esfera administrativa e pode se estender ao Judiciário, com tramitação que costuma levar anos.
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O caso se soma a outra autuação recebida pela Armazém Mateus em 2024, no valor de R$ 1,059 bilhão, referente ao período de 2014 a 2021. A discussão nos dois processos é semelhante: a exclusão de créditos presumidos de ICMS concedidos por estados da base de cálculo de tributos federais. Empresas que recebem incentivos fiscais estaduais costumam defender que esses valores não deveriam compor a base de IRPJ e CSLL, enquanto a Receita Federal, em diversos casos, adota entendimento contrário. A XP calculou que a nova autuação equivale a cerca de 15% do valor de mercado da companhia.
Fechamento de lojas não significa retração no varejo alimentar
O fechamento de unidades pelo Grupo Mateus precisa ser interpretado com precisão. Segundo levantamento baseado nos resultados da empresa, a companhia fechou 28 lojas em 2025 e reduziu 8,8% do quadro de funcionários. As unidades encerradas eram especializadas em eletrônicos e móveis, e outras 20 lojas de varejo alimentar tiveram seus departamentos de eletro fechados.
O movimento não representa uma retirada do varejo alimentar, que continua sendo o núcleo da empresa. O Grupo Mateus encerrou o primeiro trimestre de 2026 com 228 lojas de varejo alimentar e 306 unidades totais em operação, somando atacarejo, varejo, eletro, foodservice e o Novo Atacarejo. A companhia também abriu quatro lojas no período, três atacarejos da bandeira Mix Mateus e um supermercado, mantendo presença em 132 cidades de nove estados, com 18 centros de distribuição e mais de 47 mil clientes mensais no atacado B2B.
O que está em curso é uma transição de prioridade. Depois de anos de expansão acelerada, incluindo a incorporação do Novo Atacarejo, a empresa passou a cortar áreas de menor rentabilidade e ajustar estruturas para defender margem. Os números do primeiro trimestre de 2026 confirmam essa mudança: a receita líquida cresceu 12,9%, para R$ 9,4 bilhões, mas as vendas nas mesmas lojas caíram 7,3%, sinal de perda de ritmo na operação comparável.
O lucro líquido foi de R$ 212,9 milhões, queda de 21,8% frente ao mesmo período do ano anterior. A companhia atribuiu o desempenho à deflação de alimentos, ao endividamento das famílias e à mudança no perfil de consumo, além de afirmar que priorizou rentabilidade em vez de volume em alguns canais.
O desafio de crescer com eficiência
O Grupo Mateus segue sendo uma das maiores redes supermercadistas do país, com presença regional dominante e operação lucrativa. O momento atual, porém, impõe uma cobrança diferente da que acompanhou os anos de expansão acelerada.
Depois de crescer rapidamente, incorporar novos formatos e ampliar cobertura geográfica, a empresa agora precisa demonstrar que a estrutura construída é capaz de gerar rentabilidade sustentável. A combinação de vendas nas mesmas lojas em queda, lucro menor e contencioso tributário bilionário aumenta a pressão sobre a gestão em um setor onde margens já são historicamente apertadas.
A rede ainda tem baixa alavancagem e capital para atravessar o período de ajuste. Mas o varejo alimentar cobra execução constante, e a percepção dos investidores sobre o grupo mudou diante de um cenário que reúne riscos fiscais, reorganização operacional e desaceleração nas lojas mais maduras.
*Correção: o texto original trazia um panorama de mercado citando o Supermercados BH e seu acionista, Pedro Lourenço. O Moon BH considerou que o teor poderia gerar uma interpretação equivocada e por isto retiramos esta parte do conteúdo.


