Quem costuma pegar estrada provavelmente já presenciou a cena: um carro segue acima do limite de velocidade, o motorista percebe o radar e freia pouco antes de passar pelo aparelho. Depois, volta a acelerar. Em quatro rodovias de Minas Gerais, uma tecnologia autorizada para testes pode tornar essa prática menos eficaz ao considerar o tempo gasto para percorrer um trecho inteiro.
O chamado radar de velocidade média compara a passagem do mesmo veículo por dois pontos da estrada. Com a distância entre os equipamentos e o intervalo entre os registros, o sistema calcula a média do percurso, permitindo identificar quando aquele segmento foi atravessado rápido demais.
Os projetos-piloto incluem trechos das BRs 040, 050, 116 e 381. A autorização, porém, é para uma experiência técnica e educativa: nesta etapa, a velocidade média registrada não poderá, sozinha, gerar multa ou outra penalidade.
Por que frear perto do radar pode não bastar
O radar convencional mede a velocidade do veículo no ponto em que está instalado. Assim, o registro feito por aquele aparelho não mostra a que velocidade o motorista dirigia vários quilômetros antes de chegar até ele.
No sistema em teste, a medição depende do tempo entre duas passagens. Se o condutor percorrer boa parte do trecho acima do limite e reduzir apenas perto do segundo equipamento, essa desaceleração pode não ser suficiente para que a média fique dentro da velocidade permitida.
Um exemplo hipotético ajuda a entender: um carro que percorre dez quilômetros em seis minutos desenvolve velocidade média de 100 km/h. Se completar a mesma distância em cinco minutos, a média sobe para 120 km/h, independentemente da velocidade exata no momento em que passa pela última câmera.
Isso não significa que o radar consiga reconhecer cada freada ou acompanhar todas as acelerações. O cálculo revela a média entre os pontos monitorados, mas não informa, por si só, onde ocorreram eventuais excessos ao longo daquele caminho.
Onde estão previstos os testes em Minas
Os locais autorizados abrangem seis segmentos distribuídos por quatro rodovias, conforme a relação de trechos divulgada pelo BHAZ. A implantação é específica para esses pontos, portanto não significa que toda a extensão das estradas passará a ter esse monitoramento.
Na BR-050, o trecho vai do km 171,270 ao km 182,100, no sentido Sul. A distância entre as extremidades é de 10,83 quilômetros.
A BR-040 terá dois segmentos: do km 546,400 ao km 553,800, no sentido crescente da quilometragem, e do km 552,020 ao km 547,110, no sentido decrescente. Os percursos têm, respectivamente, 7,4 e 4,91 quilômetros.
Na BR-381, a Fernão Dias, os pontos informados ficam nos quilômetros 524 e 528. Já na BR-116, estão previstos dois trechos: entre os quilômetros 499,435 e 507,760, no sentido Sul, e entre os quilômetros 711,315 e 700,705, no sentido Norte.
A autorização dos projetos não deve ser confundida com a confirmação de que todos os aparelhos já estejam funcionando. O prazo inicial de 180 dias dos experimentos começa a contar da efetiva implantação e do início do monitoramento, com possibilidade de prorrogação.
O novo radar já poderá aplicar multas?

A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) esclarece que a experiência tem “caráter exclusivamente técnico, educativo e experimental”. Por isso, os dados de velocidade média não poderão fundamentar, isoladamente, uma autuação durante os testes.
Essa restrição diz respeito ao novo sistema experimental. Ela não transforma os trechos em áreas livres de fiscalização nem permite desrespeitar os limites indicados nas placas.
Também não há autorização automática para começar a multar quando o período de testes terminar. Segundo a agência, uma eventual utilização com essa finalidade dependerá de avaliações técnicas, regulatórias e jurídicas, além das autorizações necessárias.
O que a experiência pretende descobrir
As concessionárias deverão encaminhar resultados mensais à ANTT, permitindo avaliar a confiabilidade das informações, o funcionamento dos equipamentos e o desempenho da operação. O comportamento dos motoristas também será observado, e a sinalização deverá informar a realização do experimento.
Uma das questões é entender como os condutores reagem quando o monitoramento considera um segmento da estrada. A expectativa é estimular o respeito ao limite durante o percurso, reduzindo a concentração da atenção apenas no local onde está instalado o radar.
Para quem dirige, a mudança está na abrangência da medição: passar devagar diante de uma câmera pode não compensar os quilômetros anteriores percorridos em excesso de velocidade. Por enquanto, os testes servirão para avaliar o funcionamento dessa tecnologia nas rodovias e reunir informações para decidir seus próximos usos.


