As estradas mineiras estão prestes a passar por uma virada tecnológica que vai muito além do tradicional controle de velocidade. A partir de junho de 2026, o Departamento de Edificações e Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER-MG) inicia a instalação de uma nova geração de radares inteligentes equipados com tecnologia de leitura automática de placas (OCR) em tempo real. A mudança transforma o antigo “pardal” em uma ferramenta de segurança pública e inteligência logística, capaz de cruzar dados e gerar alertas instantâneos para as forças policiais.
Paralelamente à chegada desses dispositivos, o motorista mineiro precisa se adaptar à consolidação do free flow — o sistema de pedágio eletrônico sem cancelas. Embora ambos usem sensores ópticos e leitura de placas, eles operam em faixas distintas do direito de trânsito: enquanto o radar fiscaliza o comportamento e a segurança viária, o free flow moderniza a arrecadação das concessões. Compreender essa nova malha digital é fundamental para evitar surpresas no orçamento e pontos desnecessários na carteira.
O “Big Brother” do DER-MG: Como Funcionam os Novos Radares
A implementação da nova rede de fiscalização eletrônica não obedece ao acaso. Os pontos de instalação são mapeados por ferramentas de geoprocessamento, priorizando trechos de rodovias estaduais (MGs) com históricos críticos de acidentes e rotas frequentemente utilizadas para escoamento irregular de cargas.
A inteligência embarcada nos novos equipamentos atuará em múltiplas frentes de identificação:
- Rastreamento de Ilícitos: Leitura instantânea da placa com cruzamento de dados para detectar veículos com queixa de roubo, furto ou suspeita de clonagem.
- Análise de Padrões: Monitoramento de deslocamentos incomuns, deslocamento de comboios suspeitos e acompanhamento de rotas repetitivas de risco.
- Fiscalização de Transportes: Verificação automática de regularidade para veículos que exigem documentos específicos, como a Autorização de Transporte Fretado (ATF) e a Autorização Especial de Transporte (AET).
O cronograma do Estado prevê a ativação inicial de 210 dispositivos inteligentes a partir de junho, somando-se à frota atual de 614 radares tradicionais. A meta de longo prazo do governo estadual é ousada: cobrir a malha mineira com 1.300 radares de alta tecnologia até 2028.
Desmistificando a “Indústria da Multa”: O Retorno em Economia
A reação imediata do condutor ao avistar um radar costuma ser de frustração, associando o poste metálico a uma mera máquina de arrecadação. Contudo, as estatísticas oficiais do Governo de Minas tentam quebrar essa percepção. Dados consolidados revelam que menos de 1% dos veículos que passam pelos pontos de fiscalização nas rodovias estaduais acabam sendo autuados.

O foco central do projeto é a redução do impacto socioeconômico dos acidentes. A estimativa técnica do Estado é que a presença dos novos dispositivos gere uma economia de aproximadamente R$ 76 milhões, decorrente da queda nos custos de resgate, internações hospitalares e reparos na infraestrutura viária. No futuro, a base de dados gerada nas estradas será integrada diretamente à Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp-MG) e à Secretaria de Estado de Fazenda (SEF-MG), transformando a placa do veículo em um ativo de inteligência fiscal e policial.
O Bolso Pesa: Valores e Penalidades para o Excesso de Velocidade
Para quem desrespeitar os limites regulamentados nas MGs, o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) aplica punições escalonadas de acordo com o percentual de velocidade verificado acima do permitido:
- Até 20% acima do limite: Infração de natureza média. Penalidade de R$ 130,16 e acréscimo de 4 pontos na CNH.
- De 20% a 50% acima do limite: Infração de natureza grave. Penalidade de R$ 195,23 e acréscimo de 5 pontos na CNH.
- Acima de 50% do limite: Infração de natureza gravíssima com fator multiplicador. Penalidade de R$ 880,41, acréscimo de 7 pontos e abertura de processo de suspensão do direito de dirigir.
Como Regularizar: Caso receba a autuação pelo DER-MG, o motorista pode acessar o Portal de Serviços do órgão para emitir guias, indicar o real condutor ou apresentar defesa prévia à JARI. O pagamento efetuado até a data de vencimento original garante 20% de desconto. Condutores que utilizam o Sistema de Notificação Eletrônica (SNE) e abrem mão do direito de recurso podem obter abatimentos ainda maiores, condicionados às regras da plataforma digital.
Free Flow: O Pedágio Sem Barreiras Avança em Minas
Se o radar pune o excesso, o free flow premia a fluidez. O sistema elimina as praças de pedágio físicas, as cabines e as tradicionais barreiras de parada. Em seu lugar, são instalados pórticos metálicos sobre a pista, repletos de câmeras de alta definição, sensores laser e antenas de radiofrequência.
A malha concedida em Minas Gerais já conta com experiências práticas do modelo:
- Pioneirismo Estadual: Ativo desde junho de 2024 no quilômetro 12,7 da MG-459, em Monte Sião, sob coordenação da concessionária EPR Sul de Minas.
- Malha Federal: Expansão acelerada de pórticos eletrônicos em trechos estratégicos da BR-381 (Nova 381) e da BR-262 (Way-262).
As Regras de Ouro para o Pagamento do Pedágio Eletrônico

A rota mais prática para o usuário é a instalação de uma TAG de pagamento automático (como Sem Parar, ConectCar, Veloe, entre outras) no para-brisa do carro. Nesse cenário, o débito ocorre de forma direta na conta do usuário, muitas vezes garantindo descontos progressivos por uso frequente oferecidos pelas concessionárias.
Para os motoristas que optam por rodar sem a TAG, a identificação é feita pela leitura da placa. A partir daí, o condutor precisa tomar a iniciativa de quitar o débito por conta própria:
- Prazos de Quitação: Nas rodovias estaduais geridas pelo DER-MG, o motorista tem o prazo de 15 dias após a passagem para efetuar o pagamento. Nas rodovias de jurisdição federal (ANTT), o Ministério dos Transportes estipulou o prazo limite de até 30 dias.
- Alerta de Segurança contra Golpes: O pagamento deve ser realizado exclusivamente pelos canais oficiais (sites ou aplicativos de celular) da concessionária responsável pelo trecho, ou via integração no aplicativo Carteira Digital de Trânsito (CDT). Evite clicar em links de cobrança recebidos por WhatsApp, SMS ou e-mails suspeitos, pois nem a ANTT nem as operadoras utilizam esses meios para fazer cobranças ativas.
O Fantasma da Evasão: Anistia Temporária e Penalidades
Ignorar os avisos dos pórticos do free flow é um erro que custa caro. A ausência de pagamento dentro dos prazos regulamentares é tipificada pelo CTB como evasão de pedágio, uma infração de natureza grave que resulta em multa de R$ 195,23 e a perda de 5 pontos na carteira de habilitação.
Em abril de 2026, diante do desconhecimento de boa parte da população sobre o funcionamento das cobranças eletrônicas, o governo federal anunciou uma medida de transição de forte impacto: a suspensão por 200 dias de 3,4 milhões de multas por evasão em todo o território nacional. Minas Gerais respondeu por 62.541 autuações dentro desse montante.
O prazo serve como um fôlego para os motoristas regularizarem os débitos pendentes e limparem os pontos da carteira. No entanto, o benefício tem data para acabar: a partir de 17 de novembro de 2026, o período de tolerância será encerrado pela Agência Brasil e os usuários inadimplentes voltarão a arcar com o valor integral das tarifas acumuladas e as punições severas do código de trânsito. A era digital chegou ao asfalto mineiro e a placa do seu carro agora é o seu documento operacional definitivo.


