O resultado das urnas para a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) na eleição de 2026 desenhou um cenário de forças complexo e arriscado para o governador eleito Cleitinho Azevedo (Republicanos). Embora o PL tenha consolidado a maior bancada da Casa, elegendo 21 deputados estaduais, a leitura de articuladores políticos aponta para a ausência de uma maioria automática e para um empate técnico perfeito entre as extremidades ideológicas do Parlamento.
Longe de configurar uma onda avassaladora de um único campo, o bloco de oposição renasceu com o mesmo tamanho da bancada liberal. A soma da Federação PT/PV/PCdoB (15 do PT e 2 do PV) com o PSB (2) e a federação PSOL/Rede (2) também alcança 21 parlamentares. Caso o PDT e seu único deputado eleito sejam integrados à órbita progressista, a oposição sobe para 22 cadeiras.
Diante da equivalência dos polos, o fiel da balança será uma massa crítica de 34 deputados posicionados no centro político.
O desenho das forças no Legislativo mineiro:
| Bloco Político | Deputados | Principais Partidos |
| Direita | 21 | PL (21) |
| Esquerda / Oposição | 21 a 22 | Federação PT/PV/PCdoB (17), PSB (2), PSOL/Rede (2) e PDT (1) |
| Centro | 34 | PSD (9), PP (5), Republicanos (4), União Brasil (3), PRD (3), PSDB (3) |
O risco da Mesa Diretora e o efeito dominó
A configuração desta legislatura eleva o risco político das movimentações de Cleitinho em relação à sucessão na presidência da Assembleia. Durante a campanha, o governador eleito prometeu não interferir nas decisões internas do Legislativo. No entanto, seus acenos ao PL, evidenciados pelo forte engajamento na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, acenderam alertas nos bastidores.

Se o Palácio Tiradentes decidir chancelar ou patrocinar uma candidatura do próprio PL para o comando da ALMG, entregando o Executivo e o Legislativo ao mesmo grupo, o movimento pode provocar uma reação em cadeia. A imposição liberal pode empurrar o centro e a esquerda para uma aliança de sobrevivência institucional.
A união dos 34 deputados centristas aos 22 do bloco progressista formaria um superbloco de 56 parlamentares. Trata-se de um número mais do que suficiente para engessar a administração estadual, aprovar CPIs e travar projetos cruciais para o Executivo, como a renegociação da dívida pública de Minas Gerais.
O trunfo da neutralidade e o consenso
O perfil político de Cleitinho, marcado por transitar em pautas populares que dialogam com eleitores de diferentes matizes ideológicas, abre uma janela de oportunidade para a sua governabilidade. Como o seu próprio partido, o Republicanos, elegeu uma bancada modesta de quatro deputados, a sustentação do governo dependerá essencialmente da habilidade de dialogar em múltiplas direções.
Caso cumpra a promessa de distanciamento e estimule a escolha de um presidente de consenso que consiga pacificar o Plenário, Cleitinho poderá desarmar os ânimos da oposição antes mesmo de tomar posse. Na prática, a estabilidade política da futura gestão não estará ancorada na força dos 21 deputados do PL, mas sim na capacidade do Executivo de não transformar as outras 56 cadeiras em adversárias.
Quem sofreu ao tentar escolher lados?
Eduardo Cunha (Republicanos) chegou ao poder na presidência da Câmara dos Deputados ao vencer o candidato do PT, Arlindo Chinaglia, em 2015. Depois disso a relação entre os poderes foi de mal a pior, terminando com o impeachment da presidente Dilma Rousseff.
Mas temos exemplos em Minas. Agostinho Patrus se tornou um rival de Romeu Zema em seu primeiro mandato, o que causou um congelamento da pauta do Governo de Minas por anos, até que Tadeuzinho assumiu, sem interferência do governo e pacificou a relação. Em BH, a prefeitura decidiu lançar candidato próprio nas duas últimas eleições da Câmara Municipal de Belo Horizonte, o que também não deu certo.
Federal, estadual ou municipal, a história tem mostrado que o executivo tem mais a ganhar quando se mantém fora da disputa pela presidência do legislativo. Se ganhar, é bom, mas se perder, é desastroso.


