A privatização da Copasa entrou em uma fase menos política e mais operacional nesta segunda-feira (15). Depois de meses de discussão sobre modelo, preço, investidor de referência e papel do Estado, as ações objeto da oferta pública secundária passam a ser negociadas na B3, com liquidação física e financeira prevista para terça-feira (16).
A operação foi precificada a R$ 49,03 por ação e movimentou cerca de R$ 8,38 bilhões, segundo comunicados ao mercado. A Equatorial, por meio da Gerais Saneamento, ficou com 114.075.921 ações, o equivalente a 30% do capital da companhia, tornando-se a nova investidora de referência da empresa mineira de saneamento.
O movimento marca uma virada prática. Até a semana passada, a privatização ainda era tratada como promessa de mercado, disputa de propostas e decisão política do governo de Minas. A partir de agora, a discussão passa a ser execução: liquidação da oferta, aprovação no Cade, mudança de governança, relação com municípios e capacidade da nova estrutura de entregar investimentos.
A Copasa não receberá dinheiro novo diretamente com a operação, porque a oferta foi secundária. Ou seja, o Estado de Minas vendeu ações que já existiam. O caixa levantado vai para o acionista vendedor, não para a companhia. O desafio da nova fase será outro: usar a estrutura privada, a presença da Equatorial e o acesso ao mercado para acelerar eficiência, investimento e cumprimento das metas de universalização.
O que muda depois da oferta da Copasa
Com a liquidação da oferta, a Copasa deixa de ser uma companhia controlada pelo governo estadual e passa a operar com um acionista privado de referência. A Equatorial não ficará, formalmente, com mais da metade das ações, mas terá papel central na nova governança por deter 30% do capital e por ter sido escolhida como investidora âncora da operação.
Esse modelo se aproxima do que ocorreu na Sabesp, em São Paulo, onde a Equatorial também entrou como acionista de referência. Em Minas, a aposta do mercado é que o grupo leve para a Copasa uma gestão mais voltada a eficiência operacional, controle de custos, disciplina de investimentos e melhora de indicadores.
Mas há diferenças importantes. A Copasa atende um território mais disperso, com grande número de municípios, realidades regionais distintas e desafios fortes em esgotamento sanitário fora dos grandes centros. A universalização em Minas não depende apenas de dinheiro. Depende de contratos municipais, obras, licenciamento, capacidade de execução, regulação e relação política com prefeitos.
A Equatorial ainda terá de passar pelo Cade. A expectativa informada pela própria companhia é submeter a transação ao órgão antitruste em 17 de junho, com previsão de aprovação em cerca de 45 dias. Enquanto isso, o mercado já começa a negociar os papéis da oferta, mas a consolidação completa da nova estrutura ainda seguirá etapas formais.
Para o investidor, a segunda-feira marca a entrada efetiva das ações vendidas no mercado. Para o consumidor, a mudança não aparece imediatamente na torneira ou na conta de água. O serviço continua regulado, os contratos com municípios seguem válidos e as tarifas continuam dependendo das regras da agência reguladora. O efeito, se vier, tende a aparecer ao longo dos próximos anos, na forma de investimentos, obras, atendimento, expansão de rede e qualidade operacional.
Estado mantém 5% e golden share
O governo de Minas não sai completamente da Copasa. Após a oferta, o Estado ficará com cerca de 5,03% da companhia e uma golden share, ação especial que garante poderes específicos em temas considerados sensíveis.
Essa participação é pequena demais para dar controle. O Estado não terá mais poder para comandar a empresa, escolher sozinho a diretoria ou definir a estratégia da companhia como fazia quando era acionista controlador. Mas continuará presente na governança.
A golden share garante veto em assuntos específicos, como mudança de nome, transferência de sede e alterações no limite de voto previsto no estatuto. Também está prevista a indicação de um membro para o Conselho de Administração e um membro para o Conselho Fiscal, além dos respectivos suplentes, após nova assembleia.
Essa presença é importante politicamente, mas não deve ser confundida com controle estatal. O governo continuará podendo acompanhar a companhia por dentro, fiscalizar, participar de discussões estratégicas e defender cláusulas específicas. Não terá, porém, comando sobre a gestão diária.


